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Correio Braziliense

Após 117 anos, futuro da Monsanto está nas mãos da Bayer

Nova empresa focará em tecnologia e inovação para tentar apagar a imagem da marca que durante muitos anos foi acusada de provocar danos severos ao meio ambiente


postado em 13/06/2018 06:00

Atualmente, a Monsanto está desenvolvendo a terceira geração de sementes de milho, soja e algodão utilizando a biotecnologia(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
Atualmente, a Monsanto está desenvolvendo a terceira geração de sementes de milho, soja e algodão utilizando a biotecnologia (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
São Paulo — Depois de 117 anos, a marca Monsanto, referência global nos setores agroquímico e de sementes geneticamente modificadas e que se tornou alvo preferencial de organizações ambientais, deixará de existir. Ela será incorporada pelo grupo alemão Bayer, que pagou US$ 63 bilhões pela companhia norte-americana, num dos maiores negócios da história empresarial. A transação, que envolveu órgãos de regulação de 29 países, dobra os negócios agrícolas da Bayer e a coloca como a maior produtora de sementes e produtos químicos do mundo. A assinatura do contrato, porém, é apenas o início do brutal desafio que será juntar duas gigantes.

A integração começará nos próximos dois meses, quando a venda de alguns ativos do grupo alemão para a Basf estiver concluída – exigência do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. No Brasil, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a fusão em fevereiro, mas também exigiu que fosse vendida parte das operações no país nos segmentos de herbicidas, sementes de soja e de algodão.

Em comunicado, a Bayer informou que manterá alguns produtos da Monsanto, como o herbicida glifosato, vendido sob a marca Roundup, um dos mais utilizados mundialmente na agricultura e principal alvo dos protestos de ativistas de defesa do meio ambiente. Com a extinção da marca, o grupo alemão espera amenizar os protestos e processos de organizações internacionais e de grupos de agricultores que acusam o produto de ser nocivo à saúde humana e ao planeta.

Nas últimas décadas, a Monsanto enfrentou uma avalanche de ações por questões de saúde ou de efeitos nocivos supostamente causados pelo glifosato. Em março de 2015, o pesticida foi classificado como “cancerígeno provável” pelo Centro Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, órgão subordinado à Organização Mundial da Saúde (OMS).

Qual será o futuro da Monsanto a partir de agora? Na sede administrativa da filial brasileira, às margens do Rio Pinheiros, em São Paulo, de onde são controlados os negócios da Monsanto no país, o clima é de aparente tranquilidade. Geraldo Berger, que responde pela diretoria de regulamentação, diz que ainda não sabe qual será o impacto da fusão com a Bayer na operação brasileira.

Segundo ele, um time de executivos americanos e alemães está trabalhando nessas questões “Tem um grupo da Bayer, na Alemanha, e outro da Monsanto, nos Estados Unidos. As diretrizes dessa nova empresa devem vir na sequência”, afirma o executivo. A unidade combinada será baseada em Monheim, na Alemanha, enquanto a divisão norte-americana de negócios e sementes será liderada por St. Louis.

Apesar da ansiedade causada pelas dúvidas sobre o futuro, Berger, que está completando 23 anos de empresa, salienta que a expectativa entre os executivos brasileiros é positiva, especialmente pela oportunidade de combinar duas companhias com históricos de investimentos em inovação.

“Quando se soma o que a Monsanto e a Bayer investem no Brasil, certamente vamos ter um volume de recursos maior para aplicar em inovação, seja na parte de biotecnologia, melhoramento genético ou agroquímicos”, acredita ele, lembrando que todo esse conjunto de soluções integradas fará parte de um portfólio único da nova empresa que irá nascer.

Segundo o executivo, o investimento mais recente da Monsanto no Brasil foi na expansão da unidade da empresa em Coxilha (RS), que agora passa a abrigar também as pesquisas de soja. A área, que já era de experimentos em milho, será multiculturas, unificando soja e milho na mesma unidade. Para concretizar a expansão, a Monsanto investiu US$ 1,6 milhão. Foram ampliadas as estruturas físicas da unidade e houve a modernização de laboratórios e equipamentos. Unir as pesquisas na mesma unidade, explica ele, aumentará a sinergia operacional e criará oportunidades de compartilhar atividades, recursos e conhecimento.

 

Fundada em 1901 pelo farmacêutico americano John Queeny, que deu o nome em homenagem à esposa, Olga Monsanto, a então fabricante de sacaria se estabeleceu em Saint Louis, no estado do Missouri, nos Estados Unidos. A empresa se transformou em uma gigante em apenas 20 anos, após começar a produção e comercialização de químicos e agroquímicos.

Na década de 1940, passou a produzir plástico, se mantendo entre os 10 maiores fabricantes da indústria química dos Estados Unidos. Foi responsável também pela produção do agente laranja, usado na guerra do Vietnã e depois condenado pelos órgãos de saúde americanos, se transformando em uma das primeiras polêmicas enfrentadas pela empresa. Em 1981, teve seu produto, PCB, extremamente tóxico, conhecido no Brasil como Ascarel, proibido pelo governo brasileiro e em outros países. Em 2017, registrou US$ 14 bilhões de faturamento global, e tem investido 10% do total de suas receitas.

No Brasil, onde se estabeleceu em 1953, a empresa construiu ao longo dos anos 31 fábricas, sendo 20 unidades de pesquisa. Em 1998, lançou a primeira geração de sementes transgênicas de soja, que revolucionaram as lavouras, com aumento da produtividade em relação às sementes tradicionais. Em 2013, foi a vez da segunda geração, que, além de tolerar o herbicida glifosato, também era resistente às principais lagartas que atacavam a plantações de leguminosas.

As duas gerações de sementes causaram uma série de manifestações de grupos contrários às tecnologias transgênicas, em especial o Greenpeace, um dos mais combativos aos produtos da marca. Atualmente, a empresa está desenvolvendo a terceira geração de sementes utilizando a biotecnologia, que combina novos modos de ação herbicida com resistência biológica a pragas nas culturas de soja, milho e algodão.

Quando se soma o que a Monsanto e a Bayer investem no Brasil, certamente vamos ter um volume de recursos maior para aplicar em inovação, seja na parte de biotecnologia, melhoramento genético ou agroquímicos 
Geraldo Berger, gerente de regulamentação da Monsanto  


Os números da Monsanto no mundo e no Brasil


» Faturamento global anual:
US$ 14 bilhões
» Investimento em pesquisa:
10% do faturamento global
» Funcionários: 
22 mil em 60 países
» Unidades no Brasil: 
31
»  Unidades de pesquisa no Brasil:
20

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