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Correio Braziliense

"Estamos aqui para fazer o bem", diz Elie Horn, fundador da Cyrela

Empresário lamenta o desinteresse no país pela filantropia


postado em 20/06/2018 06:00

São Paulo — O empresário Elie Horn é aquele tipo de pessoa que, de um jeito ou de outro, vai impressionar o interlocutor. Fundador da Cyrela, a segunda maior incorporadora imobiliária brasileira, este judeu ortodoxo nascido na Síria há 73 anos é um caso singular na história empresarial do país. Horn decidiu doar 60% de sua fortuna pessoal para a filantropia. Jamais, em tempo algum, qualquer outra pessoa fez algo parecido no Brasil. Não é só. Ele é também o único brasileiro a integrar o The Giving Pledge, espécie de clube idealizado por Bill Gates para estimular bilionários a bancar projetos de forte impacto social. Menos de 200 pessoas fazem parte do grupo de Gates, e Horn está sozinho entre os representantes da América do Sul. “Só posso ser feliz se os pobres forem felizes”, diz. “Ser feliz é ajudar alguém a comer, é salvar a vida de outra pessoa.” Ele prossegue: “Eu, você, cada um de nós está aqui para fazer o bem.”

Se tudo isso já impressiona, há outras razões para ser tocado pela conversa com o fundador da Cyrela. Sua fé inabalável nos desígnios divinos é algo igualmente raro no ambiente empresarial. Quando fala sobre Deus, Horn fecha os olhos e parece buscar dentro de si uma verdade profunda. “O amor é muito bonito para ter sido feito pelo caos”, diz. “Ele é obra de Deus.” Nesta entrevista concedida na sede da Cyrela, em São Paulo, em uma sala envidraçada de onde se vê a cidade pulsando alguns andares abaixo, Horn é de uma sinceridade desconcertante. Diz que sente muita falta do dia a dia da empresa (há 3 anos são os filhos que tocam o negócio) e lamenta o fato de outros empresários brasileiros não se interessarem pela filantropia. Na conversa a seguir, ele ainda faz um balanço do mercado imobiliário no país, explica por que foge da política e conta um pouco de sua trajetória extraordinária.


"Os empresários não doam para a caridade por egoísmo. Passo muito tempo tentando convencê-los a doar em vida, mas está difícil. Eles até se animam, mas, na última hora, desistem" (foto: Gabriel Reis)


O que o moveu a fazer filantropia?

O exemplo do meu pai. Isso vem de muito tempo. Ele praticou e me ensinou. Meu pai doou tudo, ou o pouco que tinha, para a caridade. Para mim, foi um grande aprendizado. Tinha 35 anos quando meu pai fez isso. Foi um choque positivo, a melhor lição da minha vida.
 
O seu pai era sírio?

Sim, nasceu na Síria e morreu no Brasil. Eu nasci em Aleppo e saí com 6 meses para o Líbano. Cheguei ao Brasil com 10 anos. Minha família resolveu vir para cá porque não tinha recursos financeiros e aqui era a terra do futuro.
 
Naquela época, já se falava do Brasil na Síria?
Sim, o Brasil na década de 1950 era a terra do futuro. Não era o Brasil de hoje, era um país em forte crescimento. Se não me engano, crescia algo como 7% ao ano. Então, muita gente veio nessa época.

Sua família veio sem recursos financeiros?
Sem recursos, praticamente nada. Meu pai tinha pouco, foi ajudado pela família. E morreu com pouco, com um patrimônio fraco. O importante não é quanto ele deu, mas o princípio. Isso nunca vou esquecer. 

O fato de o senhor praticar filantropia se deve a alguma razão religiosa?
Vou explicar o seguinte: eu, você, cada um de nós está aqui para fazer o bem. Só acredito em Deus. Deus não brinca em serviço. Ele sabe o que faz. E nos coloca na Terra para sermos testados para a vida eterna. A alma do ser humano é divina, nunca morre. Quando você faz o bem, leva junto a sua poupança para a eternidade. É a única mercadoria que leva para o outro mundo. Não leva o carro, a casa, nada disso. Você leva o bem que fez. E o bem não para você, mas para terceiros.
 
Como surgiu o desejo de fazer o bem?
Só posso ser feliz se os pobres forem felizes. Ser feliz é ajudar alguém a comer, é salvar a vida de outra pessoa. Essa é a melhor forma de encontrar Deus.  
 
A fé em Deus é algo muito marcante em sua vida, não é?
O amor entre duas pessoas é algo maravilhoso. Esse amor foi feito pelo caos? Impossível. É muito bonito para ter sido feito pelo caos. Uma criança nova é um milagre. Isso veio do acaso? Não. As bilhões de células do corpo humano vieram do acaso? Não. A mente humana veio do acaso? Claro que não. O espaço interplanetário, com bilhões de estrelas em uma sequência harmoniosa, é mero acaso? De jeito nenhum. Tudo isso é obra de Deus.
 
Quem são os seus inspiradores?

Alguns deles estão no Talmude (os livros sagrados dos judeus). No mundo de hoje, acho que  Gandhi foi um exemplo. Amador Aguiar (do Bradesco) foi outro que me inspirou. Os americanos do Giving Pledge, o Bill Gates, que doou 90% para a caridade. 
 
O senhor doou 60% do que tem para a filantropia. Por que um percentual tão elevado?
O judaísmo obriga você a pensar no futuro, a ajudar terceiros, a buscar um mundo melhor, a oferecer o que você possui para outras pessoas. Doei 60%, porque sou ambicioso. Não brinco em serviço. Nunca faço as coisas mais ou menos.
 
A doação é feita em vida?

É feita em vida, está sendo feita em vida. É um compromisso meu.
 
Para quem o senhor está doando?
Prefiro não falar, porque se você começar a falar vão aparecer mil pessoas batendo na sua porta. Muita gente já me procura e sou obrigado a recusar o que elas querem fazer. 

Mas o senhor tem parcerias com diversos institutos. Que tipo de projetos o senhor auxilia?
Sempre aqueles que combatem injustiças. Um deles é para ajudar meninas menores a não serem abusadas.
 
O senhor está criando uma rede chamada ONGs do bem?

Sim, essa rede está sendo organizada. São muitas empresas, várias ONGs. Entre essas ONGs, existem as que combatem a pobreza, o abuso sexual, que dão auxílio aos cegos. Vai ser um grande guarda-chuva para abrigar várias instituições do bem. 
 
Qual é o papel do Instituto Cyrela e do Instituto Liberta neste contexto?

O Instituto Cyrela dedica 1% do lucro líquido da empresa para melhorar a vida das famílias de nossos trabalhadores. O Liberta foi criado por nós para combater a prostituição infantil e ajudar crianças que sofrem algum tipo de abuso. O Brasil tem 500 mil meninas menores em situação de perigo. Isso, 500 mil, já é um absurdo, mas pode chegar a um milhão. Nossa luta consiste em conscientizar as pessoas a não praticar o mal. 
 
O senhor tem procurado outros empresários para estimulá-los a doar?
Sim, mas não tem sido um trabalho fácil. Um dos meus objetivos é ensinar as pessoas a ter uma cultura de doar, a valorizar o bem.
 
Como é a sua abordagem para convencer outras pessoas a seguir o seu exemplo?
Digo que é preciso abrir mão de si. Sugiro começar ajudando os pobres ou as pessoas necessitadas da sua rua, do seu prédio, do seu bairro. Quanto mais dinheiro você tiver, mais pode fazer o bem. Cada um faz na proporção das suas forças. 
 
O senhor acha que a próxima geração será melhor que a atual? O mundo está melhorando?
Não sei. Mas a minha obrigação não é ter dúvidas, é lutar. 

O senhor transmite esses ensinamentos para os seus filhos?
Meus filhos estão cansados de escutar esse discurso, como meu pai passou para mim. Cada um tem a sua idade e a sua maturação, a sua época de aprendizado. Falar, já falei. Mil vezes, pelo menos. Acho que já está na cabeça deles. 
 
O senhor não está mais no dia a dia da Cyrela. Sente falta da rotina na empresa?
Sou presidente do conselho, está comigo a CCP (a divisão de imóveis corporativos e shopping centers), mas sinto muita falta da rotina da empresa. Muita mesmo. Para lidar com isso, faço filantropia. Dedico cinco, seis horas por dia para projetos de filantropia e outras seis horas para os negócios. 
 
Imagino que o senhor seja uma voz muito ouvida na empresa, que os seus filhos devam consultá-lo o tempo todo. 
Mais ou menos. Cada um tem as suas crenças, os seus mundos. Eles não precisam ouvir.
 
O senhor é o único brasileiro a fazer parte da organização The Giving Pledge, o clube idealizado por Bill Gates para estimular empresários a doar suas fortunas. Por que outros empresários não seguem o seu caminho?
Por egoísmo. Temos que aprender a doar mais. Passo muito tempo tentando convencer as pessoas a doar em vida, mas está difícil. Elas até se animam, mas, na última hora, desistem. 
 
Por que desistem?
Acho que é o medo. O medo de deixar o dinheiro para a caridade e não para os filhos.
 
O senhor parece ter uma relação bastante peculiar com dinheiro.
O dinheiro pode ser bendito, mas pode ser maldito também. Se você gasta o dinheiro só com você, ele é maldito. Se gasta para ajudar alguém a não morrer, a comer, a estudar, será bendito, porque passa a ter um significado profundo. O dinheiro mal usado é uma praga. O dinheiro bem usado é uma santidade. 
 
Podemos falar agora de negócios? Como está o mercado imobiliário?

O mercado imobiliário não se recuperou ainda. Desde que começou a crise, há cinco anos, o volume de negócios diminuiu 70%. O Brasil tem muitas leis loucas, é um país que o tempo todo dá sustos que abalam o coração. Em um dia é a questão do zoneamento, no outro é o problema do cancelamento de contrato. O coração sobe e desce, sobe e desce. Isso faz mal para o setor.
 
O que falta para o país voltar aos trilhos?
Falta estabilidade. O risco do negócio faz parte, mas o que não pode existir são as inconstâncias jurídicas, as leis confusas. É muita insegurança. O setor imobiliário é de longo prazo. Você não consegue comprar um terreno e sair amanhã ganhando dinheiro. Leva cinco anos, seis anos para construir e vender. Então, qualquer coisa que aconteça no futuro, qualquer mudança de rumo, vai afetar o seu negócio. Mas não temos escolha, é assim que funciona no Brasil.
 
Do ponto de vista de vendas, o mercado está melhorando?
São Paulo está melhorando bem, mas o Rio de Janeiro continua mal. O Brasil como um todo está mais mal do que bem. Mas, enfim, é o que temos, e não podemos desanimar.
 
Em ano de eleição, o cenário político brasileiro continua bastante indefinido. Como o senhor avalia este momento?
Como minha voz não vale nada na política, como tanto faz para o Brasil se eu quero A, B ou C, não me meto. Prefiro assim.
 
Por que o senhor evita dar entrevistas?
Não gosto porque eu me repito muito e acabo cansando de me escutar. Às vezes, é melhor deixar que os outros falem.

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