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Correio Braziliense

Rubens Menin: "A corrupção é o que há de pior para os negócios no Brasil"

Rubens Menin foi eleito, em evento realizado em Mônaco, Empreendedor do Ano Global da EY (antiga Ernst & Young), uma das principiais distinções do mundo corporativo


postado em 25/06/2018 06:00 / atualizado em 25/06/2018 16:32

(foto: MRV/Divulgação)
(foto: MRV/Divulgação)
São Paulo – Na semana passada, o empresário mineiro Rubens Menin chegou ao topo do mundo. Foi eleito, em evento realizado em Mônaco, Empreendedor do Ano Global da EY (antiga Ernst & Young), uma das principiais distinções do mundo corporativo. Desde a criação do prêmio, em 2011, jamais um representante da América do Sul havia recebido a honraria, concedida a partir de critérios como espírito empreendedor, desempenho financeiro, inovação e impacto global do negócio. Presidente do conselho de administração e fundador da MRV Engenharia, a maior construtora residencial do Brasil, com R$ 6,1 bilhões em vendas no ano passado, Menin é um profissional inquieto. Nos últimos meses, tem percorrido o mundo para conhecer experiências inovadoras na área da habitação. “Quem não investir em tecnologia, estará fora do jogo”, diz.

Otimista, aposta no potencial do país, mas se diz preocupado com os descaminhos políticos e econômicos. “Temos uma série de problemas estruturais para serem resolvidos, as reformas pararam”, lamenta. “Parece que todo o Brasil está esperando as eleições.” Menin não quer esperar. Até agosto, lançará um movimento apartidário para propor agendas positivas.


Por que o setor imobiliário está demorando para se recuperar?
O setor passou por período muito difícil. Nos últimos três anos, caímos 50%, muito mais do que o PIB brasileiro. Isso é um absurdo. A crise levou a gente para o fundo do poço.

Que fatores agravaram a crise?
Três motivos básicos. Primeiro, o juro mais alto. Isso afugenta a consumidor. O segundo ponto: os distratos. Os distratos machucaram muito a indústria da construção. Teve prédio que foi vendido 100% e 90% foi distratado. Isso aí foi um negócio que desestabilizou muito a indústria. Muitas empresas, inclusive as grandes, tiveram prejuízos enormes. E o terceiro ponto é o seguinte: o setor vive de emprego, de renda. Quando você tem não só o desemprego, mas a incerteza do futuro, o índice de confiança do consumidor diminui muito. Ninguém compra um imóvel em clima de insegurança. 

O setor perdeu muitos empregos?
Desempregamos mais de 1 milhão de pessoas. Um negócio completamente maluco. Em uma indústria em que você precisa contratar mão de obra intensiva, que tem demanda grande, a gente manda embora. É o contrário do razoável. Então, acho que isso foi muito ruim.

A regulamentação dos distratos resolve um dos impasses?
Sim, está no Senado e depois vai para sanção presidencial. Se passar, acho que vai ser resolvido um grande problema do setor. Isso é bom para toda a sociedade. E o consumidor será beneficiado. Quanto mais segurança para todos os envolvidos no negócio imobiliário, melhor para o país.

A crise econômica está ligada à instabilidade política?
Infelizmente, a política está atrapalhando demais. A incerteza política é muito ruim. O Brasil começou o ano com previsão de crescimento de 3% de PIB. Agora, já se fala em 1,5%. Isso é muito ruim. Depois de três anos de queda pesada, esse crescimento não vale nada. Crescer 1,5% tem significado igual a zero. Temos uma série de problemas estruturais para serem resolvidos, as reformas pararam. Parece que todo o Brasil está esperando as eleições. O que desejo, honestamente, é que as eleições não tenham efeito de desunir ainda mais o país.

Você pretende lançar um programa para unir o país?
Tivemos um grupo de pessoas trabalhando com afinco. Ainda não apresentamos oficialmente, mas devemos lançar a qualquer momento. Acho que não podemos mais nos dar ao luxo de desunir o país. Estamos pagando um preço muito alto por essa briga de A contra B. Não dá para ser assim. O Brasil precisa de união, mas tenho muito medo de que a política atrapalhe isso. A polarização pode ser boa para os políticos, mas é péssima para a população.

O movimento tem alguma cor partidária?
Não é partidário. Vamos propor agenda mínima voltada para a ética. A gente precisa deixar claro o que não vai aceitar mais. É preciso colocar esse parâmetro para a sociedade, mas não podemos ter política partidária nisso.

Como o Brasil chegou a esse ambiente de polarização?
Vejo o seguinte: a população está muito machucada. E com razão. A credibilidade da classe política está muito ruim e aí o populismo floresce. Isso não é fenômeno brasileiro, é mundial. Os regimes autoritários hoje estão vindo do voto popular. Olha que coisa horrorosa estamos falando. A gente não tinha mais nem que pensar em autoritarismo, ditadura, essas coisas abomináveis. Isso é indiscutível. E a gente tem visto alguns países caminharem para isso.

Há um descontentamento generalizado na sociedade.
Acho o seguinte: a gente não pode colocar a culpa nos outros. Outro dia saiu uma pesquisa que mostrou que 65% dos brasileiros estão querendo deixar o país. A culpa é nossa, não dos caras que estão querendo se mudar. Da nossa geração, que deixou um legado ruim para a turma que quer sair. Isso é terrível, uma das piores notícias que já vi, uma coisa que me deixou muito triste. No fundo, as elites brasileiras são as culpadas, porque elas foram omissas. Falo da elite política, empresarial, intelectual, artística, qualquer elite. Fomos omissos.

A corrupção tem peso no descontentamento do brasileiro?
A corrupção é uma desgraça. Com a corrupção, você concorre em condições de desigualdade. A concorrência tem que ser livre. O que é corrupção? É alguém querendo levar vantagem competitiva em relação ao outro. A corrupção é o que há de pior para os negócios no Brasil. É uma coisa horrorosa, tem que acabar.

O que fazer para mudar esse cenário?
Acho que a gente tem que colocar a nossa impressão digital. Por alguma razão inexplicável, a elite brasileira passou a ter medo de colocar a impressão digital dela. Nos outros países, as elites são mais atuantes. Precisamos falar “olha, acho isso, acho aquilo, isso precisa ser assim, que tal ir por esse caminho?” O que a gente está fazendo com esse movimento apartidário é reunir um grupo de pessoas para discutir o Brasil. Vamos fazer um grande evento em agosto e assumir o dever cívico de propor uma agenda voltada para a ética.

Diante das últimas pesquisas, que apontam a liderança dos representantes dos extremos, você acha que há chance de um candidato de centro ser eleito?
Acho que sim. A eleição está atrasada como nunca esteve. O número de pessoas nas pesquisas que não votam e não sabem quem escolher é muito alto. Vejo que as cartas ainda não foram distribuídas. A hora que a campanha começar para valer, e imagino que isso ocorra depois da Copa do Mundo, quem vai ganhar é aquele ou aquela que não for dos extremos. Vai ser o candidato de união.

Você está animado com o Brasil?
Olha, vou te contar uma coisa, não fico desanimado nunca, sou extremamente otimista. Estou preocupado, o que é bem diferente de desanimado. Aí você me pergunta como é possível acreditar no Brasil diante de tudo o que vivemos. Respondo o seguinte: o potencial que o Brasil tem é fantástico. Enquanto sociedade, fizemos uma maldade danada com esse país. A verdade é que precisamos dar uma chance para o Brasil, criar as condições para que ele floresça.

A MRV tem como meta se tornar uma empresa global?
Estrategicamente sim. Está no nosso planejamento. Se quisermos participar desse novo mundo que está surgindo, é preciso ser global. Não há outro caminho. Se alcança isso com tecnologia. Se você não tiver grande nível de tecnologia no seu negócio, estará fora do jogo. 

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