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Correio Braziliense

Resultados dos principais setores da economia frustam investidores

Todos os indicadores mostram piora na percepção da atividade econômica, prejudicando ainda mais os investimentos e a retomada do emprego


postado em 08/07/2018 08:00

"A greve dos caminhoneiros deixou uma deterioração e uma marca no ambiente econômico. A definição sobre a tabela do frete - uma das pautas dos manifestantes - até hoje não está pacificada. Alguns preços vão ficar mais caros", Flávio Castelo Branco, gerente-executivo da CNI (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )

A confiança na economia, que já estava em ritmo de queda, despencou depois da greve dos caminhoneiros. As incertezas nos cenários externo e local deixaram os empresários e os consumidores mais desconfiados sobre as condições de melhora do país. Todos os indicadores mostram piora na percepção da atividade econômica, prejudicando ainda mais os investimentos e a retomada do emprego.  Houve frustração por parte dos empresários. No início do ano, a expectativa era de que haveria crescimento econômico mais intenso do que em 2017, quando o Produto Interno Bruto (PIB) registrou alta de 1%. A projeção inicial dos analistas indicava que o Brasil teria um desempenho na casa dos 3%. No entanto, a economia andou de lado no primeiro trimestre, com indústria, comércio, construção civil e serviços sem apresentar recuperação expressiva.

Aloísio Campelo, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que, na percepção dos empresários, o cenário piorou nos quatro maiores setores. Nos três primeiros meses de 2018, o PIB avançou 0,4% frente ao quarto trimestre do ano passado, mas, devido ao desemprego elevado, o consumo das famílias continua fraco.

De acordo com Campelo, a confiança vem caindo desde abril e, em junho, a queda se acentuou por conta da greve dos caminhoneiros, que travou a economia. A produção industrial de maio sofreu um tombo de 10,9%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para o economista da FGV, são grandes as chances de que o PIB do 2º trimestre seja negativo, minando, ainda mais, as expectativas de empresários e consumidores.

“Começou-se a perceber que a economia está rateando, e, por isso, a confiança andou de lado. O cenário externo passou a ser desfavorável, e o emprego não retomou o crescimento, como se esperava. Portanto, a confiança do consumidor começou a cair e houve uma recalibragem de expectativas”, destacou. A reversão do ambiente internacional diminuiu a atratividade do Brasil para os investidores, o que gerou fuga de recursos e desvalorização do real frente ao dólar.

Os economistas ouvidos pelo Banco Central (BC) na pesquisa semanal Focus pioraram as projeções para a recuperação da atividade. A expectativa de crescimento para 2018 passou a ser de 1,55%, mas há analistas revisando a previsão para patamares ainda mais baixos, inclusive menores do que 1%. Segundo o economista da FGV, o choque adicional de junho pode ser revertido nos próximos meses, mas tudo dependerá das eleições de outubro.
“Assumindo que não se tenha outro choque na economia, é possível que tenhamos uma melhora nos índices de julho, mas, em agosto, a situação será mais complicada, porque já estaremos no período eleitoral”, afirma Campelo. “Haverá um efeito defasado dos cortes da taxa básica de juros (Selic), o que pode fazer a economia se normalizar. Mesmo assim, o pleito traz componentes de incertezas muito fortes para consumidores e empresários. Não se sabe qual a política econômica que será adotada pelo próximo governo”, completa o especialista.
 
"Não se consegue perceber uma recuperação efetiva. A queda de janeiro a abril foi de 0,6%. O faturamento está praticamente estabilizado.A melhora deve ficar só para o segundo semestre. Então, é natural que se fique com o pé atrás", Fábio Bentes, economista-chefe da CNC (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Trovoadas

Em junho, a confiança na indústria despencou 5,9 pontos, indo para um patamar inferior de 50 pontos — o que significa que os empresários não estão esperançosos com a economia no momento. O indicador marcou 49,6 pontos no mês, na maior queda da série mensal desde 2010. O gerente executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, destaca que o setor já demonstrava frustração desde que o governo federal abandonou a reforma da Previdência, que ficou para o próximo ano.

Castelo Branco também observa que o cenário internacional menos amigável provocou a piora na percepção dos empresários. “A greve dos caminhoneiros deixou uma deterioração e uma marca no ambiente econômico. A definição sobre a tabela do frete — uma das pautas dos manifestantes — até hoje não está pacificada. Alguns preços vão ficar mais caros”, diz ele. “Não sabemos mensurar quanto é o efeito permanente e quanto é o efeito temporário na confiança”, acrescenta.

Rafael Cagnin, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), avalia que o governo federal demonstrou “fraqueza” para gerenciar conflitos, como o ocorrido com os caminhoneiros, o que aumenta o grau de insegurança sobre a economia. “Com as eleições, teremos um teste de risco, porque à medida que a recuperação se mantiver lenta e nos aproximarmos das eleições, haverá incertezas e volatilidade maiores. É um ano sujeito a trovoadas”, explica.

Zona de indiferença

No comércio, a situação não é diferente. O vendedor Francisco Araújo, 45 anos, empregado de uma loja de papelaria e produtos de informática, conta que as vendas refluíram e, durante a paralisação dos caminhoneiros, ficaram 10 dias “travadas”. “Todo o ramo foi afetado. Vendemos a metade do que costumávamos vender”, lamentou. “Até agora, 2018 deixou muito a desejar. Não sentimos melhora em comparação com o ano passado. A expectativa era de superação da crise política, o que não ocorreu. Agora, só esperamos algo positivo para o próximo ano, num novo governo”, acrescenta.

O descontentamento se reflete nos índices de confiança tanto da FGV como da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), em que o indicador atingiu 82,3 pontos em junho — abaixo, entretanto, da “zona de indiferença”, que é de 100 pontos.

O economista-chefe da CNC, Fábio Bentes, afirma que houve melhora na percepção do comércio em abril, por conta de resultados positivos no setor. “No quadrimestre, houve uma abertura líquida de 2,3 mil lojas. Desde 2014, o varejo não registrava isso”, destaca. “No acumulado de 12 meses até agosto, ocorreram 61,6 mil contratações”, completa.
Apesar disso, a greve dos caminhoneiros enfraqueceu o índice, como mostra a pesquisa da FGV. Luzia Isabel Gomes, 57, diz que não vê avanços em sua loja de móveis e artesanatos. “Desde 2014, estamos à espera de melhora. Dispensamos dois funcionários neste período e estamos sem perspectivas para contratação. Tudo ainda está muito incerto”, relatou a microempresária.

As incertezas também predominam no setor de serviços. “Não se consegue perceber uma recuperação efetiva. A queda de janeiro a abril foi de 0,6%. O faturamento está praticamente estabilizado. A melhora deve ficar só para o segundo semestre. Então, é natural que se fique com o pé atrás”, explica Bentes.

Todo esse movimento é resultado de uma demanda ainda baixa. O consumo das famílias não alavancou. A confiança do consumidor, medida pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), registrou queda de 5% em junho, saindo de 41,5 pontos para 39,4 pontos. O movimento também foi sentido na pesquisa da FGV.
A economista-chefe da SPC Brasil, Marcela Kawauti, frisa que a confiança é baixa porque o mercado de trabalho ainda não deu sinais de grande melhora. “Nós tivemos boas notícias na economia. No ano passado, houve aumento do consumo com a liberação do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), os juros e a inflação ficaram bem menores. Mas esse efeito não foi sentido de forma expressiva no mercado de trabalho, que pode ficar nesse patamar, correndo o risco de ter uma queda atípica nas eleições”, diz. “Por enquanto, a greve dos caminhoneiros puxa para baixo, assim como a alta do dólar”, acrescenta.

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