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Correio Braziliense

Incertezas podem levar dólar a R$ 5 até as eleições de outubro

Cenário internacional adverso, com guerra comercial entre Estados Unidos e China e melhora da economia norte-americana, aliado à insegurança sobre quem governará o país nos próximos anos devem elevar a cotação da moeda


postado em 16/07/2018 06:00 / atualizado em 16/07/2018 06:30

A variação do câmbio ocorre desde o início do ano, em grande parte devido ao cenário externo adverso, que pressiona as moedas de países emergentes(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
A variação do câmbio ocorre desde o início do ano, em grande parte devido ao cenário externo adverso, que pressiona as moedas de países emergentes (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
A volatilidade do câmbio pode aumentar no período que antecede a definição das candidaturas à Presidência da República. Há a possibilidade, segundo especialistas, de que o dólar chegue a R$ 5 ou mais, devido às indefinições nos cenários interno e externo. Muitos não descartam que a divisa norte-americana ultrapasse R$ 4, antes mesmo de a campanha começar em agosto. “As chances de oscilação são grandes, porque haverá muita especulação, mas tudo dependerá também do mercado internacional. Se as incertezas lá fora aumentarem e a guerra comercial entre Estados Unidos e China ficar mais acirrada, o dólar certamente vai subir”, explica Thais Zara, economista-chefe da Rosenberg Associados.

A variação do câmbio ocorre desde o início do ano, em grande parte devido ao cenário externo adverso, que pressiona as moedas de países emergentes. Na sexta-feira, o real acumulou queda de 16% frente ao dólar. A moeda dos Estados Unidos fechou cotada a R$ 3,85. Não há consenso entre especialistas de que cotação atual tenha precificado as últimas pesquisas, que apontavam Jair Bolsonaro (PSL), Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede) como preferidos.

Alguns acreditam que ainda há espaço para um candidato de centro, com propostas reformistas. Isso justificaria o câmbio ainda abaixo de R$ 4. Nesse cenário, está descartada a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde abril, e considerado inelegível pela Lei da Ficha Limpa.

Reginaldo Galhardo, da Treviso Corretora,  não descarta o câmbio entre R$ 4 e R$ 4,50, no fim do ano, principalmente devido à falta de candidatos bem preparados à frente das pesquisas. “Quando a campanha começar, vamos ter uma visão melhor do cenário que ainda está nebuloso. Se quem estiver na frente não for comprometido com reformas, isso vai atrapalhar bastante e o câmbio vai subir mais”, avisa.

Mesmo apostando em alta do dólar, analistas aconselham cautela, pois o Banco Central tem instrumentos para conter uma valorização da moeda norte-americana. “O BC vai intervir se perceber algum movimento especulativo. Agora, não tem o que fazer porque os fatores que estão elevando o câmbio são externos, como a guerra comercial dos EUA com a China e o ganho de força da economia norte-americana”, explica o economista e diretor executivo da corretora NGO  Sidnei Nehme. Ele considera como ponto de equilíbrio do dólar até as eleições algo entre R$ 3,85 e R$ 3,95. “O dólar não chegará a R$ 5, a não ser que Lula saia candidato, algo que elevará a insegurança jurídica tremendamente”, garante.

João Luiz Mascolo, professor de economia do Insper, por sua vez, considera que a divisa norte-americana pode passar de R$ 5 por conta das incertezas internas e externas, que estão cada vez mais favoráveis ao fortalecimento do dólar. Para ele, com a sinalização do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA), de que vai continuar elevando juros, a tendência é de que o capital volte para os Estados Unidos, considerado um mercado mais seguro do que os emergentes, que continuarão com suas moedas desvalorizadas.

Mascolo reforça que a situação das contas públicas é para lá de crítica e esse tema deverá ser tratado pelos candidatos. “A dívida pública está próxima a 80% do PIB (Produto Interno Bruto) e, se chegar em 90% ou 95%, eu não tenho muita certeza se o governo conseguirá se endividar mais. Os investidores vão começar a fugir dos títulos públicos por conta do risco de calote”, adverte. Segundo ele, nesse quadro, a saída seria a emissão de moeda, o que mergulharia o país em uma nova espiral inflacionária.

Um economista próximo à equipe econômica, que pediu anonimato, afirma, no entanto, que as chances de o dólar passar de R$ 5 são maiores com Ciro na liderança do que com Bolsonaro. “Se o cenário caminhar para o que está nas pesquisas, R$ 5 pode ser piso, principalmente se o vencedor for quem propõe teto para a despesa financeira, algo arriscado, e pode ser uma espécie de calote da dívida”, diz .

Preferência

Braulio Borges, economista da LCA Consultores, destaca que o candidato do mercado financeiro é o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) e, como o partido tem uma estrutura grande e dinheiro para campanha para conseguir alcançar os eleitores em todo o país, o mercado aposta nisso. Esse fator tem deixado o câmbio abaixo de R$ 4, segundo ele. O cenário da LCA até o fim do ano é de dólar a R$ 3,70. “Mídia social não resolve tudo. Essa é uma visão muito metropolitana. Não é achismo. Estudos empíricos mostram que Alckmin tem 90% de chances de crescer nas pesquisas quando a campanha começar e isso tende a segurar os riscos. Mas isso não significa que ele tem capacidade para ir para o segundo turno ainda”, afirma.

Borges reconhece que deve ganhar a eleição quem tem um discurso mais à esquerda. “Mas basta fazer uma nova ‘Carta ao povo brasileiro’ para acalmar os mercados. Foi o que acabou de acontecer no México”, diz. Segundo ele, o presidente eleito, Manuel López Obrador, está sendo comparado ao Lula de 2002, pois amenizou o discurso após a vitória no início do mês. No Brasil, o petista, apesar de liderar as pesquisas, lançou a famosa carta na qual se comprometeu a fazer um ajuste fiscal a fim de acalmar os mercados. Em 2002, o dólar ficou perto de R$ 4, mas, após as eleições, a divisa encerrou o ano cotada a R$ 3,53.

Analistas consideram o cenário para o câmbio hoje mais contornável do que em 2002, apesar de os fundamentos econômicos estarem piores, pois a economia cresce menos. A inflação é bem menor e as reservas internacionais quase 10 vezes maiores, o que permite controlar mais fortemente o dólar. No entanto, a dívida pública está em patamares parecidos e igualmente elevados. “Naquela época, 60% a 70% da dívida estavam atrelados ao câmbio, o que gerara uma instabilidade tremenda, semelhante ao que passa hoje a Argentina. Isso acabou porque mais de 70% da dívida pública é doméstica”, explica Borges, da LCA.

Ele reconhece que o quadro fiscal hoje está muito pior do que em 2002, porque as despesas obrigatórias eram bem menores e havia mais espaço para ajustes. “O governo tem menos instrumentos disponíveis do que tinha em 2002 para fazer um ajuste fiscal. Naquela época, ele conseguiu reequilibrar as contas aumentando a carga tributária, mas hoje não tem mais essa possibilidade”, resume.

Ônus e bônus

A alta do dólar traz mais coisas negativas do que positivas para a economia brasileira, segundo os especialistas. Um dos poucos benefícios do real desvalorizado são as exportações, que representam apenas 12,6% do PIB e, portanto, não contribuem muito para a recuperação da atividade. “Hoje, o câmbio é um termômetro da situação econômica. Real desvalorizado mais atrapalha do que ajuda na economia. Isso impacta na inflação, implica renda mais baixa e afeta o consumo e o investimento”, explica o economista-chefe do banco Votorantim, Roberto Padovani.

Livio Ribeiro, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), afirma que um dos maiores riscos do câmbio elevado é travar a economia, pois a indústria depende mais das importações do que das exportações. “O Brasil tem poupança muito baixa, portanto, para a economia crescer, o real precisa estar valorizado, porque ajuda nas importações de bens de capital para aumentar a produção”, pontua.


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