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Correio Braziliense

Diante da alta no desemprego, bancos públicos emprestam menos dinheiro

Retração se concentra no crédito a empresas, que encolheu 4% nos 12 meses encerrados em maio. Especialistas explicam que restrição ocorre pelo aumento de risco, depois da tentativa de alavancar a economia por meio das instituições ligadas ao governo


postado em 25/07/2018 06:00

A crise econômica, o desemprego e a queda da renda afetam os bancos de maneira distinta. Enquanto as instituições financeiras privadas nacionais e estrangeiras registraram, nos últimos 12 meses encerrados em maio, crescimento no estoque de crédito de 6,4% e 10,2%, respectivamente, as públicas amargam uma retração de 3,6% na mesma base de comparação, apontam dados do Banco Central (BC). Especialistas destacam que a demanda por empréstimos ainda está baixa, mas explicam que os banqueiros estão mais cautelosos na hora de liberar recursos.

Conforme a autoridade monetária, a maior parte dessa retração se concentra nos empréstimos às empresas. Nos últimos 12 meses encerrados em maio, o estoque de crédito para a pessoa jurídica encolheu 4% e os financiamentos para os consumidores cresceram 6,3%. No Banco do Brasil, a carteira de crédito total chegou a R$ 625,2 bilhões no primeiro trimestre, uma retração de 1,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Apesar disso, o montante destinado a pessoa física cresceu 2,9% e atingiu R$ 177,3 bilhões no período analisado. E para as companhias encolheu 7,3% e chegou a R$ 285 bilhões.

Na Caixa Econômica Federal, a carteira de crédito encolheu 2,1% nos três primeiro meses do ano em relação ao mesmo período de 2017 e atingiu R$ 700 bilhões. Os financiamentos para as famílias despencaram 11,5% e para as empresas 25,2%. As linhas para habitação tiveram alta de 4,9% e para infraestrutura expansão de 4,7%.

O Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi ainda mais afetado diante da crise. A carteira de crédito e de repasses interfinanceiros da instituição encolheu nos últimos nove trimestres e totalizou R$ 539,8 bilhões em março de 2018. Desse total, R$ 449,1 bilhões financiam projetos de longo prazo e R$ 90,6 bilhões de curto prazo. O diretor de Finanças do BNDES, Carlos Thadeu de Freitas Gomes, explicou que, nos últimos três anos, a recessão econômica e as incertezas política e jurídicas afetaram a demanda por crédito, que diminuiu, sobretudo, para investimentos.

Na opinião dele, o banco tem vocação para atender essa demanda, com prazo médio dos financiamentos em nove anos. “Com a crise, a procura por empréstimos longos diminui e aumenta a por curtos e médios. Apesar isso, este ano, percebemos um aumento da demanda por projetos de infraestrutura. Temos percebido que a demanda por consultas cresceu”, ressaltou. Segundo o economista-chefe do BNDES, Fabio Giambiagi, as consultas cresceram 4% de janeiro a junho, totalizando R$ 49,7 bilhões, e os desembolsos, no mesmo período, encolheram 17% em relação ao primeiro semestre de 2017 e chegaram a R$ 27,7 bilhões.

Giambiagi ressaltou que parte da queda dos desembolsos ocorreu pela necessidade de adequação de sistemas com a introdução da Taxa de Longo Prazo (TLP). “Durante 23 anos, operamos dentro de um modelo de operação que levava em conta a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP). Isso trouxe uma nova forma de operar, em particular, quando tratamos com pequenas e médias empresas”, detalhou. Apesar disso, o economista ressalta que mesmo com a redução da carteira de crédito e nas concessões, o banco tem mudado de perfil.

Ele afirmou que em 2015, 27,5% dos desembolsos do banco foram destinados a micro, pequenas e médias empresas e, em 2017, esse percentual chegou 42%. No mesmo período, os repasses para grandes empresas diminuíram de 72,5% para 58%. “Estamos nos transformando em um banco para micros, pequenas e médias empresas. Não ignoramos o fato de que isso está associado a crise dos investimentos. Esperamos que quando os investimentos deslancharem isso vale a mudar”, disse.

Motores

O encolhimento das instituições financeiras públicas nos últimos anos, avaliou o analista João Augusto Salles, especialista em bancos da consultoria Lopes Filho, está ligada as políticas adotadas durante os governos petistas. Ele relembrou que durante a crise, enquanto os privados ficaram mais restritivos, os públicos, por orientação governo, foram usados para tentar alavancar a economia. “A Caixa chegou a crescer 40% em um ano. O BNDES recebeu aportes do Tesouro Nacional e agora devolve esses recursos. E o Banco do Brasil também fez o dever de casa”, explicou.

Segundo ele, essa política adotada em um período recessivo aumentou o risco de diversas operações. Com isso, os bancos públicos ficaram mais restritivos nos últimos anos e fizeram um rearranjo estratégico com a mudança de governo. “Os bancos privados fizeram o dever de casa antes. Em 2014, já estavam mais restritivos e estão mais líquidos nesse momento”, afirmou.

Para o analista Luís Miguel Santacreu, especialista em bancos da Austin Rating, além de mais conversadores na liberação de crédito, a baixa demanda tem afetado os bancos. Ele explicou que a expectativa de que a economia brasileira poderia crescer até 3% entusiasmou investidores, mas a sucessão de eventos negativos, com recuperação mais lenta, a volatilidade dos mercados internacionais e greve dos caminhoneiros, deixaram o setor mais cauteloso.

  • Arrecadação cresce 2,01%

    A arrecadação do governo com tributos em junho atingiu R$ 110,855 bilhões, uma registrando uma alta real, descontada a inflação, de 2,01% em comparação com o mesmo mês de 2017,  segundo dados da Receita Federal. Esse foi o melhor resultado desde 2015. No primeiro semestre, o ganho real cresceu 6,88% na mesma base de comparação, acumulando R$ 714,25 bilhões. De acordo com o chefe do Centro de Estudos Tributários e Aduaneiros, Claudemir Malaquias, a greve dos caminhoneiros, em maio, afetou “duramente” a atividade industrial, tanto que a arrecadação com o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) caiu 14,28% em junho. Economistas ressaltam, porém, que a piora está relacionada ao desempenho mais fraco do que o esperado na atividade econômica.

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