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Correio Braziliense

Eleições polarizadas provocam oscilação maior do dólar e da bolsa no Brasil

Sem saber o que esperar das próximas eleições, mercado se move de acordo com pesquisas e desempenho de candidatos à Presidência que defendem reformas


postado em 03/08/2018 06:00

(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)

Restam pouco menos de três meses para o segundo turno das Eleições deste ano. Historicamente, além das disputas políticas e dos debates entre os candidatos, o trimestre é marcado pela volatilidade nos mercados de capitais. Nesse período que antecede a votação, há registros, em pleitos anteriores, de disparada de dólar e bolsa em queda. Em 2018, o sobe e desce nos mercados tende a ser maior, segundo os analistas. Ontem, as ações fecharam o dia em alta de 0,42%, aos 79.636 pontos. Já a moeda norte-americanas ficou praticamente estável, cotada a R$ 3,758.

Os investidores tentam antecipar os resultados do pleito por meio de suas aplicações e dão sinais de como está a confiança em relação ao cenário econômico que será implementado no ano seguinte. Historicamente — e não deve ser diferente em 2018 —, economistas tendem a se alinhar a políticas de centro-direita. Segundo especialistas, a variação dos mercados será maior neste ano, porque, além da insegurança jurídica provocada pela indefinição do Supremo Tribunal Federal (STF sobre a candidatura de Lula, ainda não há perspectivas claras de vitória de um candidato que pretenda dar continuidade à agenda de reformas e de ajuste fiscal.

Em um cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que está preso, quatro nomes se destacam nas pesquisas de intenção de votos: Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB). Dos quatro, o último é o favorito do mercado, porque é associado ao perfil reformista. O tucano está atrás dos outros candidatos nas pesquisas de intenção de voto, mas analistas acreditam que ele tem potencial de crescimento diante do maior tempo de televisão obtido após aliança com o Centrão.

O economista-chefe da corretora Nova Futura, Pedro Paulo Silveira, afirmou que, dependendo do avanço de Alckmin nas próximas pesquisas, o mercado pode começar a subir forte, possibilitando a diminuição de juros futuros e do dólar. “Até então, Alckmin era uma carta fora do baralho e foi colocado de novo no jogo com essa aliança. Temos que acompanhar o desenrolar das pesquisas”, citou. No cenário atual, com o tucano ainda com pouca intenção de votos, Bolsonaro tende a ser o “escolhido natural”, segundo economistas entre os três mais bem colocados, por ser um candidato de direita.

Mesmo assim, há grande receio sobre o viés econômico que será adotado durante o governo do PSL. Thiago Figueiredo, gestor da GGR Investimentos, ressaltou que os candidatos ainda não têm posicionamentos claros sobre os programas econômicos. “As propostas ainda estão fragmentadas e as declarações não revelam uma postura “estritamente definida”, o que acaba gerando muita confusão e muita coisa mal esclarecida”, afirma. “Teoricamente, a volatilidade é reflexo da incerteza, que ocorre com o mercado lá fora (exterior) com a guerra comercial. Esperamos que as tensões internacionais não contribuam com as inseguranças desse período, porque será um momento de grande oscilações. Não é a hora de acertar a mosca branca”, aconselhou Figueiredo.


Mercado externo

Há uma grande preocupação com as incertezas comerciais no mercado externo, por conta de alfinetadas entre Estados Unidos, China e União Europeia. Além disso, países emergentes como o Brasil perderam atratividade para investimentos com a alta dos juros norte-americanos. Os investidores ainda estão incertos sobre o perfil econômico do próximo presidente, em especial, quando se trata de contas públicas. O governo federal prevê um deficit fiscal de R$ 139 bilhões para 2019. Legislações fiscais, como a regra de ouro e o teto dos gastos, correm sério risco de ser descumpridas no próximo ano.

O gestor da GGR ressalta que os candidatos precisam estar verdadeiramente imersos na discussão econômica, já que 2019 será um ano crítico. “Me vender a ideia de que um economista vai conduzir a política econômica que o mercado quer é muito pouco. Isso é uma oferta sem garantia, porque logo no início do governo isso pode ser alterado. O presidente pode assumir e mandar o cara embora”, afirmou.

O economista-chefe da Quantitas, Ivo Chermont, acredita que o Ibovespa e o dólar já vêm apresentando volatilidades, porque há várias possibilidades de cenários para 2019, o que torna a análise indefinida. “As alianças nessa última fase de convenções estão ditando o tom. Cada candidato está num ponto e cada dia tem pesquisas diferentes. Daqui para frente, a tendência é aumentar a especulação”, explicou.

Segundo Chermont, cada ano eleitoral tem componentes históricos particulares e coube ao mercado antecipar os momentos turbulentos na economia. “Não foi por falta de aviso que entramos na crise econômica iniciada em 2014. A tendência de como os ativos vão se comportar é desenhada pelo cenário econômico estrutural. Por isso, a apreensão em 2018. É preciso avaliar como o mercado vai reagir”, diz.

Para Capes, teto de gastos ameça bolsas

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), principal agência de fomento à pesquisa do país, ligada ao Ministério da Educação (MEC), publicou nota em que alerta o governo federal sobre o risco de o teto de gastos públicos inviabilizar o pagamento de bolsas a docentes e alunos de pós-graduação a partir de agosto de 2019. Segundo o documento, o teto limitando o orçamento de 2019 fixa um patamar muito inferior ao necessário para manter todas as linhas de atuação da agência. O Ministério do Planejamento informou, em nota, que define só o montante global de cada pasta. A partir de então, cada ministério tem a responsabilidade pela distribuição dos recursos entre suas unidades, respeitando suas estratégias de ação.

 

 

Amadores devem esperar

O primeiro alerta dos analistas é claro: não é época para amadores se aventurarem no mercado de capitais. Os três meses que  antecedem o segundo turno das eleições são imprevisíveis para os ativos. Basta comparar com outros anos eleitorais. Em 2002, a moeda norte-americana estava em R$ 3,14 a 90 dias da decisão do pleito. Nesse período, o câmbio variou entre R$ 3,03 e R$ 3,95, uma diferença de 30%.

Já o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), começou com 9.240 pontos. Nesse intervalo de tempo, até a vitória do ex-presidente Lula, o índice chegou a cair para 8.622 pontos, e atingiu 10.455 em seu ápice. Era uma época em que havia menos recursos nesses ativos. Naquele ano, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), de 1,52%, foi fortalecido pelo agronegócio, que subiu 5,79% ancorado nas exportações.

No exterior, uma crise envolvendo a Argentina, o então segundo parceiro comercial do Brasil, limitou o crescimento. A alta do dólar pressionava a inflação, que fechou o ano em quase 8,5%. O temor de que o índice de preços pudesse voltar a níveis estratosféricos assustava o mercado. As incertezas com Lula no poder alimentavam os temores, tanto é que o petista divulgou uma carta para tranquilizar os investidores com o compromisso de políticas econômicas e monetárias consistentes.

Quatro anos depois, o petista enfrentava o tucano Geraldo Alckmin. Ocorreu menos volatilidade nas eleições de 2006, já que a economia brasileira vinha dando sinais de melhora. A divisa dos Estados Unidos custava R$ 2,17 no início do trimestre que antecedeu as eleições. Chegou a atingir R$ 2,22, mas terminou o período em queda de 1,8%, cotado a R$ 2,13. Já a Bolsa começou aos 37.381 pontos e foi para os 39.328, em outubro. No meio tempo, variou de 34.798 a 39.644 pontos.

Entre 2004 e 2010, o país foi beneficiado pelo boom das commodities — o aumento da demanda e de preços de mercadorias. O Brasil surfou com a exportação de vários desses produtos, como soja, minério de ferro e petróleo. O avanço econômico da China possibilitou um desempenho ainda melhor da atividade. Em 2010, ano da penúltima eleição, a economia cresceu 7,5%.

Dilma Rousseff (PT) concorreu ao Palácio do Planalto com o tucano José Serra no segundo turno das eleições daquele ano. Em julho, o Ibovespa estava em 67.515 pontos. Até chegar o dia da decisão, variou entre 63.867 e 71.830 pontos, mas fechou o período em 70.673 pontos. O dólar, por sua vez, passou de R$ 1,70 para R$ 1,75 no mesmo intervalo de tempo, variando de R$ 1,77 a R$ 1,66.

Nas últimas eleições, a volatilidade ocorreu à flor da pele. Dilma buscava a reeleição e disputava o cargo contra o senador Aécio Neves (PSDB) no segundo turno. A economia já dava sinais de recessão, que veio a se agravar nos anos posteriores. O mercado era favorável à vitória do tucano, que perdeu por 3,5 milhões de votos de diferença.

O Ibovespa caiu 10,17% de julho a outubro de 2010, saindo de 57.821 pontos para 51.940 pontos. Neste período, a cotação dos papéis oscilou de 50.713 a 61.895 pontos, com diferença de 22%. Já a moeda americana subiu 10,36% no trimestre, saindo de R$ 2,22 e atingindo R$ 2,45. 

Indústria se recupera

Em junho, a indústria recuperou as perdas ocorridas em maio por conta da greve dos caminhoneiros. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção industrial cresceu 13,1% no mês, após tombo de 11% em maio. Todas as grandes categorias econômicas tiveram recuperação, principalmente bens de consumo duráveis, com elevação de 34,4%. De acordo com especialistas, o resultado foi positivo, mas o setor não conseguiu um desempenho satisfatório no primeiro semestre do ano — avançou 2,3% — e ficará mais “vulnerável” a volatilidades na economia por conta da incerteza eleitoral. Apesar disso, a trajetória é de recuperação, mesmo que fraca. A indústria subiu 3,5% em junho frente ao mesmo mês de 2017. No acumulado de 12 meses, o avanço foi de 3,2%.

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