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Correio Braziliense

Milhas viram moeda de troca por passagens mais baratas na internet

Plataformas compram pontos de programas de fidelidade de empresas aéreas e oferecem passagens mais baratas aos usuários. Dinheiro da venda movimenta mercado de consumo


postado em 05/08/2018 08:00 / atualizado em 04/08/2018 23:00

(foto: Arte/CB/D.A Press)
(foto: Arte/CB/D.A Press)
 
A compra de passagens aéreas e pacotes com pontos adquiridos no cartão de crédito ou em viagens cresceu tanto que, o que foi criado como um programa para fidelizar clientes às companhias de aviação, acabou se transformando em moeda. Plataformas de e-commerce começaram a fazer o serviço de mediadores entre os que têm estoque de milhas/pontos para vender e os que procuram por passagens aéreas pelo menor preço.

O modelo de negócio funciona de forma simples. Quem quer vender acessa uma dessas plataformas e oferece as milhas e determina o valor. Essas milhas serão anunciadas pelo site, que receberá uma comissão pela venda, de 12% a 30%. Nessa mesma plataforma, o interessado pode comprar tanto milhas quanto passagens.

O economista da Opus Investimentos e professor da PUC do Rio de Janeiro José Márcio Camargo afirma que esse modelo de negócio tem a capacidade de aumentar a eficiência do mercado de milhas. “Muitas pessoas acabam perdendo pontos acumuladas porque não conseguem viajar antes de vencerem. As milhas desse cidadão poderão ser usadas por outras pessoas”, afirma. Ele ressalta que os vendedores conseguem dinheiro que pode ser usado para consumir qualquer coisa. “A milha funciona como uma moeda de troca para realizar outro tipo de sonho que não o de viagem”

Segundo Camargo, o mercado de e-commerce e o de milhas é promissor no Brasil. Dados do Banco Central mostram que o estoque de milhas referente ao final doquarto trimestre dos anos de 2014, 2015 e 2016 diminuiu, o que significa que as pessoas estão utilizando mais o recurso. Em 2014, eram cerca de 304 bilhões. No fim de 2016, havia caído para 185 bilhões de pontos. Para o economista, o modelo de negócio, da mesma forma que gera concorrência entre companhias aéreas, também estimula as pessoas a usarem, cada vez mais, o recurso para comprar passagens, o que é benéfico para as empresas. “Como a milha passa a valer mais, as pessoas terão mais dinheiro para viajar. É bom para todo mundo”, acrescenta.
 
(foto: Arte/CB/D.A Press)
(foto: Arte/CB/D.A Press)
 

Segundo o CEO e cofundador da MaxMilhas, Max Oliveira, a proposta da empresa é possibilitar que as pessoas viajem mais. Segundo ele, o grande diferencial é atender tanto as pessoas que querem comprar as passagens quanto as que desejam vender milhas. “Recebemos oferta de milhas por meio de cadastros no site. Essas pessoas recebem pelos pontos que usamos para emitir passagens para outro cliente que deseja viajar”, explica.

Escolha

Cada um pode escolher um preço, de acordo com o mercado de milhas, para ofertar uma certa quantidade. Isso, segundo Max, garante que ninguém saia perdendo. “Se a pessoa quer vender milhas, nós explicamos. Ele pode vender mais barato ou mais caro, dependendo do restante das ofertas”, informou. Max acrescenta que as ofertas mais baratas, naturalmente, têm preferência na hora de serem compradas.

O administrador de empresas Juliano Lopes, 37 anos, que está sempre viajando, usa a plataforma. “Sou usuário. Voo frequentemente para Brasília e para a minha terra natal, em Minas Gerais, usando essa facilidade.” Para ele, o ponto forte da empresa que intermedeia o negócio é permitir a simulação do preço nas companhias aéreas antes da decisão de compra de milhas.

Em pesquisa no site Reclame Aqui, foi possível encontrar queixas contra o serviço da MaxMilhas. A maioria referentes a compras de passagens que, por algum motivo, não foram concretizadas, deixando o cliente sem acesso à viagem. O executivo da plataforma explica que é necessário que haja um processo de checagem da compra. “Isso acontece em todos os mercados. É necessário uma análise para saber se o cartão é saudável”, disse. Ele ressalta que, sempre que uma compra é cancelada, ela é estornada. Além disso, a empresa oferece outras formas de resolver os problemas. “Às vezes, o sistema aponta fraude onde não tem. Nesses casos, entramos em contato com o cliente e oferecemos a possibilidade de pagar por transferência bancária”, explica.

O engenheiro Marcelo Pereira Silvestre, 41, enfrentou problemas. Comprou uma passagem para ir de São Paulo para Brasília e a companhia aérea responsável pelo voo cancelou o horário pretendido por ele. “Por e-mail, me notificaram a questão”. Apesar de a MaxMilhas ter aconselhado uma mudança de voo, com diferença de valor, em 24 horas, conseguiu oferecer uma passagem pelo mesmo preço e horário do anterior.

Segundo o terapeuta financeiro Jônatas Bueno, o modelo de negócio pode ter riscos. As companhias aéreas vedam a comercialização dos pontos nos termos de adesão. Como não há regulação clara para esse tipo de negócio, os participantes podem estar sujeitos a uma experiência falha. “Não dá para verificar a segurança jurídica de se comprar milhas. Isso apresenta um risco, que é muito pequeno, para quem compra”, informa. Bueno aconselha que, em caso de problema, a pessoa recorra ao Código de Defesa do Consumidor, já que se trata de serviço prestado a um cliente específico.

O terapeuta financeiro explica que é necessário que o comprador faça uma pesquisa ampla dos preços. Não apenas no site da empresa, mas também nas companhias aéreas e em outros modelos de negócio. “Existem ferramentas de busca de preços que monitoram esse mercado. Dá para comparar os valores e ver realmente se o custo é mais baixo”, diz. Ele adverte que, se o valor no site for similar ao das companhias aéreas, o ideal é efetuar a compra padrão, já que é livre de quaisquer riscos.

O vendedor de milhas está mais sujeito a problemas. Segundo Bueno, podem haver punições por parte das empresas aéreas, já que elas proíbem a comercialização dos pontos. “Se é proibido, a pessoa está sujeita a ser expulsa do plano e de perder as milhas que acumulou. Quem vende pontos precisa estar ciente disso”, analisa.

Quem assumiu o risco foi o empresário do ramo imobiliário José Francisco de Almeida, 28. Quando percebeu o potencial no mercado de milhas, em 2014, começou a estudar o assunto e decidiu vender milhas. “Entrei em diversos programas de milhagem para acumular pontos”, lembra. A experiência, para ele, foi excelente. Até hoje, José comercializou cerca de 20 milhões de milhas, que lhe renderam aproximadamente R$ 300 mil. “Eu utilizei o dinheiro para comprar material para uma obra que estava fazendo. Foi um bom investimento”, admite. Ele pretende continuar no ramo para poder reinvestir o dinheiro ganho.

Sem levar em conta que a venda de milhas pode ser um negócio, Bueno considera que, se alguém precisa vender milhas para evitar que vençam, não está utilizando bem o programa de fidelidade. “Se a pessoa não consegue usar as milhas para viajar, pode retirar produtos. Milhas são uma forma de dinheiro. Se a pessoa não está conseguindo gastar aquele valor, ela tem que repensar o acúmulo.”

* Estagiário sob supervisão de Rozane Oliveira

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