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Correio Braziliense

Entrevista: Padovani prevê um mercado mais turbulento até fim das eleições

Para economista-chefe do Banco Votorantim, volatilidade dos mercados vai aumentar até as eleições. Mas ele vê 2019 com otimismo, porque novo presidente tende a fazer reformas


postado em 11/08/2018 07:00

Quem tem dinheiro aplicado em ações, derivativos ou títulos públicos deve se preparar para ter sangue frio daqui para frente. Se esta semana foi agitada, por conta da instabilidade global, as próximas podem ser ainda piores. Além dos ventos vindos de fora do país, que devem continuar fortes, o clima eleitoral possivelmente terá grande peso no sobe e desce dos preços de ativos, avalia o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani.

Na avaliação dele, o mercado demorou a acordar para o problema, porque julho foi um mês de relativa calmaria, depois de dois meses complicados. Mas, a partir de agora, a história será outra. “O nível de incerteza vai aumentar”, afirmou. “Os mercados de câmbio, juros e bolsa vão ficar muito instáveis nos próximos meses.”

Isso não quer dizer, porém, que as perspectivas para 2019 são ruins. “Do ponto de vista de fundamentos, eu estou otimista”, explicou. O que lhe dá tranquilidade é que a inflação e as contas externas estão sob controle, o endividamento das famílias é baixo, assim como os juros, e o crédito se recupera. Há, é verdade, um imenso problema: as contas públicas. Mas, de tão grande, vai exigir reformas em 2019 de qualquer que seja o presidente eleito. E, graças ao endosso das urnas, ele ou ela terá poder para implementá-las.

Padovani reconhece que, como outros economistas, exagerou nas previsões otimistas quanto à retomada no ano passado. Grande parte disso, explica, veio com a mudança do cenário internacional no início deste ano. Em uma economia ainda fraca, a confiança acaba facilmente comprometida.

"Em 2019, seja quem for o presidente, o fato de ter sido eleito dará muita popularidade. Mesmo com a economia fraca, o presidente será forte" (foto: Paulo Silva Pinto/CB/D.A Press - 17/2/17)

A volatilidade nos mercados por razões eleitorais vai piorar nas próximas semanas?

O processo será intenso e tenso. Estamos vivendo um ambiente global instável, algo que não favorece mercados emergentes, em especial países como Brasil, Argentina, Turquia. Quando o ambiente global piora, tradicionalmente, os analistas locais começam a lembrar que há riscos. O principal aqui no Brasil é o eleitoral, não só porque se define o novo presidente, mas porque o próximo presidente será fundamental para equilibrar as contas públicas. O risco fiscal e o político se associam hoje. Essas eleições são absolutamente abertas, indefinidas. Talvez não tenha caído a ficha para os analistas. A volatilidade vai aumentar muito. Eu não vejo o cenário como sendo necessariamente negativo. Mas o nível de incerteza vai aumentar. Os mercados de câmbio, juros e bolsa vão ficar muito instáveis nos próximos meses.


Isso vai exigir sangue frio do investidor, inclusive pessoa física, certo?

Sim. Não estou falando da economia, mas dos mercados. Do ponto de vista de fundamentos, eu estou otimista.


Por que o descolamento?

O ser humano acredita no que vê. Ninguém tem segurança sobre hipóteses. Passamos um mês de julho relativamente tranquilo nos mercados globais em comparação com maio e junho, e, até recentemente, se esperou que continuasse assim. No segundo semestre do ano passado, tivemos uma piora sensível dos fundamentos econômicos, políticos, globais, com excesso de liquidez mundial. Havia focos de tensão, mas muito dinheiro, o que favorece mercados emergentes. As agências de rating reduziam a classificação de risco do Brasil, mas o CDS (índice de risco) operava nas médias de quando o Brasil era grau de investimento.

Sobre o cenário pós-eleição, o que o leva a ser otimista?

Saímos da recessão, que foi dura, longa e prolongada. O que a gente discute hoje é com que velocidade isso ocorre. Mas não vejo nenhum fator que possa tirar a economia dos trilhos dessa recuperação.

Fala-se em uma curva em W, com risco de uma nova queda antes que a atividade volte a subir com força. Não vê esse risco?

Não. A gente tem taxas de juros muito baixas, inflação controlada, mercado de crédito se normalizando. Famílias pouco endividadas e confiança voltando. Há um conjunto de fatores que pode não trazer exuberância para a economia, mas que mantém a trajetória de recuperação. Em 2020 a economia vai voltar para o seu nível potencial, de normalidade.

Mas a situação fiscal está muito ruim. Isso não contamina a economia?

Sou otimista, porque estou olhando para os últimos cinco anos. A situação foi bem pior do que será. Estamos na direção correta. Na questão fiscal e política, eu sou otimista também, porque o que eu tenho aprendido nos últimos anos é que os países fazem reforma não quando eles querem fazer, mas quando precisam fazer. A literatura e a experiência mostram isso no mundo todo. Não é questão de jeitinho brasileiro. Só se ajusta quando o custo de não ajustar é maior, quando há uma tensão social de tal ordem que isso impõe pressões para que se combatam privilégios e interesses localizados. Um exemplo é que a Dilma ganhou a eleição em 2014 e, em 2015, fez uma guinada na gestão econômica.


Isso ajudou a derrubá-la, não?

Sim, porque não tinha sustentação política. Mas o que chama a atenção é que, independentemente do discurso, ela deu uma guinada, porque não havia alternativas. As pessoas se esquecem, mas já se discutia no governo Dilma uma reforma da Previdência. Eu sou dos que acreditam que o político faz o que é preciso ser feito para responder a demandas da sociedade. Seja quem estiver no poder em janeiro de 2019, vai ter um deficit fiscal gigantesco. Se a dívida continuar subindo, a gente vai ser mal-avaliado pelas agências de classificação de risco. Os investidores não vão colocar dinheiro aqui, ou vão tirar dinheiro daqui, o câmbio vai gerar custo para as empresas e aumento da inflação, o que significará queda da arrecadação e aumento da taxa de juros. Isso vai gerar desaceleração econômica. Aí sim viria uma curva em W. Depois de três anos de recessão e dois de recuperação, teríamos um sexto ano ruim. Não há empresário que sobreviva a isso. Seria um caos econômico, com implicação sobre o ambiente político. Portanto, qualquer presidente vai encarar o que precisa ser feito por falta de alternativas.


Mas não é impossível entrar alguém que enfrente esses riscos e decida ir por outro caminho?

Isso é difícil, porque os candidatos competitivos, Alckmin, Bolsonaro e Haddad, são políticos e experimentados, treinados para responderem a incentivos.


Mas Bolsonaro nunca teve experiência de Executivo, diferentemente dos outros, e é considerado instável. Isso não embute riscos?

Sim. Uma questão é se o presidente eleito terá equipe e estabilidade política para fazer todas as reformas. São várias. E precisa de 308 votos no Congresso para cada uma. Todos eles vão tentar ter bons quadros. O Haddad, a Marina, o Ciro, o Bolsonaro e o Alckmin. A diferença entre os candidatos é construir e manter coalizões no Congresso.


Quem é melhor?

Quem está no jogo do establishment. Quem tem mais capacidade hoje é o PSDB. O MDB é uma força importante. Quem está mais afastado são Bolsonaro, Marina e Ciro. São todos experimentados, mas representam máquinas menos articuladas. O discurso do Bolsonaro é anti establishment. Neste momento, isso é eficiente, e pode levá-lo a vencer.


Qual o problema da imprevisibilidade?

Para os preços de ativos, é ruim. Pode se ter um cenário ruim e previsível ou bom e previsível. Você se ajusta. O problema é ter um cenário imprevisível. O mercado fica sem âncora. Se adicionar um ambiente global tenso, a coisa complica.

O que dá confiança nos fundamentos?

O único problema grave no país hoje são as contas públicas. A inflação está controlada, mérito da gestão de Ilan Goldfajn. Pode-se dizer que a inflação recuou porque a recessão foi brutal, o que é verdade, mas o mérito no Ilan é a capacidade de ancorar as expectativas. A inflação está baixa em 2019, 2020, 2021 e 2022. As taxas de juros estão em nível historicamente baixos. Vão subir, mas não vejo necessidade de se subir rapidamente, não neste ano. Tivemos um choque pela greve dos caminhoneiros, mas estamos tirando o choque e isso não está contaminando a inflação de 2019 e 2020. Também acho pouco provável baixar juros, porque temos riscos importantes. Risco político gera pressão no câmbio, que gera pressão na inflação.


Quais são as reformas necessárias, e em que ordem?

A mais importante é a da Previdência. A segunda, funcionalismo público. Tem que fazer ajustes para tornar a máquina mais flexível. Com demissão, avaliação de desempenho. A terceira é o teto. Se tem que flexibilizar, o que fazer. A regra de ouro, que não faz muito sentido técnico. É sempre bom ter regras, mas elas têm que ser transparentes e eficientes. Tem que ter privatização e melhorar o ambiente regulatório e a qualidade das agências reguladoras. Ter agências que não sejam capturadas. Reforma tributária é um consenso no mercado.


Bolsonaro conseguiria isso com um partido pequeno?

Presidentes populares atraem apoio. Em 2019, seja quem for o presidente, o fato de ter sido eleito dará muita popularidade. Mesmo com a economia fraca, o presidente será forte.

Voltando ao futuro de um ou dois anos atrás: o que se imaginava era recuperação mais rápida. Por que não aconteceu?

A gente se animou, e eu me incluo nesse time, porque a inflação despencou. A renda real aumentou. Quem estava trabalhando passou a ter mais capacidade de consumo. Isso não está acontecendo neste ano. A ajuda da inflação não é mais a mesma. Segunda coisa, no ano passado, houve um aumento do emprego informal. Agora, o mercado de trabalho não está melhorando como estava. E há também a confiança, que é algo difuso. Quando o dólar oscila muito, o consumidor, o empresário e o banqueiro se retraem. E, então, a profecia se realiza. Os impulsos que se viam antes não se mantiveram. Além disso, houve uma euforia global em 2017 que se reverteu no começo de 2018.

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