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Correio Braziliense

O impacto da crise na Turquia na queda da bolsa e na alta do dólar

Decisão do presidente Donald Trump de taxar aço e alumínio do país faz moeda turca despencar e leva junto divisas de países emergentes. No Brasil, a B3 desabou 2,86%. Também houve queda na Europa, no Japão e nos Estados Unidos


postado em 11/08/2018 07:00

(foto: Luiz Prado/Divulgação)
(foto: Luiz Prado/Divulgação)
O principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), o Ibovespa, despencou ontem 2,86%, para os 76.514 pontos, o pior pregão desde 7 de junho, quando recuou 2,98%. Na semana, a desvalorização chegou a 6,04%. A queda registrada na sexta-feira foi a quinta consecutiva, motivada pela crise cambial na Turquia, fator que também mexeu com todos os mercados mundiais. Desde o início do dia, os investidores foram surpreendidos com declarações do presidente turco, Recep Erdogan, e novas sanções do presidente americano, Donald Trump, contra o país. 

O cenário internacional se agravou depois que o presidente norte-americano dobrou as tarifas alfandegárias do aço e do alumínio nas transações com a Turquia para 20% e 50%, respectivamente. Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores turco destacou, em comunicado, que “os Estados Unidos devem saber que o único resultado que tais sanções e pressões vão trazer (...) será danificar nossas relações como aliados”. O clima de discórdia rapidamente contagiou os mercados americano, europeu e asiático. A bolsa de Milão recuou 2,51%. A de Frankfurt baixou 1,99%. Em Paris, o tombo foi de 1,59%. Madri teve queda de 1,56%; Japão, de 1,33%; Londres, de 0,97%. Nos Estados Unidos, a Dow Jones baixou 0,77% e a Nasdaq, 0,67%.

O câmbio também foi afetado com o derretimento da lira turca, que chegou a se desvalorizar 20% (a 6,115 liras por dólar) ao longo do dia. O efeito no Brasil foi uma depreciação do real frente ao dólar, que subiu ontem 1,63%, cotado a R$ 3,865 para venda. Na semana, a desvalorização do real foi de 4,19%.

Os acontecimentos domésticos também não ajudaram, segundo o economista da Infinity Asset. “Há uma hipersensibilidade sobre a questão eleitoral. Daqui para frente, as pesquisas vão começar a ter mais importância. O melhor cenário é que o candidato Geraldo Alckmin comece a subir nas pesquisas”, afirmou. Para o economista Carlos Oliveira, sócio da Capital Investimentos, não é de hoje que o mercado está “emotivo”. “Na verdade, a guerra comercial entre EUA e Turquia foi somente um pretexto. O que muita gente não está prestando atenção é que os juros futuros, dos títulos públicos, para 2025, já estão em 11,70% ao ano. Isso é mais importante que a intempestividade de Trump”, lembrou Oliveira.


Juros


A perspectiva de alta da taxa básica de juros (Selic, hoje em 6,5% ao ano) futura sinaliza, de acordo com o sócio da Capital Investimento, que “está latente que o governo não vai conseguir honrar seus compromissos, até porque não se ouviu um candidato falar em teto dos gastos ou em reformas estruturais”. Para ele, a palavra-chave é credibilidade, o que falta ao país. Sidnei Nehme, economista da NGO Corretora, compartilha de semelhante opinião. “O problema maior é interno. O externo, embora importante, foi somente um álibi para deslocar as atenções por algum tempo. Como Alckmin não deslancha, o mercado fica nervoso. O dólar sobe com essa tensão”, disse Nehme. Alguma coisa tem que ser feita, enfatizou, para que não chegue ao segundo turno das eleições com dois candidatos de esquerda.

Outro dado que assusta os investidores, no entanto, é a situação fiscal do Brasil, que teve mais um ponto negativo, com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de aumentar os gastos, com a liberação do aumento de 16,38% para magistrados e procuradores. “O contexto do Brasil é pesado e não temos candidatos reformistas”, reforçou Nehme. Para ele, a taxa de equilíbrio do dólar é de R$ 3,80, mas pode furar o teto e ultrapassar os R$ 4,20 com a eleição de um presidente radical, de esquerda ou de direita. “Mas também não chegaremos nem perto dos R$ 5 ou R$ 5,50, como dizem algumas pesquisas”, argumentou.

Mario Battistel, gerente da Fair Corretora, explica que, pelo menos no que se refere à oscilação do câmbio ontem, a crise turca, mais do que qualquer outra circunstância, teve relevância. “Os efeitos foram imediatos. Tanto o chamado novo plano econômico da Turquia quanto as sanções de Trump vão provocar uma retração no comércio internacional. Essa perspectiva fez a moeda turca despencar, afetou os bancos europeus e as bolsas da Europa e da Ásia”, afirmou. A desvalorização do real frente ao dólar não teve interferência do mercado interno e tampouco dos discursos vazios dos presidenciáveis.

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