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Correio Braziliense

Novo presidente terá que reduzir gastos, acredita comandante da Tigre

"Independentemente de quem ganhe, não terá alternativa a não ser lidar com os problemas do deficit fiscal. É insustentável manter déficits de R$ 150 bilhões", diz Otto von Sothen, comandante da Tigre


postado em 13/08/2018 06:00 / atualizado em 13/08/2018 00:26

Multinacional brasileira, a Tigre faturou em 2017 cerca de R$ 3 bilhões. Seu plano de negócios prevê investimentos na casa dos R$ 600 milhões até 2020(foto: Andre kopsch/divulgação)
Multinacional brasileira, a Tigre faturou em 2017 cerca de R$ 3 bilhões. Seu plano de negócios prevê investimentos na casa dos R$ 600 milhões até 2020 (foto: Andre kopsch/divulgação)


São Paulo – O Grupo Tigre acaba de completar 77 anos. Líder no segmento de tubos e conexões, a fabricante tem buscado espaço em outras frentes para diminuir a dependência desse mercado, ainda mais com a construção civil sob os efeitos de uma economia que pouco cresce. As frentes de negócios que mais avançaram nos últimos tempos surgiram da associação com uma startup do interior paulista e da aquisição de uma empresa do Rio de Janeiro. Multinacional brasileira, a Tigre faturou em 2017 cerca de R$ 3 bilhões. Seu plano de negócios prevê investimentos na casa dos R$ 600 milhões até 2020. No comando da operação, Otto von Sothen, que está prestes a completar cinco anos no cargo. Com passagem por multinacionais como Diageo e PepsiCo, o executivo chegou à companhia ainda sob os ventos favoráveis do crescimento da economia, que, em 2013, seu primeiro ano no grupo, cresceu 2,3%. Mas, a partir de 2015, com o PIB despencando, teve de buscar outras alternativas para não deixar a empresa ser abalada pela crise. Com a entrada em novos negócios, a Tigre reduziu os efeitos de uma economia em declínio. Em 2 anos, a empresa conseguiu com que 15% de sua receita venham de produtos que não faziam parte do portfólio. Confira a entrevista a seguir:

Como ser uma empresa inovadora aos 77 anos?
Basicamente, somos abertos aos estímulos externos e estimulamos o empreendedorismo dentro da companhia. Quando olhamos para a Tigre, vimos que as possibilidades poderiam ir muito além dos tubos e conexões e materiais de construção. Era como se tivéssemos uma Ferrari na garagem e não usássemos.

Como vocês chegaram a essa conclusão?
Há cerca de quatro anos, fizemos pesquisas com os consumidores, arquitetos e outros públicos da companhia para ver quais espaços poderíamos ocupar. Da porta para dentro, pensávamos ser uma empresa que transformava plástico, mas, na visão da porta para fora, a Tigre era tida como a empresa que conduzia água de uma ponta a outra. Essa percepção foi muito importante para o planejamento estratégico de crescimento. Um desses pilares tem a ver com a condução de água em função dessas pesquisas e o uso inteligente da água, com o tratamento e a conservação. Um dos negócios no qual entramos foi o de estações de tratamento de água e esgoto, com a construção, aluguel e venda, para os segmentos da indústria, condomínios verticais e shoppings e o segmento residencial.

Como se tornar conhecido em um segmento novo?
Contamos com nossa força ativa de vendas, mas também tem o boca a boca. Nosso sistema funciona por meio de um processo biológico, que traz toda a água descartada para um contêiner, faz o tratamento com bactérias e a água volta para a indústria, reduzindo a captação de água nova em 30%. Recuperamos dois terços da água descartada em indústrias e shoppings. Ainda é um negócio pequeno, mas os números desse segmento têm triplicado a cada ano. Nenhum outro produto tem essa taxa de crescimento no nosso portfólio. E tudo surgiu há dois anos, depois que nos associamos a uma startup montada por quatro sócios, em Indaiatuba, no interior de São Paulo, que detinha a tecnologia. Assim surgiu a divisão de água e efluentes na Tigre.

E qual é o potencial?
Apesar de a água ser um bem renovável, paradoxalment, é um bem escasso, principalmente pela perda que tem nas redes de distribuição, de 30% a 35%, além do padrão de consumo, que ainda tem muito desperdício. Hoje, em São Paulo, o consumo de água é praticamente o mesmo do período pré-crise. A demanda por água é cada vez maior, mas, infelizmente, o ser humano não aprende e o desperdício é grande. Em regiões como o Nordeste e em Brasília, por exemplo, você não consegue autorização para um empreendimento novo se não tiver a captação de água por cisterna ou poço.

Como é estar atrelado aos mercados de água e saneamento em um país onde a escassez de água é cada vez mais preocupante e o saneamento ainda é para poucos?
Dar às pessoas um propósito para estarem na empresa. Muitas focam na necessidade de retorno sem se preocupar se as pessoas estão ali por um propósito maior. No nosso caso, esse problema acaba sendo parte da solução. As pessoas sabem que estão em uma empresa que se preocupa com a conservação da água, por exemplo. Sou presidente do conselho do Instituto Trata Brasil, uma ONG que tem como propósito a universalização do saneamento básico. Essas causas estimulam a nossa inovação. Por outro lado, dão um propósito às pessoas que estão conosco.

Esse conceito vale apenas para a água?
Na Tigre, quando definimos nossos eixos, além de incluir o uso eficiente de água, também acrescentamos o uso eficiente de energia, como energia solar, a industrialização da construção civil, facilitando a vida das construtoras nos canteiros de obras com equipamentos semiprontos, e por último o conforto e a estética, daí a nossa entrada no setor de metais sanitários, com a linha Tigre Metais, primeiro com a compra da Fabrimar, do Rio de Janeiro. Tem produção local e também importação da China, onde temos um escritório na cidade de Shenzen, que surgiu para fazer o controle de qualidade, a prospecção de novos fornecedores e hoje está fazendo a importação direta. A marca Fabrimar será mantida no mercado do Rio, mas, no restante do país, usaremos Tigre Metais.

A Tigre estuda produzir na China? 
Sim, isso pode acontecer. Mas não é o que temos no momento no nosso plano.

A sinergia com outros negócios do grupo deverá ajudar nas vendas da Tigre Metais?
Sim, hoje temos cerca de 10 mil clientes atendidos diretamente. Eles já compram Tigre, então o potencial é grande também para as compras da Tigre Metais. Por sinal, quando decidimos entrar nesse segmento, fizemos uma pesquisa com os consumidores e vieram três tipos de resposta. Uns disseram que fazia sentido, pois a Tigre já conduzia água e nesse caso conduziria da parede para fora. Outros afirmaram que já tinha visto a Tigre Metais, só que a marca não existia ainda. A terceira resposta foi a mais engraçada. ‘Vocês estão esperando o quê? Até para mim, que não sou entendido, parece ser óbvio. Por que não pensaram nisso antes?’.

É possível ser inovador nesse mercado?
Conseguimos desenvolver uma base universal que possibilita que o consumidor possa fazer a compra sem ter de se preocupar em saber qual é a marca do registro que tem na parede de casa. Nos produtos concorrentes, você precisa de um adaptador. Nenhum outro concorrente tem. Agora, passaremos a ter a solução completa, tanto para cozinha quanto para banheiro, dentro e fora da parede. Vamos buscar a liderança. Temos a mesma base de clientes, então vai facilitar a expansão da marca.

Como fazer um plano de investimentos com tantas incertezas como as que vemos nos últimos tempos?
Desde o começo da crise, em 2014, estamos em um processo de diversificação de porfólio. Temos, por exemplo, um segmento de ferramentas para pintura que cresce aceleradamente. Outro segmento é o de acessórios, como tampos sanitários e torneiras de plástico, que são produtos mais econômicos. Hoje, 15% da nossa receita vem de produtos lançados nos últimos dois anos. Isso nos ajuda a contrabalançar a crise. Essas novas áreas sempre estão ligadas a algum tipo de benefício para o consumidor. A segunda fonte de crescimento tem sido a diversificação geográfica. Hoje, quase 40% da nossa receita vem de fora, ou seja, a fonte não é em real. Mesmo a Argentina, que, até um mês e meio atrás, era a nossa estrela. Agora eles têm o problema de liquidez, mas nada que estejamos acostumados a lidar, estamos no país há mais de duas décadas. Nesse contexto, também está a produtividade, que tem de andar ao lado da diversificação para poder administrar uma demanda bastante retraída. Até julho, o mercado interno está com crescimento de receita próximo de 5%, o que é positivo se levarmos em consideração o momento do país. Nossa expectativa para o ano é de ter um crescimento da ordem de 9%. Já a área internacional está mais consistente, mais próxima dessa previsão.

Qual é a previsão para o segundo semestre, quando teremos as eleições?
Tradicionalmente o segundo semestre é melhor que o primeiro. Este ano não deve fugir muito disso. Independentemente de quem ganhe, não terá alternativa a não ser lidar com os problemas do deficit fiscal. É insustentável manter deficits de R$ 150 bilhões, R$ 160 bilhões por ano. Não importa a ideologia, quem vencer vai ter de reduzir gastos, porque não tem de onde tirar. O primeiro semestre vai exibir que o governante faça algumas reformas. Mas isso não deverá ter impacto nos nossos negócios, porque os investimentos públicos hoje estão no fundo do poço.

"Quando olhamos para a Tigre, vimos que as possibilidades poderiam ir muito além dos tubos e conexões e materiais de construção. Era como se tivéssemos uma Ferrari na garagem e não usássemos"

"A demanda por água é cada vez maior, mas infelizmente o ser humano não aprende e o desperdício é grande"

Quem é Otto von Sothen

» No comando da empresa desde 2013, o executivo é graduado em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e tem MBA pela J.L.Kellogg Graduate School of Management de Evanston (IL). Antes da Tigre, presidiu a Diageo, a maior empresa de bebidas destiladas do mundo por dois anos. Sothen foi ainda presidente da PepsiCo Alimentos no Brasil e no exterior. Ele acumula o cargo com o de presidente do conselho superior do Instituto Trata Brasil, ONG voltada ao saneamento.

Quem é o Grupo Tigre

» Multinacional brasileira, é líder em soluções para construção civil e cuidado com a água. Seu portfólio de produtos inclui itens que atendem os mercados predial, de infraestrutura, de irrigação e industrial. A companhia está presente em 30 países, tem 11 fábricas no Brasil e 12,s distribuídas entre Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Estados Unidos. Ao todo, emprega cerca de 7 mil funcionários. Além de tubos e conexões, o portfólio do grupo tem as marcas Claris Tigre (esquadrias de PVC), Tigre Ferramentas para Pintura, Tigre-ADS (tubulações de PEAD para saneamento e drenagem), Fabrimar (metais sanitários) e TAE-Tigre Água e Efluentes.
 
 

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