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Correio Braziliense

Crise da Turquia gera efeitos contraditórios no Brasil: bolsa e dólar sobem

Investidores adotam postura cautelosa em mercados emergentes e usam dólares para cobrir perdas no país euro-asiático. Bolsa de Valores inicia dia em queda, mas desvalorização de papéis dos últimos dias estimula aplicação em empresas brasileiras


postado em 14/08/2018 06:00 / atualizado em 14/08/2018 12:29

(foto: Cb/D.A Press)
(foto: Cb/D.A Press)
Em meio às tensões na Turquia, o dólar fechou em alta pelo terceiro pregão consecutivo no Brasil. No pregão de ontem, a divisa estrangeira subiu 0,83%, vendida a R$ 3,897. Somente em agosto, a moeda norte americana se valorizou 3,92% em relação ao real. O temor de prejuízo com aplicações no país euro-asiático levou os investidores a adotarem uma postura cautelosa em relação às economias emergentes. Diante da fuga de recursos, o banco central da Argentina subiu os juros em cinco pontos percentuais, para 45% ao ano.

Apesar da volatilidade, os analistas avaliam que o Brasil possui balanço de pagamentos equilibrado e US$ 380 bilhões em reservas internacionais para passar por qualquer choque. Além disso, destacam que o encarecimento da divisa norte-americana é acompanhado de um volume robusto de negócios, sem movimentos especulativos. Para conter a fuga de recursos na Turquia, a autoridade monetária do país anunciou um pacote de medidas para fomentar a economia.

Entre elas está a redução dos depósitos compulsórios. O BC turco calcula que as mudanças proporcionarão a entrada de 10 bilhões de liras turcas, US$ 6 bilhões e o equivalente a mais US$ 3 bilhões em liquidez em ouro no sistema financeiro local. As ações tomadas, no entanto, não foram suficientes para conter as perdas ante o dólar. Ontem, a lira renovou mínimas históricas. A moeda se desvalorizou 7,5% em relação à moeda dos Estados Unidos. No país, o presidente Recep Tayyip Erdogan atribuiu a queda da lira turca a um complô e afirmou que os Estados Unidos querem esfaquear a Turquia pelas costas.

No Brasil, diante das incertezas, o dólar chegou a superar os R$ 3,92, com alta de 1,35% ao longo do dia, mas perdeu força no fim do pregão. Na Bolsa de Valores de São Paulo (B3), a manhã foi tensa, com baixas expressivas, mas, devido às perdas acumuladas nas últimas semanas, os investidores aproveitaram os preços baixos para comprar papéis de brasileiras. Isso levou a B3 a registrar alta de 1,28%, aos 77.496 pontos.

Na opinião do diretor de operações da corretora Mirae Asset, Pablo Spyer, investidores temem que a crise cambial na Turquia contamine bancos de outros países. Segundo ele, não se sabe quanto cada credor emprestou ao governo turco e a empresas do país. Para piorar, Spyer ressaltou que a retaliação comercial dos Estados Unidos a produtos turcos aumenta a dúvida sobre a capacidade de pagamento do país. “O investidor sempre vai avaliar o risco de o devedor não conseguir honrar os compromissos”, disse.

Funcionalidade


Spyer acredita, no entanto, que a volatilidade na Turquia não deve trazer problemas para a economia brasileira, já que a alta do dólar é acompanhada de um movimento cambial intenso, com liquidez no mercado. “Não acredito que o Banco Central vá intervir no câmbio agora. Trata-se de um movimento global, não é uma ação isolada e sem volume. A autoridade monetária não tem como função segurar o dólar em um patamar, porque o câmbio é flutuante. E sim dar funcionalidade aos mercados”, afirmou.

Na avaliação do economista Rafael Cardoso, da Daycoval Investimentos, a tendência é de que a equipe de Ilan Goldfajn continue a acompanhar os efeitos da crise cambial turca no país, mas ressaltou que o movimento é acompanhado de forte liquidez. Ontem, foram negociados, na B3, 452.755 contratos de dólar futuro, equivalentes a US$ 22,6 bilhões. Em pregões normais, são transacionados até US$ 14 bilhões.

Para Cardoso, o câmbio teria efeito para a política monetária se tivesse impacto nas expectativas de inflação, que continuam ancoradas. Na opinião dele, um eventual choque teria efeitos restritos à inflação de 2018. A fragilidade turca em relação ao balanço de pagamentos e o nível de endividamento em dólar levaram os investidores a uma postura cautelosa, afirma o economista-chefe do grupo Confidence, Robério Costa. Ele explica que, diante das perdas na Turquia, as aplicações em outros países emergentes são zeradas para compensar as perdas acumuladas. “Há preocupação também em relação à exposição de bancos da Alemanha na Turquia e a uma crise econômica na Itália. Todos temem que isso se torne uma crise mais grave do que parece agora”, relatou.

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