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Correio Braziliense

Megainvestidor Howard Marks demonstra otimismo com o Brasil

Dono de uma gestora que administra US$ 122 bilhões, escritor fala sobre crise e investimentos


postado em 14/08/2018 12:27 / atualizado em 14/08/2018 12:36

"Faço isso há 50 anos e uma das coisas que aprendi é que nós, os investidores, às vezes temos uma ideia do que vai acontecer, mas nunca sabemos quando. Pensar que sabemos o timing é arrogância, e normalmente é a principal fonte de erros" (foto: Internet/Reprodução )

 

São Paulo — “Quando vejo os memorandos de Howard Marks no meu e-mail, eles são a primeira coisa que abro e leio”, Warren Buffett disse certa vez. Os memos de Marks versam sobre estratégias de investimento e a economia em geral e o transformaram numa celebridade em Wall Street. Seu livro The most important thing (ou De zero a cem, na tradução para o português) vendeu mais de 6 milhões de cópias, e agora ele prepara outro para lançar em outubro. Marks é um profissional de múltiplas atividades. Em 1995, ele e cinco sócios fundaram a Oaktree em Los Angeles, gestora que hoje administra US$ 122 bilhões. O executivo esteve no Brasil no início do mês para conversar com investidores.

A próxima crise deve oferecer ainda mais oportunidades do que a anterior?

Essa não é uma resposta fácil. A última crise foi global, e eu não acredito que a próxima crise também será. Os bancos não estão tão alavancados e o principal combustível para a última crise foram as hipotecas subprime — um mercado gigantesco de um produto que, essencialmente, era fraudulento. Como os bancos não estão tão alavancados, vai ser um ciclo de baixa mais convencional. Então, quantitativamente, não acho que as oportunidades serão tão boas. Mas, falando de forma qualitativa, elas podem ser, porque o volume de empréstimos cresceu muito desde então. Resumindo: o volume de oportunidades não será tão grande, e não acho que haverá uma ameaça ao sistema financeiro como houve 11 anos atrás.

Onde surgirão as oportunidades? Nos Estados Unidos ou elas serão globais?

Neste momento, as melhores oportunidades estão fora dos Estados Unidos. Vários fundos da Oaktree aplicaram na Europa, uma parte foi para a América Latina, outra para a Ásia. Mas acho que o próximo fundo vai principalmente para os Estados Unidos. Faço isso há 50 anos e uma das coisas que aprendi é que nós, investidores, às vezes temos uma ideia do que vai acontecer, mas nunca sabemos quando. Pensar que sabemos o timing é arrogância, e normalmente é a principal fonte de erros.

Como está a economia americana?

Hoje, a economia dos Estados Unidos parece muito forte e o corte de impostos de Trump dá muito estímulo. Mas acho que, em parte, esse estímulo é falso. É como uma injeção de adrenalina: os médicos não dão uma injeção de adrenalina para pacientes saudáveis. Nossa economia já estava muito saudável em dezembro ou janeiro, eles deram essa injeção e nós tivemos um segundo trimestre com crescimento de 4,1%, que é o maior em quatro anos. Então, a pergunta é: esse estímulo vai fazer com que a economia decole ou vai provocar um superaquecimento que a levará para um nível a partir do qual não dá mais para continuar? Nós não sabemos.

Como o senhor enxerga o Brasil?

Acho o Brasil muito interessante. O país tem muitos recursos fortes, tanto naturais quanto do ponto de vista humano. E muito potencial. A questão é:  dá para reduzir ao menos um pouco os efeitos cíclicos? A gestão econômica pode ser saudável? Isso depende do governo. Estamos esperançosos com o Brasil, temos uma visão otimista neste sentido, temos uma atividade forte nos mercados de dívida e ações emergentes e investimos no Brasil de tempos em tempos. Estamos prontos para aumentar nossa alocação no país se as condições que eu mencionei se materializarem. Espero que isso aconteça.

Há toda uma indústria voltada a dizer que investir é fácil e dando fórmulas prontas de como investir em ações. O que o senhor tem a dizer a essas pessoas?

Para a maioria das pessoas, acho que o mais importante são taxas mais baratas e não faz sentido ficar pulando de um ativo para outro. Se você investir num bom portfólio de ações, com taxas baixas, e segurar pelos próximos 30 anos, provavelmente vai se dar melhor. Investir é contraintuitivo. A maioria das pessoas não sabe o que isso significa e não consegue fazer isso. As pessoas não têm o que é necessário para comprar na baixa quando as coisas estão péssimas e vender na alta quanto tudo parece maravilhoso. É uma atividade difícil.

O seu novo livro sai em outubro?

Esse novo livro é sobre o ciclo econômico. Ele se chama Mastering the market cycles e a coisa mais importante nele é o subtítulo: “Colocando as chances a seu favor”. Se você investe quando estamos num ciclo de baixa e espera que ele suba, então as chances estão a seu favor. Se você chega atrasado no ciclo, então as chances estão contra você.

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