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Correio Braziliense

Venezuela lança nova moeda para combater maior inflação do mundo

Plano econômico anunciado pelo presidente Nicolás Maduro para segurar a hiperinflação institui o 'bolívar soberano', divisa atrelada ao Petro, criptomoeda criada pelo governo e vinculada às cotações do petróleo. Para analistas, não vai dar certo


postado em 21/08/2018 06:00 / atualizado em 21/08/2018 12:14

Governo decretou feriado no primeiro dia de circulação das novas cédulas: desvalorização de 96% frente ao dólar(foto: Federico Parra/AFP)
Governo decretou feriado no primeiro dia de circulação das novas cédulas: desvalorização de 96% frente ao dólar (foto: Federico Parra/AFP)
Sob forte desconfiança de analistas, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, lançou um plano econômico para tentar conter a derrocada econômica, que tem levado centenas de milhares de venezuelanos a emigrar para países vizinhos. Entre eles, Colômbia, Equador e Brasil. O “Madurazo” cortou cinco zeros da moeda nacional, o bolívar, que passou a se chamar bolívar soberano. Para analistas, o plano tende a fracassar. Eles dizem que a mudança monetária, que entrou em vigor ontem, não deve controlar a hiperinflação que, de acordo com estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), pode alcançar 1.000.000% em 2018 — a maior taxa do mundo.

Especialistas afirmam que, para segurar a desvalorização acelerada da moeda, é preciso, primeiro, equilibrar oferta e demanda na economia e reorganizar as contas públicas, que apresentam deficit equivalente a 20% do Produto Interno Bruto (PIB). Maduro anunciou que, para se manter estável, o bolívar soberano será vinculado ao Petro, uma criptomoeda criada pelo governo com base no preço do barril do petróleo venezuelano. Na prática, um Petro começa valendo 3,6 mil bolívares soberanos, o que equivale a US$ 60. Na prática, a moeda do país foi desvalorizada em 96% em relação ao dólar.

As medidas incluem um aumento de 35 vezes do salário mínimo (3.464%), que sai de 5,2 milhões para 180 milhões de bolívares, na antiga moeda, ou 1.800 bolívares soberanos. O valor corresponde a cerca de US$ 28, ou R$ 112, o suficiente para comprar um quilo de carne no país.  Maduro anunciou ainda que o Estado assumirá, por 90 dias, a diferença do reajuste do salário mínimo para todas as pequenas e médias indústrias do país, o que pode comprometer mais a situação fiscal.

Por ter sido criada pelo governo, o Petro sofre de falta de credibilidade. “A cotação das criptomoedas têm altíssima volatilidade. Tão rápido como sobe, cai”, explicou Marcos Simplício, professor de engenharia de Computação da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE). “Mesmo as mais conhecidas, como o Bitcoin, não têm a parte econômica bem definida, e isso pode gerar um problema grave no país”, completou.

Do ponto de vista econômico, as medidas têm mais chances de serem desastrosas do que benéficas, de acordo com Lívio Ribeiro, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A exploração do petróleo está em queda na Venezuela diante da falta de recursos para investimentos, em consequência do deficit fiscal. A nação vizinha é altamente dependente da produção da commodity, cujo preço caiu 50% nos últimos 10 anos, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Maduro também anunciou o fim de subsídios que mantêm baixo o preço da gasolina, o que deve aumentar o preço do combustível. A medida pode melhorar as condições do caixa do governo, mas ficou restrita aos que não têm o “carnê da pátria”, uma documentação de identidade dada aos apoiadores do presidente, ou seja, serviu para retaliar os opositores, que não se submetem ao registro. O governo também anunciou um aumento, de 12% para 16%, de impostos sobre transações financeiras e bens de luxo.

“A Venezuela, há muitos anos, está num descontrole econômico, e o quadro vai de mal a pior. As pessoas morrem por não terem acesso a remédios e alimentação. Há um brutal descasamento entre oferta e demanda, e a estatização de empresas gerou falta de controle”, afirmou Ribeiro. Segundo o especialista, cortar zeros da moeda “não serve para nada”, e a proposta de diminuição de subsídios beneficia grupos específicos e cria um mercado paralelo. “A Venezuela está andando na direção da calamidade econômica e social. As pessoas abandonam as casas com a roupa do corpo para fugir do país. É uma situação semelhante a dos refugiados na Europa”, comparou.

  • Reações

    Enquanto líderes da oposição tentavam organizar manifestações contra o governo, a população fez grandes filas nos postos de gasolina e nos supermercados, temendo piora na crise de abastecimento. Além disso, foi grande o movimento de saque nos caixas eletrônicos. “As pessoas tentam se adaptar por sobrevida, por necessidade. Os benefícios são seletivos, para pessoas que se cadastraram em programas específicos do governo. O país dificilmente vai se reerguer se não for criado um sistema financeiro moderno e impessoal”, avaliou o professor Antônio Jorge Ramalho da Rocha, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).

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