Publicidade

Correio Braziliense

Tony Volpon: aumento do dólar pode levar o BC a atuar no mercado cambial

Economista-chefe do Banco UBS no Brasil destaca que o país é afetado pelas incertezas eleitorais e pelo cenário externo mais desafiador


postado em 24/08/2018 06:00 / atualizado em 24/08/2018 01:14

"O BC pode atuar quando a variação em dias consecutivos for relevante. Nos próximos dias, o dólar pode chegar a R$ 4,20 e ele pode interpretar essa alta contínua como uma demanda por proteção" (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
 
Apesar de a alta do dólar não superar os 2% diariamente, o encarecimento da divisa por vários dias consecutivos pode levar o Banco Central (BC) a atuar no mercado cambial. A avaliação é do economista-chefe do Banco UBS no Brasil, Tony Volpon. Ele destacou que o país é afetado pelas incertezas eleitorais e pelo cenário externo mais desafiador, com redução da liquidez internacional, elevação das taxas de juros nos Estados Unidos e uma guerra comercial. 

Volpon também ressalta que a atuação da autoridade monetária no mercado cambial deve ocorrer somente para corrigir movimentos intensos, em um curto período de tempo, no preço da divisa estrangeira. Conforme ele, não é tarefa do BC determinar o patamar do valor da moeda no curto prazo. “O Brasil tem um mercado pequeno, relativamente líquido e fechado. E há um gigante nesse mercado que é o BC. Mas ele não deveria usar esse poder de mercado, pelo seu tamanho, para simplesmente colocar o cambio em um patamar que não conversa com os fundamentos”, destacou. 

Na avaliação do economista-chefe do banco UBS, o nível de volatilidade tende a crescer cada vez mais com a proximidade das eleições e teremos um movimento em V invertido, com uma alta de dólar no curto prazo e redução do preço após o processo eleitoral. “ É provável que o momento máximo dessa pressão ocorra, exatamente, durante a eleição em outubro. E devemos verificar, na medida que o presidente eleito começa a sinalizar compromissos reagindo a pressão, podemos ver uma certa apreciação cambial. E se o BC ajudar, como espero que ajude aumentando os juros, isso ajudará o cambio”, diz. 

O Banco Central deve intervir no mercado cambial nesse momento em que o preço do dólar supera os R$ 4?

Pelo padrão de volatilidade que ainda parece pequeno, a tendência é de o BC não atuar. Não temos uma desvalorização de 3% a 4% em um dia. Agora, o que precisa ser analisado é se o rompimento da barreira de R$ 4 não elevará a volatilidade. Ai poderia haver uma intervenção. Do ponto de vista normativo, acho que não. Em um determinado momento parece não ter muita lógica, mas o que o mercado está fazendo é precificar a probalidade de um resultado eleitoral que complique o eventual desfecho das reformas que tem que ser feitas do lado fiscal. Na medida que isso parece estar se concretizando, racionalmente, o mercado coloca um prêmio de risco no preço de todos os ativos. Isso se faz, exatamente, com os preços dos ativos caindo e ficando mais baratos para compensar eventuais riscos para quem está comprado nesses ativos. Por outro lado, o BC pode atuar quando a variação acumulada em dias consecutivas for relevante. Nos próximos dias, o dólar pode chegar a R$ 4,20 e o BC pode interpretar essa alta contínua como uma demanda por proteção. 

Mas o BC deve intervir ou não?

Entre o que está acontecendo no exterior e no mercado doméstico, o processo tem sua lógica. Não faz muito sentido o BC tentar usar o poder de fogo já comprovado. Se o BC quiser colocar o câmbio em um determinado patamar, no curto prazo, ele consegue. O Brasil tem um mercado pequeno, relativamente líquido e fechado. E há um gigante nesse mercado que é o BC. Mas ele não deveria usar esse poder de mercado pelo seu tamanho para simplesmente colocar o cambio em um patamar que não conversa com os fundamentos. Ele pode atenuar a volatilidade, agir para deixar o mercado funcional, mas fora isso o mercado tem que precificar o risco como o mercado entende esse risco. Não acredito que o BC tem uma vantagem de informações em dizer que o cambio está errado ou certo frente os fundamentos. 

A desvalorização no preços dos ativos brasileiros é uma das justificativas para a sua expectativa de alta de juros ainda em 2018, após as eleições?

Nossa expectativa de alta de juros vem de alguns meses. Ela entrou no radar quando tivemos aquele primeiro movimento de volatilidade em maio e junho deste ano. Fizemos um julgamento de que seria muito provável de que essa volatilidade que têm dois vetores, o doméstico e o externo, continuaria. De tal maneira, teríamos uma crescente necessidade de colocar um prêmio de risco em todos os ativos para refletir esses riscos. E taxa básica de juros (Selic) tem que conversar com a taxa de mercado. Pela medida que a taxa de mercado esteja, de fato, subindo, a Selic tem que acompanhar. De uma certa maneira, aquilo que gostamos chamar de taxas neutras, em países emergentes têm um componente de risco. Não temos uma moeda sem risco e uma curva de juros sem riscos. Quem tem isso são os Estados Unidos. É para quem pode não é para quem quer. 

O cenário externo pesará nessa decisão?

O desenvolvimento desses dois vetores, na nossa opinião, vai levar a essa pressão sobre os mercados e o BC, corretamente, prezando a estabilidade financeira — que também é um dos mandatos —elevará os juros. Também há um efeito secundário sobre a inflação com a desvalorização cambial e com as dúvidas que surgirão sobre a condução da política monetária futura, na medida que o processo eleitoral se desenvolve. Há um terceiro fator que é o fato de termos alta de juros nos demais mercados emergentes e nos Estados Unidos, com um choque de liquidez global, ele nos impacta. Há uma relação entre a nossa taxa de juros de mercado, a Selic e as taxas lá fora. Na medida que estamos nesse momento é prudente para o BC perceber que o jogo mudou. Não é ideal que aumente juros no momento em que a economia ainda está em um processo de crescimento lento e frágil, mas é isso que terá de fazer em função da questão inflacionária e da questão da estabilidade financeira também. 

Qual sua projeção para o câmbio após as eleições?

Aí a coisa complica um pouco. Eu acredito que essa dinâmica de risco terá dois momentos. Obviamente, nada está funcionando em piloto automático. O próprio vencedor das eleições vai responder ao que o mercado está fazendo. Enquanto eu acho que bastante provável que ocorra pressão sobre o câmbio durante o processo eleitoral, quando o pleito acabar, e esses prêmios estiverem bastante altos — como eu acho que estarão — isso vai incentivar o eventual ganhador das eleições a tentar conversar com o mercado, tentar sinalizar que tentará encaminhar as reformas necessárias e que também preza pela questão da inflação. Por isso que acredito que o próximo presidente eleito e sua equipe econômica deve sinalizar ao BC que pode aumentar juros para demonstram compromissos com o regime de metas para a inflação. Por isso que há a nossa previsão que haverá alta de juros depois das eleições e não antes. Há essa conversa. 

Mas subir juros não é ruim nesse momento diante da fraqueza da economia?

Independentemente do fato de o BC ter autonomia operacional, o BC não é uma ilha. Eles conversam com todo mundo, inclusive dentro do governo. Acho que haverá um entendimento depois das eleições, com preços diferentes e mais pressionados do que vemos este momento, que se deve, apesar de tudo, pagar o preço para demonstrar o compromisso com as metas de inflação e com a estabilidade financeira. As duas coisas que estarão em risco nesse processo. Se isso for feito e o novo presidente sinalizar que tem compromisso em fazer o mínimo na questão fiscal, é possível haver uma apreciação do câmbio no fim do ano. Nossa expectativa de câmbio não está totalmente muito pressionada para o fim do ano. Mas vemos um movimento em V invertido. 

O câmbio deve subir durante o processo eleitoral e cair. Mas o dólar pode chegar a quanto? Próximo de R$ 5?

Não publicamos isso. O banco não permite que tenhámos previsão de câmbio fora da previsão de fim de ano. Mas eu acho que se a gente pegar o exemplo da eleição de 2002 — e existem paralelos de como o mercado está reagindo nesta eleição — o pico do dólar que foi de R$ 4,20, se não me engano, foi em outubro, durante as eleições. Você tinha uma perspectiva do então candidato do PT ganhar as eleições desde de abril. As pesquisas já mostravam que o Lula era mais competitivo. O pico da pressão veio durante a eleição, em outubro. E depois de outubro começa um processo de apreciação cambial, mas lento. E somente em 2003, com o (Henrique) Meirelles no BC e (Antonio) Palocci no Ministério da Fazenda, sinalizando que o governo não explodiria a economia, é que o cambio volta a operar abaixo de R$ 4. 

Mas teremos uma pressão maior em outubro?

Então eu acho que vai ter um momento de pressão, sim, entre agora e outubro. É provável que o momento máximo dessa pressão ocorra, exatamente, durante a eleição em outubro. E devemos verificar, na medida que o presidente eleito começa a sinalizar compromissos reagindo a pressão, podemos ver uma certa apreciação cambial. E se o BC ajudar, como espero que ajude aumentando os juros, isso ajudará o cambio. Parte da nossa lógica é tentar entender o que deve fazer o BC nesse cenário. A nossa previsão, que estamos revendo, é que feche em R$ 3,5. Mas dentro da lógica de ter uma dinâmica de V invertido. 

Essa volatilidade está ligada ao fato de o ex-presidente Luiz Inácio da Silva figurar no topo das intenções de voto e candidato do mercado, Geraldo Alckmin, não decolar?

A grande questão da candidatura do Alckmin é que a aposta foi feita no fato de que o tempo de TV vai gerar uma mudança nessa dinâmica. As propagandas na TV só começam em 31 de agosto. É aquela coisa, muitas pessoas devem esperar as primeiras semanas de setembro para ver se essa tese se confirma ou não. Se essa tese se confirmar, o mercado, na medida que tem essa preferência, você pode ter uma reação positiva. Mas o problemas das duas candidaturas que parecem estar despontando nas pesquisas neste momento não é que nenhuma dessas candidaturas estão abertamente propondo uma pauta econômica que seja conta o que o mercado vê como sendo necessário. Os candidatos competitivos, como Jair Bolsonaro, Fernando Haddad, Ciro Gomes e Marina Silva reconhecem a gravidade da crise fiscal brasileira e que alguma coisa deve ser feita. Obviamente que cada candidato  tem uma opinião, um tanto quanto diferente, do que deve ser feito. Do diagnóstico, até a prescrição do remédio para o problema, existe muita coisa em comum se você olhar todos os planos de governo e o que os conselheiros econômicos têm sinalizado. Vejo muita coisa em comum. Isso é uma boa notícia para o mercado. De uma certa maneira, em termos de intenção, exagerando um pouco, não importa quem vai ganhar, porque todo mundo vai tentar fazer o ajuste. 

Mas qual é a preocupação do mercado? 

O que é mais difícil para o mercado é entender a viabilidade da estratégia no Congresso desses candidatos. Com excessão do Alckmin, que vem com uma base grande pela coligação que já tem, os outros nã tem isso. A dúvida que o mercado está tendo é em relação a capacidade que o candidato que não tem essa base conseguir aprovar essas medidas que são difíceis e impopulares no primeiro ano de governo, quando o capital político de um governo recém eleito é alto. Lembrando que a gente estava perto de aprovar a reforma da Previdência no início de 2017 e aconteceu um escândalo. Não houve aprovação e ficou para o início de 2019. Perdemos dois anos nessa questão. A decepção em 2017 foi pequena ou nenhuma se você perceber o que aconteceu ao longo do ano. Agora não. Com ambiente mais hostil, o mercado não está para brincadeira e não quer esperar muito mais. O mercado acha que há necessidade aprovar as reformas rapidamente. Conhecendo o Congresso, nada acontece antes de março. É necessário eleger os presidentes da Câmara e do Senado, os presidentes das comissões. Tem todo um processo. Você está falando até maio para alguma coisa ser questionada. É bastante complicado esse período de espera. Ai mercado começa a ficar nervoso.

Como o ambiente internacional mais hostil deve afetar o Brasil?

Quando há essa puxada de liquidez, isso remota a 2013. Os primeiros países a serem mais afetados eram aquelas com contas externas mais vulneráveis. Não é o caso do Brasil. Porque ainda vivemos em uma economia semi-recessiva. Uma economia que cai como caiu entre 2014 e 2016, depois cresce 1% em 2017 e entre 1,5% e 2% neste ano, ainda está vivendo sob os efeitos da grande recessão que passou desde 2014. Em função disso, estamos importando muito pouco. E essa pouca importação nos dá contas externas muito boa. O problema é que essa falta de dinamismo econômico também gera uma situação fiscal muito frágil. No caso brasileiro, a mesma coisa que gera uma coisa boa gera um fiscal muito ruim. Se tivéssemos nossa divida interna e o gasto fiscal financiado por estrangeiros, como é o caso da Argentina, teríamos sofrido alguma coisa igual a Argentina. Mas o caso brasileiro é diferente porque a gente tem essa enorme fragilidade fiscal, um estoque de divida muito alta e um fluxo de endividamento muito alto porque temos deficit primário. Mas somos basicamente financiados por investidores brasileiros. A participação estrangeira da dívida tem caído de forma contínua. Não precisamos dos gringos. 

Os brasileiros ficarão ao longo do tempo, se as reformas não se materializarem, financiando essa dívida nos preços que vemos agora com um patamar de juros muito baixo?

Os juros futuros para cinco ou 10 anos estão com as curvas muito empinadas. A dúvida seria se o investidor brasileiro continuaria a financiar a dívida com os preços que vemos agora. Ou, como a gente viu em 2002, se vai começar a querer sair do país. No caso brasileiro é atípico. Quando está pessimista, faz um hedge cambial fornecido, em grandes quantidades, pelo BC. Todo mundo se sente seguro. Se você realmente começa acreditar que haverá um descontrole fiscal e que haverá um regime político que não terá capacidade e vontade de resolver o problema a decisão do investidor pode ser a de sair do país. E você pode fluxos saída de investidores locais. Aí a coisa fica mais complicada. Não acredito que estamos perto disso. Ainda parece que estamos em um ciclo que o investidor local está mais disposto a se proteger e ficar dentro do Brasil com seu capital. Então o dólar sobe, como está subindo, expressando no preço essa procura por proteção. O BC ajuda nesse processo oferecendo swaps, mas não vemos saída de capital ainda. A situação tem que piorar bastante para isso acontecer. O investidor brasileiro, historicamente, tem um viés caseiro. É difícil o investidor brasileiro sair do Brasil. Mas já aconteceu. Esse seria o estopim de uma verdadeira crise financeira. 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade