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Correio Braziliense

Dólar alto e mercado instável podem atrapalhar próximo presidente

A piora das condições financeiras, com encarecimento do dólar e desvalorização das ações, terá efeito negativo sobre a geração de riquezas. Falta de clareza sobre quem será o próximo presidente deixa mercado cauteloso


postado em 27/08/2018 06:05 / atualizado em 26/08/2018 22:00


 
A fraqueza da atividade econômica, sobretudo após a greve dos caminhoneiros, está levando analistas de mercado a revisarem as estimativas para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2018. As apostas registradas ainda são de estabilidade no segundo trimestre e de que a economia cresça no ano 1,5%. Entretanto, os economistas alertam que as incertezas eleitorais, com valorização do dólar, redução no preço dos ativos e as pressões externas podem afetar ainda mais a geração de riquezas no país. Alguns até sinalizaram que o viés é baixa para as projeções do terceiro trimestre e do ano.

Os analistas explicam que o primeiro sinal de alerta em relação à redução do nível de atividade está ligado à escalada no preço do dólar. A divisa estrangeira terminou a semana cotada a R$ 4,105, com uma alta de 9,46% acumulada no mês. No ano, o preço da moeda subiu 23,79%. Esse encarecimento, fruto das incertezas eleitorais e da falta de clareza se o próximo presidente conseguirá apoio no Congresso Nacional para aprovar reformas e ajustes, mostra que os investidores estão mais cautelosos em relação ao Brasil. Com isso, menos negócios devem ser feitos, o que enfraquece a economia.

Diante desse cenário, os empresários são obrigados a absorver o aumento de custos diante da valorização cambial e não fazem repasses para os preços. Com isso, adiam ainda mais as decisões de investimentos e contratações. Além disso, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) continua a andar de lado e terminou a semana aos 76.262 pontos. No acumulado do ano, a B3 acumula variação negativa de 0,18%. Até 22 de agosto, os estrangeiros já retiraram R$ 3,4 bilhões do mercado acionário brasileiro. Para piorar, os indicadores econômicos sinalizam que a fraqueza da atividade econômica persistiu em julho. O fluxo de veículos no país, um dos índices que mostram o dinamismo da economia, apresentou estabilidade na passagem de junho para julho, na série livre de efeitos sazonais do Bradesco, conforme dados da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR).

O tráfego de veículos leves avançou 3,2%, enquanto o de veículos pesados recuou 6,8%. Em relação ao mesmo mês de 2017, o movimento total de veículos caiu 3,1%, um reflexo do desempenho negativo de carros de passeio e o positivo de carretas. No acumulado em doze meses, o indicador aumentou 0,7%.

Já as vendas de papelão ondulado alcançaram 311.541 toneladas em julho, um recuo de 5,6% em relação a junho, na série dessazonalizada do Bradesco, a partir de dados da Associação Brasileira de Papelão Ondulado (ABPO). Em relação ao mesmo mês do ano passado, o crescimento foi de 5%.

Na avaliação do diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa, esses números e outros indicadores reforçam a expectativa de recuo da produção industrial em julho.

A piora das condições financeiras do país, com alta do dólar e perda de valor da B3, pode afetar o PIB, avalia o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa. Ele espera estabilidade da geração de riquezas no país no segundo trimestre e alta de 1,5% no ano. Apesar disso, Rosa detalha que essa estimativa tem um viés de baixa. “As empresas têm dificuldade de repassar essas pressões de custos para os preços finais, dada a fraqueza da economia. Outras adiaram a intenção de contratar empregados. Isso tem um impacto negativo na atividade”, comenta.

Fraqueza

Para o economista, esse cenário mostra uma fraqueza do consumo nos próximos meses e é uma das justificativas para o viés de baixa do PIB nos próximos trimestres. Rosa ressalta que as incertezas políticas e externas ainda impactam negativamente as decisões de investimentos de empresários e agentes econômicos. “Todos ficam mais cautelosos. Temos ainda uma alteração dos fluxos de capitais de países emergentes, como o Brasil, para economias desenvolvidas. Os investidores querem proteção neste momento”, ressalta.

Menos pessimista, o economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall, avalia que o nível de deterioração financeira está dentro do padrão imaginado para o período eleitoral. Para ele, a frustração das expectativas de crescimento no ano não está ligada às eleições. Kawall comenta que a volatilidade cambial e a desvalorização da B3 foram levadas em conta na hora de projetar o desempenho do PIB. O economista estima que o crescimento será de 0,2% no segundo trimestre, 0,7% entre julho e setembro, e 1,5% no ano.

Na avaliação de Kawall, as expectativas em relação à economia brasileira tendem a piorar ou melhorar quando ficar claro quem será o próximo presidente da República. O economista ressalta que o compromisso ou não do presidente eleito com as reformas para reequilibrar as contas públicas é que afetará as estimativas de mercado. “Até outubro, a situação pode melhorar ou piorar. Mas ficará tudo claro após a definição de quem sairá vitorioso das urnas”, acredita.
 

Risco país aumenta

 
Não só a alta do dólar e a perda de valor da Bolsa de Valores de São Paulo (B3) têm preocupado os analistas. O risco país, apurado por meio dos Credit Default Swaps (CDS) brasileiros de cinco anos, chegou a 286 pontos. Os papéis são uma espécie de seguro contra calote. Quanto maior a pontuação, pior a situação da economia e a percepção dos investidores em relação àquela nação. Em março, por exemplo, os CDS estavam com 158 pontos.

Nas contas do economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, o Produto Interno Bruto (PIB) deve registrar uma variação positiva de 1,4% no ano e de 0,3%, no segundo trimestre. Conforme ele, sem a greve dos caminhoneiros, seria possível um crescimento de 0,8% em abril e em junho. Apesar disso, ele admite que a deterioração das condições financeiras pode limitar o crescimento do país e o nível de recuperação da atividade econômica. “Já estamos vivendo um terceiro trimestre em que as condições financeiras estão mais apertadas”, comenta.

Segundo Oliveira, os dados de atividade econômica devem mostrar que os diversos setores da economia têm um comportamento diferente, com alguns segmentos em melhor situação do que os outros. Ele explica que o nível de arrecadação de tributos federais em julho, muito superior ao esperado, mostra esse cenário de movimentos distintos. “A economia não mostra um crescimento uniforme em todos os segmentos. Os resultados do terceiro e o do quarto trimestres poderiam ser melhores que o do segundo. Mas ainda temos muitas incertezas”, alerta. 


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