Economia

Nova ordem no mundo corporativo é incentivar o voluntariado

Empresas como Starbucks, Mondelez, C e Embraco fazem parte de uma nova ordem no mundo corporativo em que incentivar funcionários a fazerem trabalho voluntário vale mais do que faturar

Jaqueline Mendes
postado em 27/08/2018 06:15
Loja da Starbucks em Nova York: rede de cafeterias criou programa para que funcionários dediquem parte do expediente a boas causas
São Paulo ; Na última quinta-feira, a maior rede de cafeterias do mundo, a Starbucks, distribuiu um comunicado inusitado a seus funcionários nos Estados Unidos. A empresa recomendava que cada um deles dedicasse parte de seu expediente a trabalhos voluntários, mesmo que não houvesse nenhuma relação direta com a empresa. ;Queremos que todos estejam engajados em uma boa causa e que não gastem seu tempo apenas pensando em quanto estão ganhando por hora;, disse o CEO da companhia, Kevin Johnson. ;Ao se conectar às suas comunidades, se sentirão mais realizados e prontos para ser melhores pessoas e melhores profissionais;, acrescentou o executivo.

A iniciativa da Starbucks consiste em um programa-piloto que permite que funcionários passem metade de sua semana de trabalho em organizações sem fins lucrativos locais. A empresa começou a testar o programa, desenvolvido em parceria com o projeto ;Pontos de Luz;, organização sem fins lucrativos iniciada pelo ex-presidente George W. Bush, em 13 cidades.

Por seis meses, os funcionários passam 20 horas semanais trabalhando na Starbucks e as outras 20 horas, em organizações que se alinham a alguma missão filantrópica. As prioridades da rede de cafeterias incluem apoiar os militares, combater a fome, proteger o meio ambiente e ajudar os refugiados. ;Cada vez mais, as empresas estão enxergando nas iniciativas filantrópicas uma forma de melhorar a relação da empresa com as comunidades e, ao mesmo tempo, criando um ambiente de amadurecimento pessoal para seus funcionários;, afirma a economista Karina Okimura, especialista em desenvolvimento de projetos do terceiro setor pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo.

Assim como o restante do mundo, os investimentos no Brasil em filantropia vêm crescendo na média dos últimos anos. Em 2016, o último dado consolidado disponível, o investimento social privado na filantropia chegou a R$ 2,9 bilhões no país, valor equivalente a 0,23% do Produto Interno Bruto (PIB). A cifra pode impressionar, mas está abaixo do necessário, segundo o relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e da Plataforma de Filantropia.

Na comparação com outros países, fica evidente que há um longo caminho a ser trilhado pelas empresas brasileiras. Nos Estados Unidos, o volume de recursos disponibilizados para a área equivale a 2% do PIB. Ainda pelos resultados da pesquisa, a educação é a área que recebe mais investimento social privado no Brasil (84%), seguida pelo desenvolvimento profissional e cidadão para jovens (60%) e artes e cultura (51%). A área de direitos humanos tem ganhado força nos investimentos privados, crescendo 14% de 2014 a 2016.

Treinamento on-line

A julgar por algumas iniciativas de empresas no Brasil, esses números tendem a ganhar corpo nos próximos anos. Um exemplo disso é a Mondelez, dona de marcas icônicas como Lacta, Bis, Club Social, Oreo, Trident e Tang, entre outras. A companhia desenvolveu um treinamento on-line para capacitar seus colaboradores na liderança de ações de voluntariado. A iniciativa promove globalmente a cultura de responsabilidade social e tem comitês locais para colocar as ações em prática.

De acordo com Lilian de Jesus, coordenadora de envolvimento com a comunidade da Mondelez Brasil, o voluntariado incentiva o desenvolvimento das pessoas ao ampliar suas habilidades e competências. ;A estrutura robusta de comitês locais, aliada à nova capacitação on-line, garante mais autonomia e protagonismo aos colaboradores da empresa interessados no trabalho voluntário. Eles se sentem donos dos projetos e conseguem engajar de forma mais efetiva outros colegas nas atividades;.

A criação dos comitês locais e do treinamento on-line colaborou de forma decisiva para o desenvolvimento de um maior número de ações de voluntariado corporativo na companhia. Na comparação entre o primeiro semestre de 2017 e o de 2018, o total de colaboradores engajados cresceu 55% e a quantidade de atividades realizadas mais que triplicou, com destaque para os comitês de São Paulo e Curitiba. Apenas no primeiro semestre de 2018, foram 1.074 horas doadas pelos funcionários da empresa, um aumento expressivo em relação às 370 horas registradas em 2017.

Parcerias e doações

A Mondelez não é a única. Atualmente, dos 18 mil funcionários da rede varejista de fast fashion C no Brasil, cerca de 8 mil estão envolvidos em atividades de voluntariado. Por meio do Instituto C, criado em 1991, eles realizam brincadeiras, contam histórias e renovam o acervo de ONGs e centros de educação infantil parceiros da empresa. Em paralelo a essas iniciativas, se mobilizam para arrecadar recursos para as instituições beneficentes. As parcerias duram pelo menos dois anos e as ações acontecem no horário de expediente, não em dias de folga ou em fins de semana, como acontecia anteriormente. O projeto já atendeu 110 organizações, em mais de 100 cidades.

Algumas empresas instituíram, inclusive, um dia dedicado ao voluntariado. É o caso da Embraco, uma das maiores fabricantes de soluções para refrigeração do mundo. Ela criou o Programa de Voluntariado Embraco (Prove), em que funcionários se reúnem para participar de atividades junto às comunidades de Joinville. Entre as ações estão a doação de alimentos e roupas, além de trabalho relacionado à educação e à preservação do meio ambiente em escolas. Os voluntários também ministram aulas de reforço escolar e atividades lúdicas em colégios da periferia. Atualmente, cerca de 350 pessoas colaboram com o programa.

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