Publicidade

Correio Braziliense

Dívida pública federal cresce R$ 198,7 bilhões no acumulado do ano

Apesar de queda de 0,14% em julho, de janeiro a dezembro, aumento do estoque total de títulos do Tesouro na mão de credores equivale a alta de 5,3% sobre os dados de dezembro de 2017


postado em 27/08/2018 23:30 / atualizado em 27/08/2018 23:36

 Em meio à forte volatilidade do mercado que vem exigindo juros cada vez mais elevados nos títulos públicos, cresce a dificuldade de o governo federal conseguir rolar a dívida pública e o custo total continua crescendo, de acordo com especialistas. Em julho, conforme dados divulgados nesta segunda-feira (27/08) pelo Tesouro Nacional, como havia um grande volume de papéis vencendo, o governo acabou pagando mais do que as emissões e, com isso, o estoque total da dívida pública federal recuou 0,14%, ou R$ 5,2 bilhões, no mês passado para R$ 3,749 trilhões. Foi a primeira queda desde janeiro de 2018, ou seja, em cinco meses, e bem pequena considerando o tamanho das dívidas internas e externas somadas.

Essa variação deveu-se ao resgate líquido, no valor de R$ 32,52 bilhões, descontado parcialmente pela apropriação positiva de juros, no valor de R$ 27,50 bilhões, de acordo com o Tesouro. De janeiro a julho, entretanto, o estoque total continua crescendo e acumula alta de R$ R$ 189,7 bilhões, ou 5,3%, sobre o dado de dezembro de 2017.

Na avaliação de especialistas, como havia um grande volume de papeis vencendo no mês passado, e, portanto, essa leve queda não surpreendeu. Segundo dados do Tesouro, dos R$ 83,4 bilhões em papeis com prazo para pagamento em julho, a maior parte, R$ 80,36 bilhões, de títulos pré-fixados (LTN e NTN-F), os papeis que estão com demanda decrescente desde a greve dos caminhoneiros, que elevou a desconfiança em relação ao governo e à retomada da economia, o que obrigou ao governo fazer vários leilões extraordinários entre junho e julho. Para os analistas, isso mostra que o governo foi obrigado a usar um pouco de seu colchão de liquidez para cobrir o pagamento desses títulos. Conforme dados do Tesouro, essa reserva gira em torno de R$ 575 bilhões e seria suficiente para cobrir “seis meses de necessidade de financiamento do governo”. Além disso, segundo o órgão, de junho para julho, esse montante ficou “praticamente estável”, mas não deu números precisos para a comparação.

O economista Alexandre Cabral, professor da Fundação Instituto de Administração (FIA) da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), reconheceu que o governo vem tendo cada vez mais problemas para rolar a dívida pública, porque ela está muito elevada devido aos deficits primários consecutivos desde 2014.  “A aversão aos títulos do governo federal é crescente uma vez que a dívida pública bruta vem crescendo”, disse. Pela metodologia do Fundo Monetário Internacional (FMI), que considera os títulos do Tesouro na carteira do Banco Central, está bem perto de 90% do Produto Interno Bruto (PIB). A média dos países emergentes é de 49% do PIB.

“O governo está com dificuldade para rolar os títulos pré-fixados, principalmente, as NTN-F, que são o papel que os gringos mais gostam porque a aversão aos títulos do governo brasileiro aumentou, mas os sinais são mais preocupantes para um grande volume de papeis que devem vencer em 2021”, destacou Cabral, lembrando que técnicos do governo têm admitido essa dificuldade para investidores estrangeiros, o que vem pressionando as taxas de juros dos papeis da União para os papeis mais longos, principalmente.  Conforme dados do Tesouro, a fatia dos títulos pré-fixados recuou de 34,29%, em junho, para 32,82%, em julho.

O especialista em contas públicas Fabio Klein, da Tendências Consultoria, contou que ainda não há um movimento forte de saída do investidor estrangeiro do país, tanto que houve um pequeno aumento da participação dos não-residentes no estoque da dívida interna, de 11,9% para 12,5% entre junho e julho, somando R$ 453,3 bilhões da dívida interna (de R$ 3,607 trilhões), conforme dados do Tesouro. “A participação do investidor estrangeiro vinha caindo nos meses anteriores, mas aumentou um pouco em julho, o que foi um dado positivo, mas, ao mesmo tempo, o custo médio da dívida continua subindo, o que mostra que está havendo uma exigência maior dos investidores pelo premio de risco, pois, para eles, uma taxa de 70% do PIB é considerada um patamar muito elevado para país emergente”, alertou Klein. 

De acordo com dados do Tesouro, a taxa de juro média da dívida pública total acumulada em 12 meses passou de 10,31%, em junho, para 10,49%, em julho. A interna subiu de 9,83% para 9,97% no mesmo período, e, a externa, de 22,19% para 25,02%, na mesma base de comparação. Em dezembro, o custo médio da dívida interna era bem menor, de 8,9%. “A forte desvalorização do real contribuiu para esse aumento do custo médio da dívida total, apesar de o volume da dívida externa ser menos expressivo do que a interna”, destacou. Ele lembrou que todo mês a dívida pública cresce cerca de R$ 30 bilhões apenas na conta de juros e que o aumento acumulado do estoque total no ano, de R$ 189,7 bilhões, já supera o rombo das contas públicas do governo previsto para o ano, de R$ 159 bilhões, assim como o deficit primáario previsto pela Tendências, de R$ 147,7 bilhões.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade