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Correio Braziliense

Movimento pede engajamento de empresários e da sociedade

Evento em São Paulo discutiu soluções para mudar o Brasil em diversas áreas, da educação às pesquisas científicas, passando pelas ações de cidadania e pela redução das desigualdades


postado em 28/08/2018 06:00 / atualizado em 27/08/2018 22:54

Rubens Menin, Pedro Passos, Mônica Sodré, Natália Mazotte, Mayana Zatz e Sílvio Meira discutiram a urgência em resolver antigos problemas do país(foto: Mario Castello/Divulgação)
Rubens Menin, Pedro Passos, Mônica Sodré, Natália Mazotte, Mayana Zatz e Sílvio Meira discutiram a urgência em resolver antigos problemas do país (foto: Mario Castello/Divulgação)
São Paulo — Um evento com empresários, executivos, representantes do meio acadêmico e científico, além de integrantes de ONGs e do Judiciário, discutiu, na manhã de ontem, em São Paulo, caminhos para estancar e reverter o processo de deterioração do país nas áreas econômica e social, por meio da participação democrática e da apresentação de propostas para colocar as mudanças em prática.

O encontro “Você Muda o Brasil” foi dividido em três painéis e teve a participação de representantes do empresariado, como Pedro Passos (co-fundador da Natura), Rubens Menin (presidente do conselho de administração da MRV), Luiza Trajano (presidente do conselho de administração do Magazine Luiza) e Paulo Kakinoff (presidente da Gol), de nomes ligados à educação, à ciência e à ciência política, além de Luciano Huck (apresentador e empresário) e da ministra Carmén Lúcia (presidente do Supremo Tribunal Federal).

No primeiro painel, “A urgência do futuro”, coordenado por Menin, os participantes alertaram para a necessidade de tirar os diagnósticos do papel e se avançar com medidas práticas para resgatar o país. Para o fundador da MRV, um bom ponto de partida para essas mudanças é reconhecer os problemas, os desafios e o ponto de inflexão pelo qual passam o país e a sociedade.

O empresário contou que, em uma conversa recente com um investidor estrangeiro, ouviu que apenas três países têm como características uma população superior a 200 milhões de habitantes e uma área acima de 8 milhões de metros quadrados. “Estados Unidos e China já foram. Agora é a vez do Brasil. Mas antes temos de tentar entender por que o Brasil não foi até agora.” Uma das respostas, avaliou Menin, foi a omissão do empresariado diante da necessidade de pressionar por mudanças.

Diagnóstico


Passos, da Natura, detalhou as reformas que deveriam ser colocadas em prática no novo governo, que assume em 1º de janeiro de 2019. Aos cerca de 600 participantes, o empresário, que hoje integra o conselho de administração da companhia, foi direto ao diagnóstico: “A situação é difícil, com um cenário econômico de muita fragilidade. Temos um Executivo sem legitimidade, um Legislativo distante da sociedade e um Judiciário que faz decisões de difícil entendimento para a população. Essa situação causa um desalento muito alarmante.”

A saída para o novo governo, avaliou Passos, é se concentrar na prestação de serviços essenciais, como educação, saúde e segurança, e deixar que a iniciativa privada avance para atender a demanda de outras áreas. “Esses são os principais anseios da sociedade. Mas primeiro será preciso enfrentar a balburdia das contas públicas. O cidadão não vai aceitar ações populistas. Sem reformas, ficaremos fora do jogo. Não teremos alternativas para a população, que vem envelhecendo por questões demográficas e que sabe que hoje não há perspectiva para que seja oferecido um aumento de renda e um bem-estar razoável’, apontou.

Outro tema do painel foi a importância da participação da sociedade na política. A cada quatro anos, disse Mônica Sodré, diretora executiva da Rede de Ação Política para Sustentabilidade (RAPS), são eleitos 70.488 políticos no país. “O senso comum é que são todos ruins. No entanto, nossa sociedade não se envolve muito nesse tipo de debate para levar agenda de futuro adiante. Precisamos de uma cidadania ativa para mudar esse país”, alertou.

A tecnologia pode ser uma das formas de participar da política, segundo Natalia Mazotte, diretora executiva da Open Knowledge Brasil, que conta com um aplicativo que permite monitorar a prestação de contas da Câmara dos Deputados. Agora, a organização se prepara para lançar uma ferramenta para acompanhar informações dos 100 maiores municípios do país. Será a oportunidade, por exemplo, para receber alertas sobre audiências públicas e aumentar a participação da população nas decisões políticas.

Burocracia


Outro ponto de fragilidade apontado nas discussões foi a falta de apoio às pesquisas. Mayana Zatz, geneticista, explicou que nos Estados Unidos é possível receber uma encomenda de reagentes um dia depois da solicitação. No Brasil, por conta dos trâmites burocráticos, esse processo pode levar seis meses. Com esse tipo de dificuldade burocrática e a falta de investimento público e privado, nos últimos anos muitos profissionais têm deixado o país, o que terá impacto na produção científica brasileira.

No painel “Educação e ética para a transformação do país”, os debatedores citaram uma série de exemplos de como a iniciativa privada e as ONGs têm exercido um papel relevante para melhorar a qualidade do ensino e a gestão das escolas públicas brasileiras. O professor, escritor e filósofo Mario Sérgio Cortella apontou o distanciamento entre a economia e a qualidade de vida dos brasileiros, lembrando que o Brasil está entre as dez maiores economias do mundo, mas no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNAD), órgão da ONUN, o país fica apenas com a 66ª colocação. “Como podemos nos considerar uma das economias mais ricas do mundo?”, provocou.

O terceiro painel teve como tema a “sociedade civil protagonista do desenvolvimento”. Luiza Trajano, que também faz parte do movimento Mulheres do Brasil, foi uma das mais indignadas. A empresária criticou a postura polarizadora nas discussões políticas, entre direita e esquerda. Na sua avaliação, é preciso que a sociedade civil pressione para que prevaleça um outro tipo de política do ganha-ganha, “com todos ganhando, não só um lado”. “Como pode aceitarmos que o Ministério da Saúde tenha sete ministros em quatro anos? Acredito que a participação das pessoas poderá levar às mudanças necessárias”, afirmou a empreendedora.

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