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Correio Braziliense

Alta do dólar na Argentina leva BC a segurar preço da moeda no Brasil

Moeda norte-americana fecha a R$ 4,15, mas chega a R$ 4,21 durante o dia, em consequência do nervosismo provocado por turbulências no país vizinho


postado em 31/08/2018 06:00

(foto: CB/D.A Press)
(foto: CB/D.A Press)

A turbulência envolvendo a economia da Argentina atormentou os mercados, principalmente dos países emergentes. No Brasil, o dólar passou de R$ 4,21 durante o dia, levando o Banco Central (BC), após 59 dias sem atuar no mercado cambial, a negociar 30 mil contratos de swap, que correspondem à venda futura de US$ 1,5 bilhão. A intervenção amenizou o nervosismo, mas não foi suficiente para evitar a alta da moeda norte-americana, que fechou em R$ 4,15, após alta de 0,78%. O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), por sua vez, despencou 2,53%, para 76.404 pontos.

A última intervenção da autoridade monetária ocorreu em 22 de junho. Desde então, o BC fez apenas rolagem das posições que já estavam no mercado. O estoque de swaps cambiais era de US$ 67,4 bilhões. A atuação teve motivo: a Argentina subiu novamente os juros básicos, que saíram de 45% para 60% ao ano. A título de comparação, a taxa Selic, do Brasil, está em 6,5% ao ano. O país vizinho vive uma crise fiscal grave, inclusive com pedidos de ajuda para o Fundo Monetário Internacional (FMI).

O presidente do país, Maurício Macri, pediu antecipação de empréstimo de US$ 50 bilhões do fundo. A Argentina corre grande risco de não honrar o pagamento das dívidas. A incerteza quanto às contas públicas do país contagiou vários mercados. No Brasil, com a nova disparada do dólar, o BC anunciou os swaps no início da tarde. Conforme a autoridade monetária, as intervenções visam prover liquidez e garantir o bom funcionamento do mercado cambial e, portanto, do regime de câmbio flutuante.

A atuação ocorreu para amortecer a alta. Ivo Chermont, economista-chefe do Quantitas, disse que o BC teve uma ação momentânea, mas que não deve intervir no mercado nos próximos dias. “Haverá uma observação da volatilidade, mas o Banco Central não vai e nem consegue mudar a tendência natural da desvalorização do real, o mesmo que acontece com outras moedas estrangeiras emergentes”, disse.

Na avaliação do diretor de Operações da Mirae Asset, Pablo Spyer, a decisão da Argentina de aumentar os juros elevou ainda mais o nível de incerteza dos investidores em relação aos mercados emergentes. No Brasil, além disso, há nervosismo quanto aos dados do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, que serão divulgados nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e as pesquisas eleitorais programadas para hoje. “O risco-país também disparou e chegou a mais de 300 pontos, o maior percentual em dois anos. A intervenção do BC ajudou o mercado, mas ainda há volatilidade”, destacou.

Explosão

O BC ressaltou que a intensidade e a frequência das intervenções dependerão do nível de volatilidade do mercado. A instituição também reiterou que a atuação no mercado cambial é separada da política monetária. Segundo especialistas, o dólar está em tendência de alta em todos os países emergentes, e pode “explodir” com o cenário eleitoral turbulento e com novas tensões comerciais entre os Estados Unidos, Turquia e China.

O diretor de Câmbio da FB Capital, Fernando Bergallo, avaliou que a moeda norte-americana pode chegar a R$ 5. “Na atual conjuntura, as três principais agências de risco já classificam o Brasil negativamente, o que impede diversos fundos de investir no país. Uma piora no rating tiraria ainda mais o fluxo de dinheiro vindo do exterior”, disse. “O pior cenário é o da eleição de um candidato absolutamente descompromissado com as políticas de austeridade fiscal, com a agenda de reformas e que vá repetir os modos da matriz econômica adotada pelo último governo”, completou.

Guilherme Macedo, sócio da Vokin Investimentos, afirmou que, até o primeiro turno, o dólar estará refém das pesquisas de intenção de voto. “Se, no primeiro turno, der algo favorável a políticas de centro direita, o dólar tende a uma volatilidade menos acentuada. Se isso não acontecer, pode ser que o câmbio suba bastante.”

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