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Correio Braziliense

Especialistas recomendam cautela ao investir devido às incertezas políticas

Diante do momento de insegurança na política e na economia, analistas recomendam cautela a quem investe no mercado financeiro. Mais do que nunca, é preciso ponderar os riscos de cada opção


postado em 09/09/2018 07:00 / atualizado em 08/09/2018 23:16


A forte incerteza eleitoral, que deve se prolongar pelos próximos dois meses, além da expressiva volatilidade cambial observada nas últimas semanas, está obrigando quem investe no mercado financeiro a rever a carteira de aplicações.  De acordo com especialistas ouvidos pelo Correio, o cenário turbulento exige do aplicador prudência e equilíbrio. A recomendação é rever, com segurança, os riscos assumidos e prezar por uma atitude de moderação.

Segundo César Bergo, professor do curso de especialização em mercado financeiro e investimentos da Universidade de Brasília (UnB), orientação é essencial para a boa aplicação. “O indivíduo que se dispõe a investir precisa ser orientado por um profissional que conheça o mercado a fundo. A pessoa precisa saber, em primeiro lugar, qual é sua tolerância em relação aos riscos de mercado. Isso definirá seu perfil de investidor: conservador, moderado ou agressivo. A partir daí, é possível escolher aplicações que o ajudem a alcançar seus objetivos, respeitando suas características pessoais”, explica Bergo. “Nesse momento, o mercado está muito volátil, o que exige cautela e uma estratégia elaborada na carteira de investimentos a médio e longo prazos.”

Diante das incertezas eleitorais, Bergo aconselha ao investidor optar pela renda fixa. “O investidor também deve escolher produtos que acompanham a variação da Selic (a taxa básica de juros da economia, que, desde março, está em 6,5% ao ano, o menor patamar da história). Com isso, se ele não ganha muito, também não perde dinheiro. Nesse mesmo quadro, muitas pessoas estão inclinadas a investirem em poupança, mas, hoje, o Tesouro Direto oferece melhores retornos.”

Bolsa


Os analistas observam que, em um cenário de alta volatilidade, investimentos em renda variável, como ações, não são adequados para quem tem baixa tolerância ao sobe e desce do mercado. Em agosto, por exemplo, o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), caiu 3,21%, após subir fortemente em julho. “O que sabemos com certeza é que teremos volatilidade até a definição do segundo turno das eleições. O candidato que for vencedor vai ditar o rumo da bolsa. A questão que todos querem saber é: as reformas serão retomadas? Quem vai tocar essas reformas e quão rápida a economia do país vai responder?”, explica Pablo Spyer, diretor de operações da Mirae Asset. 

“Tudo está atrelado ao compromisso do presidente eleito com a redução do deficit público, sem o que a economia não voltará a crescer”, acrescenta César Bergo. “Caso haja melhora nesse cenário, as empresas crescerão e os lucros vão aumentar, fazendo com que a renda variável volte a ser uma opção segura para investimentos. Mas, diante do atual quadro de incerteza, o melhor é manter distância, nos próximos dois meses, da renda variável”, explica.

Apesar do cenário arriscado,  com planejamento e uma boa dose de cautela, o investimento em ações pode ser mantido, dentro de uma carteira com perfil diversificado. “Desde o ano passado, venho montando uma boa estratégia, alocando tanto em renda variável, quanto em renda fixa”, diz o economista André Porto, 26 anos. “Fazendo esse tipo de alocação, não preciso ficar preocupado em momentos de volatilidade. Além disso, o mercado está bem desenvolvido e oferece mecanismos para dar segurança para quem quer reduzir risco.”

Seja como for, é preciso conhecer o terreno em que se pisa. No caso da bolsa, quanto mais o investidor entenda o mercado e tenha capacidade de avaliar ações e empresas, por exemplo, mais seguro ele estará.  Segundo Porto, a experiência foi essencial para que obtivesse maior clareza na tomada das decisões. “Eu comecei a investir há 10 anos. Com o tempo, a gente vai mudando e aprendendo muito. Fiz muitos cursos, sempre buscando a educação. Hoje, melhorei o rendimento das minhas aplicações”, disse.

Prefixados


Arnaldo Curvello, sócio-diretor da Ativa Investimentos, pondera que a volatilidade também traz oportunidades interessantes — inclusive dentro do universo da renda fixa. Por conta da incerteza política, as taxas de juros aumentaram nas últimas semanas. “O investidor pode, por exemplo, usar uma reserva que não fará falta nos próximos meses para aplicar em taxas interessantes que não eram encontradas em meses anteriores. Os títulos de Tesouro prefixados com prazo mais curto, de três anos, estão proporcionando um bom rendimento”, observa.

Pablo Spyer, da Mirae, tem visão diferente. “Recomendo títulos pós-fixados ou ativos indexados à inflação para o curto prazo. Estamos em um momento de ir devagar, com muito cuidado. Não recomendo ativos prefixados.”

Indexados


É preciso ter em conta que a renda fixa engloba diferentes tipos de aplicação. Nos títulos prefixados, o investidor sabe com antecedência quanto receberá no fim do período de aplicação. Em determinadas situações, eles podem ser extremamente vantajosos. Se os juros estiverem acima da média do mercado, o investidor terá ganho. O mesmo acontecerá se a tendência do mercado for de queda das taxas, pois o aplicador já terá garantido um rendimento mais alto. Ao contrário, se a tendência da taxa de mercado for de alta, o juro contratado pode ficar defasado, implicando perda para o investidor.

No caso dos títulos pós-fixados, o rendimento pode estar atrelado a alguma taxa (como a Selic), ou à inflação. Os títulos IPCA+ do Tesouro direto, por exemplo, remuneram o investidor com a variação do índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais uma taxa de juros preestabelecida. Por isso, muitos analistas, como Spyer, recomendam os títulos pós-fixados em época de instabilidade, devido ao grau de proteção que oferecem contra perdas.

O empresário Carlos Roberval, 52, alterou a carteira de investimentos e passou a apostar em aplicações mais conservadoras. “Lidar com a volatilidade é desconfortável, mas também uma oportunidade que pode ser convertida em ganhos”, acredita.  “Sempre tive a premissa de diversificar minhas aplicações, no entanto, no atual momento, para me proteger, reduzi a quantidade de ativos voláteis . Eu já sabia disso, já que o ano prometia ser preocupante. Agora, a médio e a longo prazos, diminuí minha exposição ao risco, mas mantive um pé na renda variável”, diz. Roberval é assessorado por uma corretora de valores, o que, segundo ele, confere maior segurança nas decisões tomadas.

Estagiário sob supervisão de Odail Figueiredo

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