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Correio Braziliense

Reação equivocada à crise econômica faz dívida disparar

Expansão de gastos e incentivos ao consumo adotados para tentar superar a recessão global desencadeada pela quebra do banco Lehman Brothers, em 2008, resultou em baixo crescimento econômico e endividamento público elevado


postado em 12/09/2018 06:00 / atualizado em 12/09/2018 00:16


Dez anos após a hecatombe financeira global deflagrada pela quebra do banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, o Brasil, que parecia ter saído da crise primeiro, cresce muito pouco e vê a dívida pública aumentar, na contramão do resto do mundo. Naquela época, quando Wall Street registrou o maior tombo desde 20 de julho de 1933, o governo brasileiro achou que tinha conseguido contornar a crise com o estímulo ao consumo. A fórmula funcionou até 2010, quando o país cresceu em ritmo chinês, mas, para especialistas, o erro foi não saber quando parar.

A dívida pública bruta do governo geral estava em 62% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2008, deve alcançar 87,3% no fim do ano deste ano, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI) — percentual acima dos 77% previstos pelo Banco Central, que não inclui na conta os títulos do Tesouro Nacional que possui em carteira. Pela metodologia do FMI, a dívida já chegou a 85,5% do PIB no fim de julho, quase o dobro da média dos países emergentes, que é de 48%.

Para especialistas, o patamar de endividamento é preocupante, e só vai de estabilizar quando o governo voltar a registrar superavit primário, o não ocorre desde 2014 e, pelas contas da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, só deve acontecer em 2022. Segundo o economista Marcos Lisboa, presidente do Insper, se a dívida atingir o patamar de 90% a 100% do PIB, “o país deverá entrar em uma crise muito mais severa”, porque a inflação, hoje controlada, poderá voltar com força, já que uma das saídas para cobrir a dívida é emitir moeda.

Tempestade perfeita


De acordo com o FMI, a dívida pública da Grécia era de 109% do PIB quando o país quebrou e chegou a 190% do PIB. Mas, países vizinhos, como o Chile, que cresce bem mais que o Brasil, e passou por uma “tempestade perfeita em 2008”, segundo Lisboa, tem uma dívida bruta de 23% do PIB. Na avaliação de Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (CEM-FGV) e ex-presidente do Banco Central, uma das lições que a crise de 2008 e 2009 deixou foi que a trajetória do endividamento público e do privado é um fator-chave para viabilizar um padrão de crescimento sustentável.

Não à toa, economias que estavam com uma relação de dívida-PIB elevada foram as que mais sofreram com o desdobramento da crise, como Grécia, Irlanda e Portugal. “Muitas economias fizeram um ajuste fiscal severo, alguns acompanhados de recessão, mas, hoje, crescem mais do que o Brasil, que não seguiu a mesma cartilha”, comentou Langoni. O Brasil, no entanto, partiu para uma onda expansionista no fim do governo Lula, que continuou no período de Dilma Rousseff e deixou sequelas graves.

“O equívoco do governo foi repetir o mesmo remédio usado em 2009 para manter o padrão de crescimento, que chegou a 7,5% em 2010. Ancorado no consumo das famílias, que ficaram endividadas, esse modelo não era sustentável. Naquele momento, era preciso iniciar a transição para uma política baseada no investimento privado. Era preciso também ficar o crescimento das exportações, visando reduzir a dependência das commodities, o que exigia uma abertura comercial que não ocorreu por opção ideológica do governo”, lamentou Langoni.

Infraestrutura


O ex-presidente do BC lembrou que, naquela época, uma das orientações do FMI para estimular a economia era buscar a saída com a ampliação da infraestrutura, mas sem investimento público ou subsídios. “Em vez de construir marcos regulatórios para atrair o capital privado (doméstico e estrangeiro), e assim, ampliar a diversificação e aumentar a produtividade, o governo apostou no consumo e tentou interferir na taxa de retorno das concessões e, o mais dramático, controlou as tarifas do setor elétrico, afugentando os investidores. No momento em que os investimentos no pré-sal poderiam deslanchar, ele criou entraves, como a obrigatoriedade do conteúdo nacional, e paralisou o setor. Se tudo isso não tivesse sido feito entre 2010 e 2013, provavelmente, não teríamos enfrentado a maior recessão da história”, afirmou.

O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, reforçou que países emergentes, como Índia e China, crescem muito mais do que o Brasil, porque são menos endividados e alocaram boa parte da poupança do país em investimentos em infraestrutura, coisa que não foi feita aqui. “O Brasil gastou muito mal. E é obvio que, quando se gasta mal, cria-se uma incerteza grande para os investidores”, explicou, lembrando que mais de 90% das despesas do governo são rígidas e que, por isso, sobra muito pouco para investir.

“A China cresce bastante, porque gasta de forma correta. Na época da crise, o país asiático investiu bastante em infraestrutura, enquanto aqui o governo preferiu continuar assistencialista e gerou um ciclo de fatores negativos que desaceleraram o crescimento. Nos preparamos para uma marola e não para um tsunami”, ironizou Agostini, usando as palavras do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que, na época, taxou a crise global de “marolinha”.

Ficou para trás


Fernando Montero, economista-chefe da Tullett Prebon, usa uma imagem do atletismo para resumir a trajetória da economia brasileira nos 10 anos que se seguiram à quebra do Lehman Brothers, que precipitou a economia global numa crise de grandes proporções. Para ele, a impressão que fica é de que o “país queimou a largada”. “O Brasil acelerou primeiro a retomada, mas desmaiou na segunda parte da corrida”, resumiu. Hoje, além de crescer menos que a média global, entre as economias da América Latina, “o Brasil ganhou apenas da Venezuela e de El Salvador”.

Esse mau desempenho, segundo economistas, decorre do conjunto de políticas adotadas no fim do período do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e na administração da sucessora, Dilma Rousseff —  denominado pela equipe econômica da época de Nova Matriz Econômica. Num primeiro momento, o Brasil sinalizava que ia passar ileso pela crise que abalou os países desenvolvidos. Com a economia crescendo 7,5%, em 2010, logo após encolher 0,1%, em 2009, parecia que o país tinha surfado mesmo uma “marola”, como disse o ex-presidente.

Mas, sem ter bases sólidas, o crescimento não se sustentou. Dilma não só manteve os incentivos ao consumo como foi além, aumentando o grau de intervenção estatal na economia e elevando os gastos públicos, entre outras decisões polêmicas. O resultado foi que o país mergulhou na maior recessão da história em 2015 e 2016. O grau de investimento concedido pelas agências de classificação de risco, conquistado em 2007, foi perdido em 2015. Conforme levantamento da Tullett Prebon Brasil, entre 2011 e 2020, o país vai registrar a menor taxa média de crescimento desde 1900, de 0,92% (veja arte).

Uma das principais medidas adotadas pelos governos passados para enfrentar a crise foi o repasse maciço de recursos do Tesouro para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Foram quase R$ 500 bilhões destinados a empréstimos subsidiados para setores e empresas escolhidos. Além de contribuir para aumentar a inflação, essas operações elevaram a dívida pública, pois os recursos eram captados pelo Tesouro no mercado. Com isso, os repasses geraram uma conta elevada de subsídios, já que o Tesouro pagava aos investidores taxas superiores às que o BNDES cobrava nos empréstimos às empresas.

O diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (CEM-FGV), Carlos Langoni, lembrou que, no meio da crise, o país chegou até a ser protagonista no cenário global. O Brasil passou a ser credor do Fundo Monetário Internacional (FMI) no socorro a países europeus. Em 2008, durante uma reunião do FMI, em Washington, o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, liderou o grupo das economias emergentes e desenvolvidas e deu início aos encontros de ministros da Fazenda do G20 para discutir saídas para a crise global.

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