Publicidade

Correio Braziliense

Ata do Copom afirma que os riscos na economia do Brasil 'se elevaram'

Documento mantém preocupação com cenários internos e externos e sinaliza que ciclo de alta dos juros pode ser retomado 'gradualmente'


postado em 25/09/2018 09:28 / atualizado em 25/09/2018 10:34

A ata da 217ª reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, divulgada nesta terça-feira (25/9), reforçou o recado dado no comunicado do encontro realizado nos dias 18 e 19 de setembro de que a autoridade monetária poderá reiniciar um ciclo de aumento gradual dos juros, dependendo do resultado das eleições e da piora no cenário externo. A agenda do vencedor das urnas dará os rumos para as reformas, palavra que o colegiado citou oito vezes na ata, o mesmo número do documento de agosto.

A próxima reunião do colegiado está marcada para 30 e 31 de outubro, dois dias após o segundo turno, e especialistas mantiveram as apostas de manutenção da taxa básica de juros (Selic), atualmente em 6,5% ao ano, até o fim de dezembro, mas admitem que há chances de elevação ainda neste ano.

De acordo com a ata do Copom, os riscos se elevaram. O texto destacou que uma frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas e os ajustes necessários na economia brasileira podem afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação no horizonte relevante para a política monetária. “Esse risco se intensifica no caso de deterioração do cenário externo para economias emergentes. O Comitê julga que esses últimos riscos se elevaram”, informou o comunicado, que destaca uma conjuntura mais desafiadora para os países em desenvolvimento.

A ata reforçou o comunicado da semana passada ao afirmar que a alta dos juros pode ocorrer “gradualmente caso o cenário prospectivo para a inflação no horizonte relevante para a política monetária e/ou seu balanço de riscos apresentem piora”. “O Copom reitera sua visão de que a continuidade do processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para a queda da sua taxa de juros estrutural, cujas estimativas serão continuamente reavaliadas pelo Comitê”, informam os diretores do BC, que decidiram, por unanimidade, manter a taxa básica da economia (Selic) em 6,5% ao ano.

Na avaliação do economista sênior do banco Haitong, Flavio Serrano, os diretores do BC também destacaram na ata um aumento dos riscos e que a ociosidade elevada da indústria ajudou a segurar a inflação diante da forte valorização do câmbio, mas tem prejudicado a retomada da economia. Para ele, o colegiado reforçou a importância da continuidade do processo de ajustes e de reformas e destacou também o risco associado à deterioração do cenário para economias emergentes. 

“O Copom concluiu que o balanço de risco mostrou-se assimétrico e que os últimos riscos destacados se elevaram. Isso não estava no comunicado e mostra que o BC deixou a porta aberta para uma alta dos juros gradual”, afirmou Serrano, que, por enquanto, manteve a previsão de manutenção da Selic em 6,5% até o fim do ano. Contudo, admite a possibilidade de alta ainda este ano se o resultado das eleições sinalizar piora no cenário interno, que ainda é muito incerto. “O Copom deixou a porta aberta para aumento de juros, dependendo da evolução das variáveis de risco interno e externo. Por enquanto, a Selic está abaixo do que chamamos de taxa nominal neutra, em torno de 8% a 8,5%, e, portanto, haverá um momento em que o BC vai mudar a direção da política monetária”, frisou.

Os diretores do BC divulgaram revisões para cima, no cenário prospectivo, para a inflação, mas ainda compatíveis com a meta deste ano, de 4,5% ao ano. Para 2019, o cenário que considera câmbio e Selic constantes nos patamares atuais apontou para alta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 4,5%, pouco acima da meta de 4,25%. Para Serrano, será preciso esperar o relatório trimestral de inflação do BC, que sairá na quinta-feira, para ver como estão as previsões do órgão.

No entender do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, o Copom indicou necessidade de piora adicional do balanço de riscos ou das expectativas para iniciar processo de normalização, como fez no comunicado. Segundo a nota do banco, o Copom avaliou ainda que o balanço de riscos se tornou “assimétrico”, ao avaliar que o risco baixista decorrente da inércia do baixo nível de inflação se dissipou, enquanto permanece a importância da continuidade do processo de ajustes e reformas sobre as expectativas e projeções macroeconômicas. O Copom, na avaliação do Bradesco, pondera ainda que sua atuação requer “a flexibilidade para ajustar gradualmente a condução da política monetária quando e se houver necessidade”, mas reitera que a conjuntura econômica “ainda prescreve política monetária estimulativa e que esse estímulo começará a ser removido gradualmente, apenas se o cenário prospectivo para a inflação no horizonte relevante para a política ou o balanço de riscos apresentarem piora”. “Como as expectativas de inflação permanecem bem ancoradas, e os efeitos secundários sobre os preços advindos de choques primários como a depreciação do real não têm se materializado, projetamos que a taxa Selic permanecerá estável em 6,5% até o final de 2018”, afirmou o comunicado da equipe liderada pelo economista Fernando Honorato.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade