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Correio Braziliense

Com Bolsonaro ou Haddad, PIB só se recuperará no terceiro ano de governo

Independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto, as condições da economia impedem uma retomada rápida do crescimento. O alto desemprego, as perdas da recessão e o baixo investimento são fatores determinantes para a demora


postado em 13/10/2018 07:00

Se mantiver o mesmo ritmo, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro só vai retomar o patamar que tinha antes da recessão econômica no primeiro trimestre de 2021. Os cálculos foram feitos pelas economistas Silvia Matos e Luana Miranda, da Fundação Getulio Vargas (FGV). O cenário não faz parte de uma projeção oficial da entidade, mas pode se concretizar, caso a atividade continue com o mesmo desempenho atual. O crescimento mais vigoroso será difícil, porque, segundo especialistas, o Brasil perdeu muito do potencial para expansão, devido os baixos investimentos. E os candidatos à Presidência da República ainda precisam esclarecer como será a agenda de governo.

A crise econômica se alastrou em todos os setores e levou o PIB a despencar 8%, entre o segundo trimestre de 2014 e o quarto trimestre de 2016. Depois desse período, o Brasil só conseguirá avançar 2,5% até outubro deste ano. A previsão de crescimento da FGV para o fim de 2018 é de 1,5%. “Ou seja, se essa taxa se concretizar, nós recuperaremos 3,9%, o que não é nem a metade do que perdemos no período de recessão”, explica Luana. “Nunca tivemos uma recessão tão forte assim. E temos uma recuperação muito lenta, o que é algo inédito”, completa.
 
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
 

O país conseguiu retomar o crescimento em 2017, mas ainda muito aquém do esperado. Mesmo com a inflação controlada e a taxa de juros Selic no menor patamar da história, os índices setoriais frustraram os especialistas. Fatores como a greve dos caminhoneiros e a campanha eleitoral ajudaram a frear a recuperação. “Como a recuperação está lenta, nós demoraríamos 11 trimestres para recuperar o nível que tínhamos no período pré-recessão, a contar a partir do 3º trimestre deste ano. Estamos supondo que a expansão trimestral média seja de 0,5%, como vem apresentando desde o primeiro trimestre de 2017”, destaca Luana.


Caminho penoso

A economista ressalta que o principal problema é o mercado de trabalho, que se recupera de forma muito lenta. Ainda há quase 13 milhões de desempregados, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Outro fator é o tamanho da incerteza de 2018 por conta das eleições e do cenário internacional. São pontos que prejudicam muito nossa visão de recuperação para frente. Nós precisamos equilibrar as contas públicas, senão, será muito difícil de crescer e voltar a ter investimentos”, comenta. A analista espera que o PIB de 2019 seja de 1,9%, mas deve ser revisto por conta de novas turbulências.

Marco Antonio Cavalcanti, diretor-adjunto de estudos e políticas macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), explica que, por falta de aplicações na economia, a atividade está 3,7% abaixo do seu potencial. Do lado do setor público, o deficit fiscal diminui a capacidade do governo em fazer investimentos na economia. Na iniciativa privada, as incertezas perduram o ambiente de negócios. Ou seja, o risco é alto para investidores. “Além disso, a Petrobras teve a capacidade de investimento prejudicada nos últimos anos, por conta das crises. A construção civil foi fortemente afetada com o menor financiamento de grandes empreiteiras, envolvidas nos escândalos da Lava-Jato”, diz.

Segundo especialistas, o Brasil só terá condições de voltar a crescer quando solucionar o problema fiscal. Isso será feito por meio de reformas, que darão credibilidade ao país. “É muito difícil dizer ainda o que será de 2019 para frente, porque a minha visão é que o ano espera que as reformas necessárias aconteçam e de forma imediata. O cenário ainda é muito incerto”, enfatiza a pesquisadora da FGV Luana. Do lado político, tanto Jair Bolsonaro (PSL) quanto Fernando Haddad (PT), que disputam a principal cadeira do Executivo, ainda precisam detalhar a agenda econômica.

Pânico

Do lado conservador, o assessor econômico do PSL, Paulo Guedes, tem divergido de Bolsonaro em alguns pontos. O economista é a favor de privatizar várias estatais, principalmente as deficitárias, como a Eletrobras. O militar reformado, porém, defende que o setor de energia é estratégico e que não venderá o país para a China. O movimento gerou mal-estar nos mercados na última quarta-feira, 10. Os investidores avaliam que, entre ele e o PT, Bolsonaro estará melhor preparado para tocar a agenda de reformas, mas ainda vê o futuro incerto com o candidato conservador.

Com Haddad o medo é maior, porque o plano de governo é considerado um retrocesso na área econômica. O candidato petista tenta relativizar alguns pontos e avança para o centro, na tentativa de obter votos. Mas o fracasso da gestão Dilma Rousseff fez com que o país entrasse na maior recessão da história, fazendo com que o mercado tenha “pânico” da volta do PT ao poder, segundo analistas. De 2014 a 2018, a miséria aumentou e atingiu mais de 23 milhões de pessoas, segundo a FGV.

O consumo das famílias está baixo por conta do desemprego elevado. O mercado de trabalho não melhora diante dos baixos investimentos, que estão em 16% do PIB, segundo os dados do segundo trimestre de 2018. O índice é baixíssimo se comparado a níveis históricos. “A economia está em compasso de espera, aguardando se será possível um crescimento maior com o novo governo e as políticas que serão adotadas”, afirmou Cavalcanti, economista do Ipea.

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