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Correio Braziliense

Reformas e ajuste fiscal determinarão crescimento da produção em 2019

A seriedade de como o ajuste fiscal será tratado pelo novo presidente e o ritmo das mudanças nas regras tributária e da Previdência determinarão o investimento e o crescimento do setor produtivo no próximo ano, segundo especialistas


postado em 13/10/2018 07:00 / atualizado em 12/10/2018 22:14

Independentemente de quem vencer as eleições, o cenário para a economia em 2019 ainda é incerto. As previsões para a taxa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) do próximo ano começam a minguar aos poucos, porque o ritmo de retomada da atividade continua lento e abaixo da média de crescimento global. Atualmente, as projeções dos analistas ouvidos pelo Correio variam de 1,2% a 2,7%, ante os 3% do inicio do ano. E a maioria ainda deve reduzir as estimativas, como fez o Fundo Monetário Internacional (FMI), que diminuiu a projeção do PIB de 2,5% para 2,4% e pode não parar por aí.

Os analistas esperam o resultado das urnas para começarem uma nova rodada de ajustes. Na opinião dele, será preciso incluir na conta a forma como cada candidato trata a questão fiscal, que será fundamental para prever os rumos da economia. Resolvê-la é o principal problema do próximo governo, e, nesse sentido, a reforma da Previdência é considerada a prioridade zero para conter o ritmo de crescimento da dívida pública. Pelas estimativas do FMI, o gasto deverá chegar a 90,5% do PIB neste ano — acima da previsão anterior, de 87,3% —, patamar insustentável para países emergentes, cuja média deve ser inferior a 50% do PIB.
 
(foto: Editoria de Arte/CB/D.A Press)
(foto: Editoria de Arte/CB/D.A Press)
 

A agenda de reformas, avisam, é o que vai estimular ou não investidores e o setor produtivo, que continuam sem confiança na capacidade do governo em reequilibrar as contas. Vale destacar que apenas o saldo negativo do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) previsto para 2018 é de R$ 202 bilhões, valor crescente, e é bem maior do que a meta fiscal do governo federal deste ano, de deficit primário de até R$ 159 bilhões.

Para especialistas, mesmo se o governo cortar todos os gastos não obrigatórios daqui para frente, o que pararia a máquina pública, não cobrirá esse rombo nos próximos anos. Especialistas estimam que o ajuste fiscal que precisará ser feito pelo novo governo gira em torno de 5% do PIB. Para se ter uma ideia, a soma do deficit dos regimes de aposentadorias público e privado em 2017 foi de R$ 267 bilhões, ou 4,1% do PIB, e, neste ano, será bem maior, em torno de R$ 300 bilhões.

Na avaliação da economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, o PIB corre o risco de encolher no ano que vem se a agenda de reformas for abandonada pelo próximo presidente. Ela lembra que a melhoria nas expectativas dos empresários e do mercado é que definirá o ritmo de retomada nos investimentos, principal motor para o crescimento econômico sustentável. Um consenso entre especialistas é que a taxa de investimento em relação ao PIB no Brasil, de 16%, é muito baixa, pois, para o país conseguir crescer acima de 5% ao ano, seria necessário que esse indicador ficasse acima de 25% do PIB.

Para Roberto Padovani, economista-chefe do Banco Votorantim, qualquer que seja o presidente da República terá que fazer reforma para estabilizar o crescimento da dívida pública. “Se isso não acontecer, ele jogará a economia em uma nova crise que pode levar até cinco anos. O incentivo para a reforma é esse. O que vai ser diferente é como o candidato vencedor vai apresentar essa agenda e como o mercado vai reagir a ela”, alerta.

“O cenário está muito aberto no momento. Se o próximo presidente não conseguir aprovar a reforma da Previdência logo no primeiro semestre, isso vai gerar muita instabilidade, com um novo patamar para o câmbio, para a Selic, por exemplo”, explica Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos. Para ela, mesmo se houver a possibilidade de mudança no sistema de aposentadoria ao longo de 2019, não há garantia de que haverá uma estabilização das pressões no câmbio e nos juros ao longo do próximo ano, o que pode comprometer o crescimento. “O quadro, no momento, está muito aberto e muito dependente do timing da reforma da Previdência. Se não houver aprovação no próximo ano, o quadro pode ficar bastante dramático para o Brasil”, completa.

Desfecho

Braulio Borges, economista da LCA Consultores, avisa que só mexerá nas previsões depois de 28 de outubro, mas adianta que o viés é de queda. “Certamente vamos revisar nossas previsões para baixo, mas vamos esperar o desfecho do segundo turno. Está muito difícil fazer projeções no momento atual. Tudo pode mudar em uma semana ou em 15 dias”, resume ele, que, por enquanto, está com previsão de alta de 2,1% no PIB do ano que vem. Ele reconhece que a piora nas expectativas de curto prazo em função das eleições e a política interna é que vai ditar os rumos do mercado doméstico nas próximas semanas. A atual polarização entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), segundo estudos da LCA, parece elevar o risco de que a tensão nos mercados domésticos possa perdurar para além do período eleitoral.

Alessandra, da Tendências, lembra que o cenário mais pessimista traçado no início do ano está se concretizando, com a polarização entre a esquerda e a direita nas pesquisas. Ela reconhece que o risco de a economia não deslanchar é maior com a possibilidade de vitória de Haddad, se o programa defendido pelo PT for implementado. “A previsão do nosso cenário base, que apostava em uma vitória de um candidato de centro, está cada vez menos provável e agora temos um viés de baixa. Em um cenário sem reformas alguma, é possível até que o PIB caia”, completa.

Conforme o levantamento feito pela Tendências sobre as possibilidades dos candidatos à frente das pesquisas no primeiro turno, a taxa de crescimento do PIB no ano que vem pode variar entre 0,6% e 1,7% (veja quadro). Pelas contas de Alessandra, a única certeza em 2019 é que a economia continuará crescendo abaixo do PIB potencial, que atualmente é inferior a 2% ao ano, pelas contas dela. Zeina também demonstra preocupação com a falta de coerência entre o discurso e o programa dos candidatos Bolsonaro e Haddad. “Há muito ruído entre os candidatos e suas propostas, o que aumenta as incertezas sobre a retomada da economia”, lamenta.

Apesar de estar entre os mais pessimistas em relação ao crescimento do PIB no ano que vem, a economista-chefe da Rosenberg Associados, Thais Zara, acredita que o futuro presidente vai fazer alguma reforma, qualquer que seja o partido. “A recuperação da economia será em ritmo mais lento nos próximos anos do que inicialmente estava sendo previsto. Estamos trabalhando com dois cenários. O primeiro, com alta de 1,5%, considera a aprovação de reformas de forma mais gradual. Mas, se a reforma da Previdência for aprovada ainda este ano, o resultado do PIB no ano que vem pode ser bem melhor, com alta de 2,5% a 3%”, explica.

Tripé

Para ela, o presidente eleito não poderá ignorar a necessidade de fazer reformas para equilibrar as contas públicas e, para isso, precisará manter o tripé macroeconômico, que consiste nas metas de inflação e de superavit primário; e no câmbio flutuante, sem querer inventar a roda. “O risco maior do próximo governo está em fazer ou não as reformas. Se o novo governo não mantiver o tripé macroeconômico e não fizer o ajuste fiscal, o país volta para um quadro mais crítico. Acredito que todos os candidatos têm essa percepção de que o problema fiscal precisa ser solucionado”, destaca Thais.

Padovani, do banco Votorantim, também acredita que o próximo presidente não vai poder abandonar a agenda de reformas e o aumento do risco está condicionado à continuidade dela ou não, como destacou bem o cenário apresentado pelo Banco Central no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) na última quinta-feira, reduzindo de 1,6% para 1,4% a previsão para o PIB deste ano, e colocando uma estimativa de expansão econômica de 2,4% para 2019.  As incertezas em relação às eleições continuam minando a confiança do setor produtivo. Conforme dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o processo de recuperação do otimismo da indústria da construção que é um dos que ainda não conseguiram sair totalmente da recessão. O processo de retomada da confiança desse segmento, iniciado em junho, foi interrompido em setembro, recuando 1,2 ponto, para 50,4 pontos.

Jankiel Santos, economista-chefe do banco Haitong, defende que o próximo presidente vai ter um comprometimento com reformas e apresentará “medidas críveis”, seja qual for o vencedor. “Quero acreditar nisso. Se o cenário para o reforço na recuperação econômica vai ser baixo, o efeito estatístico pode ajudar a destravar alguns planos de investimentos que estão suspensos neste ano por conta da indefinição das eleições. Não é impossível crescer mais que este ano no ano que vem”, aposta.

“O risco maior do próximo governo está em fazer ou não as reformas. Se o novo governo não mantiver o tripé macroeconômico e não fizer o ajuste fiscal, o país volta para um quadro mais crítico”
Thais Zara, economista-chefe da Rosenberg Associados

“Se o próximo presidente não conseguir aprovar a reforma da Previdência no primeiro semestre, isso vai gerar muita instabilidade, com um novo patamar para o câmbio para a Selic, por exemplo”
Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos

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