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Correio Braziliense

PIB per capita só voltará ao patamar de 2013 em um década

PIB per capita, indicador obtido pela divisão das riquezas do país pelo número de habitantes, só voltará ao nível em que se encontrava antes da recessão por volta de 2027 ou 2028, segundo especialistas, se forem feitas reformas


postado em 27/10/2018 07:00

(foto: Danilson Carvalho/CB/D.A Press)
(foto: Danilson Carvalho/CB/D.A Press)
A economia brasileira está se recuperando da recessão de 2015 e 2016 em ritmo mais lento do que o esperado. Com isso, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que é o resultado da divisão de todas as riquezas do país pela população brasileira, de 209 milhões atualmente, deve levar mais tempo para voltar ao patamar pré-crise. Pelas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), o pico registrado em 2011, de US$ 13,2 mil, não será recuperado, pelo menos, até 2023, último ano das estimativas do organismo multilateral. Ao que tudo indica, a retomada da renda média dos brasileiros deve levar mais de uma década, mesmo se o próximo governo fizer as reformas econômicas de que o país precisa. Caso isso não ocorra, a tendência será pior, dizem especialistas.

Durante a crise, o PIB per capita caiu mais do que a produção bruta da economia. Enquanto o PIB nominal encolheu, em termos reais, 3,5% em 2015 e igual percentual em 2016, a evolução da renda média dos brasileiros foi negativa por três anos seguidos, recuando 0,4%, 4,3% e 4,2% em 2014, 2015 e 2016, respectivamente, acumulando uma perda de quase 10% no período. “Foi a maior queda já registrada no país, com a recessão muito profunda e longa. Estamos falando de mais de uma década perdida”, explica Ronaldo de Castro Souza Júnior, diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) 

Produtividade


Segundo o economista, mesmo em cenário otimista, com reformas estruturais e fiscais que permitam a volta do crescimento sustentável, o PIB per capita voltaria ao patamar pré-crise apenas depois de 2023. “Para que conseguíssemos chegar antes ao nível de 2013, além das reformas macrofiscais, teríamos de implantar medidas que estimulassem a produtividade. Para isso, é preciso uma estratégia nacional de desenvolvimento econômico e social”, afirma. E também disciplina fiscal. “Sem o teto de gastos públicos, a confiança e o investimento não voltam, pois a dívida pública está crescendo em ritmo muito forte , o que não permite manter os juros em patamar razoável”, observa.

Analistas afirmam que, sem arrumar as contas públicas, que caminham para terminar 2018 em deficit pelo quinto ano consecutivo, o país ficará preso na armadilha da renda média-baixa. Neste ano, o PIB per capita brasileiro, medido em dólares, deve ficar em US$ 9,1 mil, valor inferior ao do Chile, de US$ 16,1 mil, conforme dados do FMI. A China passou o Brasil nesse indicador desde 2014, e países vizinhos emergentes, como Colômbia e México, estão no mesmo caminho. O PIB per capita chinês para este ano é estimado pelo FMI em US$ 9,6 mil, mesmo valor do mexicano. O da Colômbia, de US$ 6,7 mil, vem crescendo em ritmo mais acelerado que o do Brasil. Até Botsuana, país africano de 2,2 milhões de habitantes, ameaça alcançar renda per capita superior à brasileira.

“Com a recessão, demos vários passos para trás, e o país ficou muito mais distante de conseguir chegar ao patamar dos países desenvolvidos”, lamenta Juliana Inhasz, professora de economia do Insper. “O país tem perdido competitividade. Se o próximo governo fizer tudo certo e não cometer nenhuma loucura e fizer o ajuste fiscal, o patamar de 2011 pode ser recuperado entre 2026 e 2028”, acredita. Pelas contas da economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, a retomada do valor que o PIB per capita tinha em 2013 só ocorrerá a partir de 2027, se o próximo governo fizer as reformas e mantiver o teto de gastos públicos. 


Potencial 


De maneira geral, os analistas admitem que é possível encurtar o prazo de recuperação mediante reformas e medidas bem-sucedidas para melhorar a produtividade da economia. Segundo Cláudio Considera, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), a economia tem potencial para crescer acima de 3%, mas, como a bagunça econômica foi muito grande nos últimos anos, o PIB potencial encolheu para menos de 2%. “Se a economia voltar a ter paz, sem assalto aos cofres públicos, o Brasil voltará a crescer. Assim , Botsuana não vai nos pegar”, completa.

Na opinião de Alessandra, da Tendências, outra medida que deveria ser tomada logo no início do mandato do próximo presidente é a mudança da regra de reajuste do salário mínimo. “Com uma revisão é possível incorporar uma taxa de crescimento menor do que a do PIB nominal. Talvez a do PIB per capita”, aposta. Há uma década, a correção do piso salarial utiliza uma fórmula que soma a variação do PIB de dois anos antes com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do ano anterior. Essa regra expira em 2019, portanto, o novo presidente poderá prorrogá-la ou modificá-la.


EUA aceleram crescimento


A economia dos Estados Unidos cresceu a uma taxa anualizada de 3,5% no terceiro trimestre, puxada pelos gastos dos consumidores, segundo o Departamento do Comércio norte-americano. O bom desempenho da maior economia do mundo tem reflexos positivos no Brasil, mas, por si só, isso não terá grande consequência, se o mercado doméstico não caminhar com as próprias pernas. Para César Bergo, sócio consultor da Corretora OpenInvest, o crescimento dos EUA vai beneficiar as exportações brasileiras a médio e longo prazos. “Os EUA importam produtos de maior valor agregado, com reflexos na cadeia produtiva, no Brasil e no mundo inteiro”, ressaltou Bergo.

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