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Correio Braziliense

PIB do Brasil aumenta, mas consumo perde fôlego no terceiro trimestre

Percentual de alta dos gastos do consumidor diminui a cada trimestre, desde o início do ano. Desaceleração do indicador, que responde por 64% do Produto Interno Bruto, é atribuído ao endividamento das famílias e ao desemprego


postado em 02/12/2018 07:00

(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)

O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre, divulgado na última sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentou alta de 1,3% sobre o mesmo período de 2017, mas chamou a atenção de especialistas em relação à desaceleração do consumo das famílias, que apresentou avanço de 1,4%, na mesma base de comparação. O ritmo de crescimento do consumo das famílias vem apresentando queda desde o início do ano. Depois de registrar expansão de 2,4% no terceiro trimestre de 2017, registrou alta de 3,1% nos três meses seguintes, o melhor resultado em mais de três anos. Na sequência, recuou para alta de 2,9%, no primeiro trimestre deste ano, passando para 1,8% no seguinte, e, agora, mais uma desacelerada, para 1,4%.

“Está havendo uma diminuição clara na taxa de expansão do consumo das famílias, apesar de a inflação estar controlada, abaixo da meta de 4,5% ao ano, de os juros apresentarem queda e de a oferta de crédito ter aumentado no trimestre”, observou Cláudia Dionísio, gerente de Contas Nacionais do IBGE. Ela lembrou que, no terceiro trimestre, apesar do quadro mais favorável para o consumo, o mercado de trabalho, em termos de qualidade, piorou. “O desemprego tem apresentado redução gradual, mas é na informalidade que o número de vagas tem crescido. E isso, em termos de remuneração média, não representa aumento e, portanto, não ajuda a estimular uma alta mais forte do consumo”, resumiu.

O consumo das famílias é o principal motor do PIB, uma vez que tem um peso de 64% na demanda, conforme dados do IBGE referentes a 2017. Os investimentos representam 15% do PIB e o consumo do governo, 20%. A fatia das exportações é de 12,6%, e as importações contribuem negativamente com 11,6%.

Preocupação


Juliana Inhasz, professora de economia do Insper, também demonstra preocupação com a desaceleração no consumo das famílias. “Isso é um problema muito grande. Mostra que o consumidor está mais cauteloso. Nos últimos anos, o país cresceu muito se segurando no consumo, mas havia uma demanda aquecida, puxada pela expansão da economia. Agora, como o país está tentando se recuperar da recessão, mas as famílias ainda estão endividadas, a tendência é de que o consumo continue se recuperando devagar. O desemprego ainda está elevado e, por conta disso, o ritmo de crescimento do consumo não é sustentável”, explica. Ela lembra que as incertezas deste ano, em função das eleições, também contribuíram para o desaquecimento do consumo no terceiro trimestre.

“O processo eleitoral e as dúvidas sobre que política econômica seria a vencedora também fez as famílias tirarem o pé do acelerador nos meses anteriores ao primeiro e ao segundo turnos”, destaca Juliana. Para a economista, a desconfiança do consumidor e do investidor é uma barreira para o crescimento da economia e os dados do IBGE mostram que ela ainda está presente, em contraste com o otimismo do mercado financeiro, que fez o Ibovespa ultrapassar 90 mil pontos na sessão de sexta-feira. “O consumidor está muito sensível neste momento de transição de governo. Ele deve continuar cauteloso enquanto o desemprego ainda estiver elevado e a economia não apresentar taxas maiores de crescimento”, emenda.

O economista Artur Passos, do Itaú Unibanco, pontua que é preciso lembrar que, em 2017, a atividade teve uma forte contribuição da liberação das contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Os saques do PIS-Pasep, neste ano, não tiveram a mesma proporção. “O impacto dos estímulos do governo ao consumo não teve a mesma intensidade, portanto, é preciso descontar o efeito na comparação. Mas a realidade é que a melhora no mercado de trabalho não tem sido favorável do ponto de vista salarial, o  que acaba desestimulando o consumidor a comprar, mesmo com a expansão da oferta de crédito nos últimos meses”, afirmou.

A analista de sistemas Vanessa Gentil, 32 anos, é um exemplo de consumidor cauteloso. Apesar de morar na Asa Norte, ela decidiu, por economia, fazer compras em um mercado do Cruzeiro Novo. Ela gasta cerca de R$ 1.800 por mês. “Sentimos o aumento do preço dos produtos, principalmente no fim de ano. Compramos menos e, em vez de estocar, como fazíamos antes, compramos gradativamente, conforme as coisas vão acabando. Lá perto de casa, tudo é mais caro. Prefiro ir a um mercado um pouco mais longe, onde encontramos boas promoções”, diz. Vanessa conta que o cardápio da ceia de Natal também sofrerá alterações. “Vamos reduzir a quantidade de perus e fazer uma ceia coletiva. Como a família é grande, cada um leva um prato, assim fica mais em conta”, diz.

Crédito


No entanto, a melhora na oferta de crédito para os consumidores e a redução gradual das taxas de juros médias têm ajudado a recuperar o otimismo do gerente de uma concessionária no SIA, Rafael Pedro Araújo. Ele disse que está animado com a perspectiva das vendas neste fim de ano. “Estamos confiantes. Sentimos um crescimento ainda tímido nas vendas, mas prevemos um crescimento maior para 2019 para a compra de veículos novos.”  O último trimestre costuma apresentar desempenhos melhores na atividade econômica devido ao aumento do consumo nas festas de fim de ano. Porém, especialistas avaliam que a alta de 0,8% no PIB do terceiro trimestre, em relação ao anterior, foi pontual, e, entre novembro e dezembro, essa taxa será menor. Passos, do Itaú Unibanco, por exemplo, prevê expansão de apenas 0,2%.
 
 

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