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Correio Braziliense

Mercado prevê aumento da taxa básica de juros apenas no 2º semestre de 2019

O relatório semanal Focus, que reúne previsões de economistas ouvidos pelo Banco Central, divulgado ontem, mostrou os analistas mais otimistas com a inflação no próximo ano.


postado em 04/12/2018 06:00

(foto: Kleber Sales/CB/D.A Press)
(foto: Kleber Sales/CB/D.A Press)


Crescem as apostas do mercado de que a taxa básica de juros (Selic) deverá continuar em 6,5% ao ano por mais tempo do que o esperado. Na avaliação de especialistas, a alta da Selic deverá ocorrer somente na segunda metade de 2019, apesar das incertezas em relação ao quadro fiscal, que ainda é preocupante. O relatório semanal Focus, que reúne previsões de economistas ouvidos pelo Banco Central, divulgado ontem, mostrou os analistas mais otimistas com a inflação no próximo ano, tanto que reduziram pela quarta vez seguida a previsão para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 4,12% para 4,11%, índice inferior ao centro da meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 4,25%. Com a carestia controlada, não há necessidade de elevar os juros.

No relatório, a mediana das previsões dos analistas para a taxa básica foi mantida em 7,75% ao ano. Na semana anterior, tinha ocorrido uma redução de 0,25 ponto percentual, após 44 semanas em que a projeção ficou em 8%. Segundo os especialistas, os dados do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre, divulgados na última sexta-feira, confirmam que a demanda interna continua fraca. Portanto, elevar a Selic jogaria um balde de água fria na recuperação do consumo, que vem perdendo fôlego desde o início de 2018, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Vale lembrar que o consumo das famílias representa 64% do PIB.

“A economia está se recuperando em ritmo muito lento e, como o mercado de trabalho também não tem dado sinais de retomada mais firme e o crédito continua caro para o consumidor, não faz sentido que o BC volte a elevar os juros logo no começo do próximo ano. Agora, as apostas são de que a Selic deverá subir apenas no fim de 2019”, explicou o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa. Segundo ele, a Selic deve avançar para 6,75% no fim do ano que vem.

O PIB do terceiro trimestre cresceu 0,8% na comparação com os três meses anteriores, quando a alta foi de apenas 0,2% devido à paralisação dos caminhoneiros, em maio. Contudo, Rosa manteve em 1,3% a projeção de expansão da economia neste ano. “O resultado do PIB mostrou que a demanda interna ainda está fraca. A alta do terceiro trimestre sobre o segundo indica mais um efeito contábil do que uma recuperação efetiva, um avanço sobre uma base muito pequena”, avaliou.

Demanda fraca


A queda nas previsões do IPCA não está relacionada com a taxa de câmbio, pois a previsão para o dólar médio subiu de R$ 3,70 para R$ 3,75, neste ano, e de R$ 3,78 para R$ 3,80, no próximo. O principal determinante para o bom comportamento da inflação, na análise do mercado, é recuperação lenta da atividade econômica. Segundo o Focus, a expectativa de alta do PIB em 2018 caiu de 1,39% para 1,32%. Em relação a 2019, houve apenas uma ligeira melhora, de 2,50% para 2,53%.

A economista-chefe da Rosenberg Associados, Thaís Zara, reduziu de 1,5% para 1,4% a previsão de crescimento do PIB neste ano. “Fizemos um acerto pontual na nossa projeção. A demanda interna continua muito fraca e não deve pressionar a inflação. O ritmo de recuperação da economia será gradual”, afirmou. Thaís manteve em 2,80% a expectativa de expansão em 2019 e espera que a Selic encerre o próximo ano em 7,25%.

Fábio Bentes, chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC), prevê que a Selic fique entre 7,50% e 7,75% no fim do ano que vem. “A agenda liberal do novo governo tem levado o mercado a prever uma Selic mais comportada, porque tanto o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, quanto o presidente eleito, Jair Bolsonaro, têm dado declarações de que pretendem trabalhar para reduzir os juros”, afirmou Bentes.

“Os dados do PIB do terceiro trimestre mostram que a demanda não está pressionando a inflação. Isso fez o mercado reduzir mais uma vez a expectativa do IPCA, que está rodando dentro da meta do próximo ano, apesar da previsão de alta de 10% para os preços administrados, como energia elétrica e combustíveis. A expectativa é de que a agenda de desestatização do próximo governo ajude a reduzir a pressão dos administrados e facilite a acomodação da inflação abaixo do centro da meta. Mas isso dependerá do ritmo em que as privatizações ocorrerem”, afirmou Bentes.

Concorrência


Para o economista da CNC, como os juros ao consumidor continuam elevados, em torno de 50% ao ano na média, o novo governo precisará atuar forte para que eles caiam. “O grande ponto para destravar a economia são os juros, porque o spread bancário (diferença entre o que os bancos pagam para captar recursos e o que cobram nos empréstimos) não está diminuindo, apesar dos indicadores de que a Selic se manterá baixa”, disse Bentes. “A inflação está contida, a inadimplência cai aos poucos, o novo governo não sinaliza aumento de impostos, mas o spread está congelado e os lucros dos bancos estão descolados do restante da economia. Esse comportamento decepcionante dos juros é reflexo da concentração bancária”, criticou.

“Os componentes do spread não justificam qualquer elevação dos juros. O governo vai ter que estimular a concorrência no sistema financeiro — e não só por meio das fintechs —, para que possamos ter taxas de juros mais baixas, dentro dos padrões internacionais”, emendou o economista.


  • BC vende dólares

    O Banco Central (BC) anunciou que realizará hoje dois leilões de linha de até US$ 1 bilhão. A medida equivale à venda de dólares no mercado à vista. Ontem, a moeda teve queda de 0,60%, sendo negociada, no fechamento, a R$ 3,8413 para venda, acompanhando o bom humor global após o anúncio de trégua na disputa comercial entre Estados Unidos e China. Para Fernanda Consorte, estrategista de Câmbio do Banco Ourinvest, o recuo do dólar refletiu a melhora no ambiente de negócios para os emergentes. Segundo ela, além da trégua, a perspectiva de alta moderada de juros no EUA e a interrupção da queda do petróleo ajudaram a desanuviar o cenário.

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