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Correio Braziliense

Ipea e Cepal: Integração regional Brasil e América Latina é muito baixa

Países poderiam aproveitar melhor o aumento de barreiras entre EUA e China se houvesse um comércio interregional mais estruturado


postado em 06/12/2018 18:26

(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
Enquanto as incertezas no cenário externo aumentam devido às tensões comerciais entre Estados Unidos e China, apesar da trégua temporária de 90 dias acordada no encontro do G2 (grupo das 19 maiores economias desenvolvidas e emergentes do planeta mais a União Europeia), especialistas alertam para a falta de integração do Brasil com os países vizinhos, que poderia ser uma forma de proteção para a região, de acordo com levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Avançada (Ipea) e a Comissão Econômica pra a América Latina (Cepal), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU).

“Temos um quadro de integração regional que não é muito satisfatório. Ele é muito baixo. Aproximadamente, apenas 18% do comércio dos países latino americanos é intrarregional nos últimos anos. Ainda que ele tenha melhorado um pouco entre 2005 e 2011, que foram os melhores anos para o comércio na região e o Brasil aumento sua participação, mas, nos últimos anos, esse comércio intrarregional voltou a diminuir”, alertou o pesquisador do Ipea Pedro Silva Barros, nesta quinta-feira (06/12), durante o seminário “Integração Produtiva  na América do Sul – Análises de Cadeias de Valor: Comércio, Investimento e Infraestrutura”, onde foi apresentado o estudo “Perspectivas do Comércio Internacional da América Latina e Caribe”, feito pela Cepal.

Barros lembrou que um dos maiores desafios para o aumento dessa integração regional é a infraestrutura precária assim como a falta de garantias para o comércio intrarregional e a desorganização das cadeias de valor. “A estruturação das cadeias de valor não compreende nossa região como espaço de articulação. Nesse sentido, o Estado pode atuar para estruturar melhor essas cadeias”, disse ele, lembrando que  boa parte das exportações brasileiras na região é de manufaturas e, no setor de serviços, a participação do Brasil cresce em uma velocidade muito lenta. O técnico destacou que a Zona Franca de Manaus poderia ser um catalisador do comércio intrarregional, contudo, está longe de cumprir essa função. “A Suframa é um polo industrial que foi estruturado como agência de desenvolvimento regional, mas não  cumpre o seu papel”, lamentou.

De acordo com o representante da área de Assuntos Econômicos da Cepal em Santiago, José Duran, destacou que o índice de comércio intrarregional ficou em 17,2% das exportações totais da América Latina, em 2017, dos quais 54% do valores das trocas entre países vizinhos são de produtos de tecnologia alta, média e baixa. A China é o maior destino desses produtos e importa quase 50% do total embarcado. “A América Latina poderia se beneficiar das maiores barreiras comerciais entre Estados Unidos e China se houvesse maior integração regional”, disse Duran. A Cepal projeta um crescimento de 12% das trocas interregionais em 2018, liderado pelas manufaturas baseadas em recursos minerais, como derivados de petróleo, cobre  papel e papelão, e de manufaturas de tecnologia baixa e média. Todavia, ele acrescentou que há também um potencial de crescimento do comércio eletrônico intrarregional, mas há quatro desafios que precisam ser enfrentados: melhorar o capital humano, aperfeiçoar a infraestrutura logística, convergência regulatória e adequação dos meios de pagamentos. “O Brasil participa com 42% desse comércio e a região está aumentando o consumo de produto importado, que vem ocupando o espaço brasileiro”, alertou.   

Renato Baumann, secretário adjunto de Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento, avaliou que o modelo de trocas comerciais na região não é sustentável e muito diferente do que ocorre no sudeste asiático. “A Bolívia, por exemplo, não vende para o Brasil e só compra do país. Isso não é sustentável. Os países do sudeste asiático são provedores de insumo da produção chinesa. Logo, quando a China cresce, os demais países crescem junto. Agora, aqui na região, se o Brasil cresce, não acontece nada”, lamentou. “A condição básica para a sustentabilidade de longo prazo na integração da America do Sul é criar a capacidade de oferta nos países menores de uma forma que eles possam prover insumos para a produção brasileira pra que quando a economia brasileira crescer, aí o crescimento da região se sustenta”, resumiu ele criticando a falta de coordenação entre as organizações de fomento da região e de bancos de desenvolvimento. Para ele, essas instituições precisam focar os recursos em projetos para melhorar a infraestrutura regional.

Ivan Oliveira, diretor de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais do Ipea, reforçou que a capacidade de investimento no país, que é baixa e depende das multinacionais e da agenda de integração.  “O Brasil tem pés de barro para ser um líder regional e uma limitação estrutural, que é determinante para qualquer integração. A discussão de abertura comercial, cogitada pelo novo governo, precisa ter mecanismos de incentivo ao comércio intrarregional”, afirmou. Ele destacou a necessidade de ampliação dos acordos comerciais não apenas do Mercosul como forma de melhorar a integração regional.

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