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Correio Braziliense

Analistas veem dólar a R$ 4, caso reformas não sejam aprovadas

Investidores estrangeiros estão desconfiados e aguardam a agenda de reformas, o que deixa a divisa norte-americana no patamar atual de R$ 3,70 e o fluxo cambial no vermelho. Se não houver avanços, a moeda poderá passar de R$ 4, segundo analistas


postado em 21/01/2019 06:00

De acordo com analistas, a aprovação das reformas fiscais é o grande fator que determinará a vinda dos donos de dinheiro de volta para o Brasil(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
De acordo com analistas, a aprovação das reformas fiscais é o grande fator que determinará a vinda dos donos de dinheiro de volta para o Brasil (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
A expectativa de entrada maciça de recursos estrangeiros, no Brasil, neste início de ano, ainda não se concretizou. Analistas estimavam que, com o “Efeito Bolsonaro”, no curto prazo, o real poderia avançar fortemente em relação ao dólar nas primeiras semanas de governo. No entanto, a previsão foi frustrada. O baixo fluxo de ingresso estrangeiro, de acordo com dados da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), é marcado pela desconfiança do investidor estrangeiro. Com isso, o real mantém-se firme no patamar de R$ 3,70, à espera das definições econômicas do governo. Analistas avisam que, se a agenda reformista não avançar, o câmbio pode superar R$ 4. Em caso positivo, as apostas mais otimistas são de R$ 3.

De acordo com analistas, a aprovação das reformas fiscais é o grande fator que determinará a vinda dos donos de dinheiro de volta para o Brasil. Dados da B3 do dia 11 de janeiro mostram que, nas três primeiras semanas do ano, a movimentação dos investidores estrangeiros foi negativa. Conforme os dados da B3, a posição líquida dos investidores não residente na Bolsa estava negativa em R$ 229,4 milhões em 14 de janeiro. Esse saldo é resultado do comportamento assinalado desde outubro passado, mês da eleição de Jair Bolsonaro.

O mercado financeiro tende a precificar cenários esperados e está mais otimista do que os investidores estrangeiros. Por conta disso, a queda na cotação do dólar passa pela aprovação das reformas fiscais. Sabe-se que Bolsonaro terá tarefa difícil no Congresso Nacional. As eleições para a presidência da Câmara dos Deputados e do Senado Federal em fevereiro serão decisivas. Entre os projetos, a reforma da Previdência é a menina dos olhos da equipe econômica, sob a tutela do ministro da Economia, Paulo Guedes. Agentes do mercado aguardam o projeto de mudança no sistema de aposentadorias e esperam que chegue a economizar, dos cofres públicos R$ 1 trilhão em  um  período de 10 anos.

Bolsonaro embarcou na noite de ontem para Davos, na Suíça, onde participará do Fórum Econômico Mundial. Ele deve avaliar o texto preparado pela equipe de Guedes sobre a Previdência ao longo da viagem. A divulgação do projeto, que é aguardada pelos investidores internacionais, só deve ocorrer após o retorno ao Brasil. Para Sidnei Nehme, economista da NGO Corretora, apesar da conjuntura internacional prometer ser desafiadora em 2019, as perspectivas para cotação da moeda estrangeira são positivas. “Se o governo conseguir cumprir com o que foi dito, o cenário é favorável. No entanto, a ansiedade do investidor faz com que ocorra a precificação. Mas, uma reforma que passe pela adequação da crise fiscal, aliviando as contas públicas, trará os investimentos estrangeiros de volta, e, com isso, a queda do dólar”, explica. Na visão de Nehme, em um cenário positivo, a moeda norte-americana tem espaço para cair, no longo prazo, para algo entre R$ 3,40 e R$ 3,45.

Porém, segundo o economista, o mercado financeiro precisa entender que a aprovação do texto, por parte do Congresso, que só retomará os trabalhos em fevereiro, leva tempo e não é algo a ser realizado no curto prazo, o que pode frustrar muitos operadores. “Isso não é uma coisa que se resolva nos próximos 15 dias. Voltando de Davos, ele (Bolsonaro) apresentará o texto ao Congresso, o que leva tempo. Aí sim, com o tempo sendo concedido e, à medida que o estrangeiro entender que as medidas necessárias estão sendo tomadas, haverá queda da moeda”, analisa. Nehme, entretanto, alerta que a condução da política monetária por parte do Fed (Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos) pode retirar recursos do Brasil, pois é considerado um porto seguro para os investidores externos enquanto o Brasil, que perdeu o grau de investimento em 2015, vai demorar muitos anos para voltar ao grupo dos países considerados bons pagadores. “As bolsas norte-americanas estão com o preço barato, além de que a economia estadunidense bomba. Assim, diante das últimas atas do Fed, espera-se que a autoridade monetária será mais leniente, o que pode tornar os EUA em um grande concorrente de emergentes”, alerta.

Para Reginaldo Galhardo, gerente de Câmbio da Treviso Corretora, a visão do mercado é otimista em relação ao governo. “Operadores acreditam que haverá um facilitador na aprovação da Previdência, principal reforma a ser feita, que é a atuação dos políticos. O mercado sente que eles estão reticentes a fazer oposição, mirando a renovação da próxima geração. Estamos em uma nova era, na qual, há muito tempo, não víamos um governo de orientação econômica liberal com real capacidade administrativa”, aponta. No entanto, segundo ele, a credibilidade só será concretizada no caso da aprovação, além da reforma previdenciária, da tributária e de um ajuste na reforma trabalhista. “Se as reformas avançarem, o dólar pode buscar, já no curto prazo, os R$ 3,50. Justamente por isso, o governo fará esforços em cortar o excesso de contingente de pessoas. Há um inchaço na máquina federal com relação aos funcionários. Mas há uma possibilidade enorme de o dólar voltar ao intervalo entre R$ 3 e R$ 3,30 no longo prazo”, diz.

Galhardo lembra que a expectativa de privatizações de companhias públicas enche os olhos dos estrangeiros. Na quinta-feira, 17, o governo, por meio do Programa de Parcerias de Investimento (PPI), anunciou que cogita leiloar ao menos 49 projetos de infraestrutura neste ano. “Na área de infraestrutura, além da possibilidade de vinda de novas empresas para o Brasil, as perspectivas de que estatais serão colocadas à privatização aumentam a confiança dos investidores estrangeiros”, detalha.

*Estagiário sob supervisão de Rosana Hessel

 
 

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