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Correio Braziliense

Henrique Prata: 'Saúde privada avança por culpa do governo'

Há 30 anos no comando do Hospital de Amor, Prata afirma que é preciso garantir a correção da tabela do SUS na Constituição para dar condições de igualdade entre o sistema público e o particular


postado em 13/02/2019 06:01 / atualizado em 13/02/2019 09:03

Prata: 'Se a correção da tabela do SUS tivesse sido feita nos últimos 15 anos, não haveria espaço para a medicina privada, para essa avalanche de hospitais privados e o interesse dos fundos de investimento na área'(foto: Arquivo pessoal)
Prata: 'Se a correção da tabela do SUS tivesse sido feita nos últimos 15 anos, não haveria espaço para a medicina privada, para essa avalanche de hospitais privados e o interesse dos fundos de investimento na área' (foto: Arquivo pessoal)
 São Paulo — Henrique Prata não se formou em medicina ou administração de empresas. Na verdade, não chegou a fazer curso superior. Mas sua trajetória à frente do Hospital de Amor, antigo Hospital do Câncer de Barretos, no interior paulista, mostra que a vida universitária não lhe fez falta.

Depois de três décadas desde que assumiu a direção da instituição de saúde, o “caipira”, como gosta de dizer em uma autorreferência, fez uma espécie de milagre da multiplicação no atendimento de saúde. Além da unidade-mãe, pertencente à Fundação Pio XII, criada por seus pais, hoje ele administra mais seis hospitais e nove clínicas, postos avançados de atendimento instalados em carretas.

A prioridade é o atendimento público, cuja remuneração é atribuição do governo federal por meio da chamada tabela SUS (Sistema Único de Saúde). A principal queixa de Prata é a falta de correção do valor dos procedimentos nos últimos 15 anos. A defasagem tornou a situação insustentável, diz.

Por isso, são as doações privadas, como o robô da Vinci, cedido pela Cutrale, e também algumas públicas, como as que foram feitas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), resultante de multas aplicadas em empresas, além de emendas parlamentares pontuais, que ajudam a equilibrar as contas.

Mas é essa dificuldade em fazer cada vez com menos que tem sido aliada de Prata na expansão das unidades de saúde administradas pelo presidente do Hospital de Amor. Prata abriu ainda uma unidade de ensino que oferece pós-graduação em oncologia.

Público e privado


Para o gestor, esse quadro cria um ambiente desleal de competição com os hospitais privados. “Quando um concorrente tem a receita congelada por 10, 15 anos, ele quebra”. Segundo Prata, o SUS pagava 60% do valor do procedimento médico-hospitalar em 2010 e hoje essa remuneração caiu para 30% por conta do efeito da inflação e o congelamento da tabela.

“Dizem que estão fazendo outros repasses para os hospitais, mas são de cunho político, como Ambulatório Médico de Especialidades (AME) e a Unidade Básica de Saúde (UBS). Não estão entendendo que assim vão matar a galinha dos ovos de ouro ao não corrigir a tabela e recompor os repasses do SUS”, explica.

De acordo com Prata, se o serviço público não tem eficiência, quem precisa de atendimento do SUS vai pagar pelo serviço. Isso alimenta duas situações. Uma delas é o comportamento de muitos médicos contratados para fazer o atendimento remoto ao SUS e que, segundo ele, cobram uma parte do procedimento feito no hospital público.

Essa situação descrita por Prata tem levado a uma proliferação de clínicas populares. “Quem fizer uma medicina intermediária vai ganhar dinheiro que nem água. O médico trabalha sem estímulo, sem dignidade. Queira ou não, o SUS seria o plano melhor desenhado no mundo em assistência. Se a correção da tabela do SUS tivesse sido feita nos últimos 15 anos, não haveria espaço para a medicina privada, para essa avalanche de hospitais privados e o interesse dos fundos de investimento na área. A saúde virou um mercado que caiu de bandeja na mão deles”, analisa.


A caminho de Brasília 


Por tentar resolver essa questão, agora a briga de Prata será com o novo governo e os novos integrantes da Câmara dos Deputados e do Senado. O presidente do Hospital de Amor pretende fazer um corpo a corpo em Brasília para tentar incluir na Constituição a obrigação de o governo corrigir a tabela do SUS.

“A Constituição garante o acesso universal à saúde sem que seja garantida a remuneração do mínimo necessário; então é uma mentira que a saúde é para todos. Se fosse cumprida a política de remuneração pelo SUS, o serviço público do Brasil taparia a boca de qualquer país no que diz respeito á saúde. O fato é que o governo acha bom ver o povo migrando para a saúde privada”, afirma.

Prata defende ainda que se discuta o fim da prerrogativa dos médicos do sistema público de atenderem remotamente. “Tem de tirar as benesses na lei que não asseguram o atendimento presencial dos médicos. (O presidente Jair) Bolsonaro estaria morto sem o atendimento presencial feito na Santa Casa de Juiz de Fora.”

Como gestor na área hospitalar, Prata não briga apenas por melhores repasses do governo e a presença dos médicos nas unidades de atendimento. A essência no desempenho das unidades de saúde sob sua administração está na forma como os pacientes são tratados. Ele diz que no ambiente hospitalar há muitas questões políticas e pressões classistas.

“A diferença na gestão que fazemos é que todo mundo é tratado igual. Mantenho longe esses interesses, por isso esse valor vai impregnando os servidores e motiva o atendimento a partir da satisfação do usuário”, explica Henrique Prata.

Entrevista com Henrique Prata


A experiência na gestão hospitalar levou Henrique Prata a ser um dos nomes cogitados para assumir o Ministério da Saúde no governo de Jair Bolsonaro (PSL/RJ). A especulação não se confirmou e houve quem interpretasse a decisão do presidente como uma retaliação ao fato de o presidente do Hospital de Amor ter dado entrevista naquela época como se já tivesse sido confirmado no cargo. Ele conta como seu nome chegou à lista dos pré-ministros e depois desapareceu.

O senhor foi cogitado para assumir o cargo de ministro da Saúde. O que aconteceu?

O Capitão Augusto (deputado do PR/SP), que foi braço direito da campanha do presidente Bolsonaro, foi até a Festa do Peão de Barreto, pouco antes de o candidato chegar. Segundo ele, o comitê da campanha disse que o Ministério da Saúde não teria nem médico, nem político, mas alguém com um perfil técnico.

Como foi o contato com Bolsonaro?

Quando chegou, Bolsonaro não falou nada, aproveitei para falar que queria uma mudança radical nos valores do país. Em cinco minutos, vomitei tudo isso. Carrego essa angústia de trabalhar há 30 anos com o SUS. Hoje, com a competência que tenho desse tempo na área, preciso colocar o dedo na ferida e alertar para o que está acontecendo, doa a quem doer. Coloquei para ele que apontaria todas as mudanças necessárias, independentemente de qual fosse o meu papel.


Mas por que a sondagem não se confirmou?

Quando dei entrevista para o Valor, disse que a primeira coisa que faria seria tirar as benesses da medicina privada. No momento em que o país precisa de conciliação, não tenho a habilidade de esconder o jogo que eu jogo. Eu não agregaria muito no governo porque muitos não gostariam das atitudes que teriam de ser tomadas. Não faço ação de estratégia política. De um lado, seria a oportunidade de fazer algo maior para o país inteiro, mas tinha o lado da vaidade, talvez até pudesse me contaminar. Tem um papel maior na gestão, que é poder ajudar.


O senhor cogita ampliar ainda mais a atual rede ou transformar seu modelo de gestão em uma espécie de franquia?

Seria até um sonho poder passar a minha experiencia. Tenho contribuído com centenas de pessoas hoje na gestão da saúde pública, que não sabiam como leigos poderiam salvar vidas fazendo uma medicina honesta e igual para todos. Eu me sinto um médico diferente, mesmo como leigo.

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