Publicidade

Correio Braziliense

Bolsonaro reforça China como principal parceiro comercial do país

Presidente deu as declarações durante live transmitida ontem, às vésperas de sua visita aos EUA. Ao Correio, economistas repercutem as falas do Chefe de Estado


postado em 16/03/2019 13:52 / atualizado em 16/03/2019 13:52

Bolsonaro durante cerimônia com o embaixador da China, Yang Wanming(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Bolsonaro durante cerimônia com o embaixador da China, Yang Wanming (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Às vésperas de sua viagem aos Estados Unidos, aonde reúne-se com presidente dos EUA, Donald Trump, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que, em termos de relações comerciais, a China é a “grande parceira” do Brasil, enquanto que a economia norte-americana assume a segunda posição. O tema foi abordado durante a live que Bolsonaro fez, em sua página no Facebook, na noite de quinta-feira (14/03). Bolsonaro ainda confirmou, durante a transmissão, que visitará o país asiático no segundo semestre deste ano. As declarações do presidente ocorrem em meio à guerra comercial travada entre as duas principais economias mundiais. 

Em 2018, o Brasil beneficiou-se do confronto econômico entre as duas potências, após a China ter sobretaxado produtos agrícolas oriundos dos EUA. Com isso, na época, a exportação de soja do Brasil, ao país asiático, aumentou consideravelmente. No entanto, neste ano, diante do avanço nas negociações para o fim do conflito, o Brasil, que foi beneficiado no ano anterior, deve sofrer revés. Recentemente, a China vem se comprometendo, com os EUA, a voltar a comprar a commoditie norte-americana, em um movimento que deve sinalizar a iminência do fim do confronto entre os dois países. 

De acordo com dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), a China foi o principal destino das exportações brasileiras em 2018, somando US$ 64,2 bilhões em produtos exportados, com destaque para a soja, que, no ano, representou 43% (US$ 27,34 bilhões) de todos os produtos exportados. Já os EUA, no mesmo período, ocuparam a segunda posição em relação a produtos exportados, destacando-se a exportação de aeronaves (6,8%), totalizando US$1,94 bilhão.

Na visão de José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), as falas de Bolsonaro reforçaram o elo comercial entre Brasil e China. “O que ele falou é verdade. Está sinalizando tendências mundiais em níveis de commodities, Gostando ou não, a China tem um peso considerável e é o nosso principal parceiro comercial. No entanto, hoje, 98% do que o país compra do Brasil são commodities. Quem sabe, amanhã poderemos negociar, com a China, a compra de produtos manufaturados. É um mercado potencial. Mas, antes de tudo, precisamos reduzir nosso ‘Custo Brasil’, o qual hoje, gira em torno de 30% do que produzimos”, explicou.

Ainda de acordo com Castro, um possível desfecho da guerra comercial entre EUA e China já impacta a exportação da soja brasileira para o país asiático. “O Brasil não só perde em termos quantitativos, como também em termos monetários. Essas negociações entre os dois países podem condicionar a China a comprar mais commodities, e, com isso, deixar o mercado brasileiro em um nível mais baixo”, completou. Já na visão do economista César Bergo, por tratar-se da principal pauta comercial do Brasil, a China deveria ser o destino do primeiro encontro bilateral do Chefe do Estado.

“Na minha visão, Bolsonaro deveria, primeiramente, visitar a China, antes dos Estados Unidos. A China, apesar de ter aspectos de uma economia emergente, mas que cresce cerca de 6,5% ao ano, integra, juntamente com o Brasil, os BRICS (grupo político de cooperação composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e é o nosso principal parceiro comercial. O posicionamento geopolítico do Brasil, no mundo, se alinha mais à China que aos Estados Unidos”, analisou. 

No entanto, segundo Bergo, pesa, entre os fatores de escolha para visita aos EUA, a força da economia norte-americana, além da proximidade ideológica entre Bolsonaro e Trump. O Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano, em 2018, foi de 2,9%, surpreendendo o mercado, que estimava um avanço menor. “Não se pode ficar fora dos Estados Unidos, a começar pelo tamanho de sua economia. A expectativa é que as relações entre os dois países sejam fortalecidas. Anteriormente, por meio das políticas anteriores, as tratativas entre os dois países foram afetadas, e é importante um resgate. Vejo com bons olhos”, finalizou. 

Mauro Rochlin, professor de MBAs da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que, apesar da declaração óbvia do presidente, a China visa obter presença em mercados não convencionais. “A China tem toda essa importância pelo fato de que, em um primeiro momento, que já não é de hoje, buscar estar presentes em mercados não tradicionais, como África, América Latina, tanto como importadora, como também pelo investimento estrangeiro direto”, contextualizou.

De acordo com ele, o Brasil, que recentemente ocupou o espaço vago pelos EUA no que tange a exportação de commodities, como a soja, em decorrência da sobretaxa do produto, deve criar políticas que aperfeiçoem suas relações comerciais. “Os Estados Unidos sobretaxaram os produtos chineses, e houve uma retaliação. Nessa conjuntura, houve um favorecimento ao Brasil, mas acho que são ganhos pontuais. A longo prazo, ao pensarmos em maximizar receitas, que não seja por fatos fortuitos como esse”, disse, explicando que um eventual acordo do fim do confronto tarifário pode interromper as exportações, em recorde, da soja brasileira ao país asiático. 
 
*Estagiário sob supervisão de Anderson Costolli

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade