Publicidade

Correio Braziliense

Venda de 12 aeroportos em leilão atinge ágio médio de 1.000%

Leilão em bloco de 12 terminais no Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste rende ao governo R$ 2,38 bilhões. Modelo de venda permite a oferta de unidades mais atrativas com outras nem tanto. Governo estima investimento de R$ 3,5 bilhões nesses empreendimentos


postado em 16/03/2019 07:00 / atualizado em 15/03/2019 23:34

(foto: Marcio Fernandes/AE)
(foto: Marcio Fernandes/AE)
Em leilão “surpreendente”, segundo analistas, o governo federal conseguiu arrecadar R$ 2,38 bilhões com a concessão de 12 aeroportos da Infraero. Chamou a atenção dos especialistas o ágio médio — a diferença entre os valores mínimos exigidos para os lances e as quantias ofertadas pelas empresas — que foi de 986%. Regras mais atrativas e maior confiança na economia do país foram pontos fundamentais para atrair os investimentos.

Este foi o primeiro leilão “filé com osso” realizado pelo país. Na prática, este modelo permitiu ao governo ofertar terminais em blocos regionais, misturando os aeroportos mais atrativos e outros nem tanto. Os vencedores terão que administrar todos aqueles que foram arrematados por 30 anos. A estimativa do governo é de que, neste período, outros R$ 3,5 bilhões sejam investidos nesses empreendimentos.

O bloco Nordeste obteve o maior lance, de R$ 1,9 bilhão, sendo que o valor mínimo estabelecido era de R$ 171 milhões. O ágio registrou mais de 1.101% e a empresa espanhola Aena Desarrolo Internacional comandará os terminais de Recife, Maceió, João Pessoa, Aracaju, Juazeiro do Norte (CE) e Campina Grande (PB).
 
 
 
O principal destaque, porém, foi o ágio de 4.739% do bloco Centro-Oeste, conquistado pelo consórcio Aeroeste, que é formado pela Socicam, conhecida por administrar o terminal rodoviário do Tietê, em São Paulo, e Sinart Sociedade Nacional de Apoio Rodoviário e Turístico. O lance mínimo era de R$ 800 mil, mas o grupo investiu R$ 40 milhões. A oferta envolvia os aeroportos de Cuiabá, Sinop, Rondonópolis e Alta Floresta, todos em Mato Grosso.

Para completar o domínio das empresas estrangeiras, a Zurich Airport, da Suíça, arrematou os terminais de Vitória e Macaé (RJ) por R$ 437 milhões. O lance mínimo era de R$ 46,9 milhões e o ágio atingiu 830%. O presidente da Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústria de Base (Abdib), Venilton Tadini, classificou o leilão como um sucesso. Para ele, o resultado é fruto de um processo de preparação que envolveu diálogo entre autoridades públicas, empresas e instituições. “Dessa forma, foi possível compartilhar percepções do setor privado a respeito de regras e mecanismos e adotar melhores práticas com objetivo de melhorar a atratividade dos projetos, reduzir e alocar riscos de forma mais eficiente, aumentar a concorrência e auferir os melhores resultados para todas as partes envolvidas”, defendeu.

Investimento


O especialista e advogado Miguel Neto destacou que o resultado foi surpreendente, porque não se imaginava que o ágio médio do leilão seria de quase 1.000%. “Isso demonstra um grande interesse no Brasil. As pessoas que realizam os investimentos de longo prazo estão vendo com chance melhora da economia para realizar estes investimentos”, afirmou.

Para o advogado Paulo Dantas, sócio do escritório Castro Barros, o ágio de mais de 4.500% da espanhola Aena não estava previsto, e traz uma imagem positiva para o Brasil. “Todos os lances de início foram altos. Quando foi para a sessão de competição, foi bastante disputado e terminou com a grupo fazendo um grande lance. Foi realmente impressionante”, avalia o especialista.

O presidente da Abdib acredita ainda que a qualidade na prestação dos serviços desses aeroportos será “bastante melhorada” e a população certamente vai reconhecer o esforço. “Como tem ocorrido com os aeroportos concedidos anteriormente”, afirmou Tadini. Cada bloco tem potencial econômico diferenciado, segundo analistas. Enquanto o bloco Nordeste é atrativo pelo turismo, o Sudeste e o Centro-Oeste são voltados para a exploração de óleo e gás e agronegócio, respectivamente.

Blocos


João Santana, especialista em gestão de infraestrutura, destacou que o país tem ativos baratos e, dependendo da forma como o governo organizar, sempre haverá interesse para investir. “Acho que o resultado também tem a ver com razões que transcendem o mercado, como o interesse das empresas em aumentar a rede de aeroportos no mundo e mostrar um crescimento do negócio”, ponderou.

De acordo com os analistas, o modelo de leilão em blocos, que estreou no setor ontem, funcionou e deve ser implementado em concessões futuras. “Deu certo. A divisão das regiões foi bom porque traz massa crítica para os investimentos, volume e sinergia de operação. As empresas estão apostando na aviação do país”, destacou.

 
Joias da coroa ficam para o fim

 
Os aeroportos de Congonhas (SP) e Santos Dumont (RJ) ficarão para a última rodada de leilão, segundo ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas. “Temos três blocos: Norte, Central e Sul, com aeroportos importantes. Congonhas e Santos Dumont vão ficar para sétima e última rodada, por serem aeroportos muito importantes”, afirmou. Ele anunciou também para a próxima segunda-feira, o lançamento do chamamento de estudo para o leilão de mais 21 aeroportos no país, que farão parte da sexta rodada do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI).

Freitas chamou a atenção para a natureza dos players que se apresentaram no certame desta sexta. “Agora temos operadores aeroportuários importantes. Cada vez mais players chegando. Não nos preocupa aeroportos com menos movimento. Temos uma maximização das possibilidades com esse arranjo em blocos”, reforçando que o foco do processo é a prestação de serviço de qualidade.

Presente ao leilão, Adalberto Santos de Vasconcelos, secretário especial da Secretaria do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), avalia que três fatores importantes contribuíram para seu sucesso. “Antes o governo permitia que você dividisse o ágio em parcelas, agora o pagamento é à vista, o que protege a execução do plano estratégico. A distribuição do investimento de acordo com a demanda e o compartilhamento do risco de demanda também tornaram o processo mais atraente”, disse. 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade