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Correio Braziliense

Nova presidente da Bibi espera superar a crise do país e aumentar as vendas

Andrea Kohlrausch, gaúcha de 42 anos, assume a gestão da empresa de calçados infantis que está em 3,5 mil pontos de venda e é exportada para 70 países


postado em 15/04/2019 06:00

(foto: Luize Silva/Divulgação)
(foto: Luize Silva/Divulgação)
 

São Paulo — A partir do dia 25, começa o mandato de Andrea Kohlrausch, gaúcha de 42 anos, como presidente da empresa de calçados infantis Bibi. A marca está em 3.500 pontos de venda, é exportada para 70 países (nos cinco continentes) e tem uma rede de franquias com 110 unidades. Faturou, no ano passado, R$ 115 milhões e prevê chegar a R$ 144 milhões em 2019.

Por ano, são fabricados, nas unidades de Parobé (RS) e Cruz das Almas (BA), em torno de 2 milhões de pares de calçados, ou quase quatro por minuto.

Filha do atual presidente, Marlin Kohlrausch, no comando do negócio há 30 anos, Andrea não viu o cargo cair no colo, como os desavisados podem supor. Ao longo de sete anos, ela fez parte de um processo de sucessão e de profissionalização da empresa e disputou o cargo com outros três executivos.

Nesse período, foi preciso se preparar muito. A executiva tem MBA em gestão empresarial pela Fundação Dom Cabral, especialização em liderança pela FDC/Kellogg School of Management, em Evanston (EUA), participação do Instituto de Estudos Empresariais (IEE) e experiência na área internacional, já que foi responsável por implantar a área comercial de exportação na Bibi e conseguiu expandir as vendas internacionais para além da América Latina.

Também foi Andrea quem encabeçou a estruturação da divisão de franchising da Bibi, que hoje está em 62 cidades, espalhadas por 23 estados, além das unidades no Peru e na Bolívia. No meio de todo esse processo de sucessão na companhia, Andrea decidiu que era o momento de ter um segundo filho. Augusto, o caçula, já está com 2 anos, e Luiza, a mais velha, tem 9. “Quando trabalhávamos nos planos de desenvolvimento na empresa, lá atrás, cada um tinha de pensar quais eram seus sonhos. O meu desejo era ter mais um filho e não queria chegar aos 50 anos frustrada, sem realizar esse plano. Mas isso não se tornou um empecilho no meio desse processo de preparação até ser eleita para assumir a companhia. Hoje, conto com uma rede de apoio muito importante e um marido que é um superparceiro”, relata.

Agora, Andrea corre para fazer os últimos ajustes antes de ocupar a cadeira da presidência da Bibi. A posse será no dia 25, quando a companhia completa 70 anos.

Você assume a direção da empresa em um momento de dificuldades na economia. Como pretende descolar o desempenho da empresa do baixo crescimento do país?

Pretendemos trabalhar mais em ações de fortalecimento da marca, de integração de canais, de segmentos e projetos de transformação. Nosso foco será na avaliação de como trabalhar melhor o mercado. Hoje, temos três unidades no Peru e uma, na Bolívia, queremos chegar a 10 até o fim do ano. Parte desse processo passará pelo investimento em inovação e na avaliação dos processos internos. Sei que a economia ainda não está supercompradora, por isso, será preciso adotar ações para puxar a demanda. Será preciso avaliar linha a linha. Em algumas, vamos conseguir trazer produtos com preços melhores. Em outras, esperamos trazer alguns produtos mais competitivos.

O que é possível esperar do novo governo para que a economia brasileira volte a crescer?

Estou na expectativa de que ocorram as reformas. A da previdência é a mais urgente. Aprovada, devem ocorrer grandes investimentos no país nos próximos anos, o que seria muito positivo. A promessa na eleição era que ocorressem todas essas reformas, mas saímos da fase de campanha e estamos à espera da prática. Vejo as reformas como positivas para gerar mais empregos e atrair mais recursos.

Como foi o início do processo de sucessão na Bibi?

A empresa vai completar 70 anos em 25 de abril. Há cerca de sete anos, começou a ser discutida como a sucessão ocorreria. Somos uma companhia que está na terceira geração e tem duas famílias no negócio. Meu pai nos provocou dizendo que começaria a desenvolver o processo de governança, porque gostaria de sair do dia a dia da operação. Eu e mais três pessoas começamos a ser preparadas, com um plano de desenvolvimento, com consultorias individuais, com um acordo de acionistas e pautadas por um processo de governança. Foram constituídos o conselho de administração e o conselho de família.

Como foi a sua preparação?

Fiz alguns cursos e, no fim do ano passado, em novembro, foi definida a sucessão. Recebi o cargo por um determinado período e terei de passar por avaliações do conselho. Tentamos profissionalizar ao máximo todo esse planejamento. Não houve desgastes, porque já estava acordado que quem fosse escolhido teria o apoio dos demais. Em novembro, fui anunciada como a pessoa escolhida para o cargo. Mas, antes, ao longo do processo, foram testados outros profissionais da área comercial, para que pudesse ser feita avaliação dos perfis antes de ser tomada a decisão.

É muito difícil lidar com as opiniões contrárias a um processo de sucessão familiar?

A empresa tem uma cultura própria e quer que seja preservada. No processo, essa decisão sobre promover a sucessão familiar foi questionada, assim como a análise sobre quem teria condições de assumir a presidência, se os profissionais da própria casa ou de fora. Se na época não tivesse alguém com o perfil certo, teria sido colocado alguém do mercado. Mas, naquele momento, se identificou que tinha quem pudesse assumir o negócio, levando em consideração o seu futuro. Pelos quadros que a companhia tinha, seria possível escolher um bom sucessor.

Agora, a companhia passa a ter uma mulher no comando. Você já enfrentou situações de preconceito de gênero?

Não enfrentei preconceito, felizmente. Trabalhei muito tempo na área de internacionalização, visitava países e feiras do setor. No geral, sempre fui tratada com respeito. Sempre agi de forma muito profissional. O que prometia, eu entregava. Até hoje, nunca foi um desafio o fato de ser mulher e fazer parte do desenvolvimento de um negócio.

Vender produtos para crianças é mais difícil do que para adultos?

Hoje, há mais regras quanto à publicidade infantil e seguimos o que é determinado. A marca está completando 11 anos com lojas, entre próprias e franqueadas, e já é a maior rede de calçados infantis do Brasil. Temos investido na evolução do portfólio, com produtos feitos para a criança ser criança. Preocupamo-nos em manter o DNA de conforto e adotamos regras rígidas quanto ao uso de matérias-primas, apesar da falta de legislação no Brasil. Na União Europeia, por exemplo, é exigido o uso de substâncias não tóxicas nesses produtos. Fizemos um trabalho ao longo dos anos, de desenvolvimento de toda a cadeia produtiva, para sermos hoje 100% livres de produtos tóxicos.

E como lidar com as mudanças de comportamento dos consumidores?

Outra característica que mantemos é que não há salto alto nos calçados da Bibi, apesar de algumas outras marcas oferecerem. Alguns clientes até procuram, mas acreditamos que criança tem de ser criança. Não vamos estimular o consumo desse tipo de produto, porque sabemos que ela está em crescimento e não vai fazer bem o salto alto. Nem tudo que é moda é o melhor para a criança. Por outro lado, acompanhamos as mudanças de comportamento e sabemos como nossos clientes se informam, seja pelo YouTube, seja por outros sites. Seguimos algumas tendências, sem abrir mão das nossas crenças.

Os calçados infantis brasileiros também são afetados pela concorrência chinesa, assim como ocorre com os modelos para adultos?

Não só produção chinesa, mas também sofre com a concorrência das grandes marcas que estão espalhadas pelo mundo. Mas isso faz parte do negócio. No Brasil, o problema é a concorrência desleal, seja com produtos contrabandeados, seja com aqueles que simplesmente não pagam impostos.

Muitos setores tradicionais da economia têm flertado com as startups para se aproximar do mundo da inovação. Isso chegou até a Bibi?

Sim, temos buscado desenvolver algumas parcerias, mas também estimulamos soluções internas, seja pelo nosso projeto “Ninho de Inovação”, seja com a colaboração de funcionários das lojas e de fornecedores. Temos um comitê de inovação, que se reúne todos os meses e discute o que é viável adotar. No ano passado, por exemplo, fizemos um teste-piloto com uma startup, com o uso de inteligência artificial, para a área de gestão de estoque. Desde o ano passado, estamos testando uma vending machine com nossos produtos em um shopping no Rio Grande do Sul. Procuramos, ainda, ter uma relação bem próxima com centros de tecnologia, associações de ortopedia e profissionais da área de educação física.

Qual é o país que você espera ,como empresária e como brasileira?

Espero um país mais seguro, mais ético, menos burocrático, com mais incentivo ao empreendedorismo. O brasileiro é muito criativo. Muitos trabalham na informalidade porque há muita burocracia. Com o desemprego no país, muitos foram para a informalidade. Minha torcida é por uma simplificação para que haja um incentivo maior ao empreendedorismo, com mais dinheiro circulando na economia e consumo para todos. É um país lindo, mas, independentemente da classe social, todos sofrem com a insegurança e a impunidade. Todo mundo paga a conta por não ter segurança.

"Espero um país mais seguro, mais ético, menos burocrático, com mais incentivo ao empreendedorismo”

"No Brasil, o problema é a concorrência desleal, seja com produtos contrabandeados seja com aqueles que simplesmente não pagam impostos”

"A promessa na eleição era que ocorressem todas essas reformas, mas saímos da fase de campanha e estamos à espera da prática”

 

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