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Correio Braziliense

Ipea: renda dos negros ainda é cerca de duas vezes menor que a dos brancos

Índice de Desenvolvimento Humano Municipal que avalia renda apontou, no entanto, leve diminuição entre a diferença de renda por raça


postado em 16/04/2019 11:39 / atualizado em 16/04/2019 11:41

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) que avalia a Renda dos brasileiros apontou diminuição na diferença entre os salários da população negra e da branca. Contudo, o estudo divulgado, nesta terça-feira (16/4), pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com a Fundação João Pinheiro e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) mostrou que os brancos ainda ganham cerca de duas vezes mais que os negros. A média é de R$ 1.144,76 mensais para brancos contra R$ 580,79 para os negros. 

A diferença quando se observa dados desagregados por cor e sexo diminuíram no período em questão. O IDHM da população branca caiu de 0,819 para 0,817, e o da população negra elevou-se de 0,728 para 0,732. De acordo com a pesquisa, o resultado foi possível pela melhoria em todos os quesitos analisados para os negros e a queda nas dimensões de Renda e Educação para os brancos. 

O IDHM do Brasil teve resultado praticamente estável. A movimentação do indicador foi de 0,776 para 0,778, entre 2016 e 2017.  Também foi observado pelo estudo uma queda de 0,92% no valor da renda per capita no mesmo intervalo de tempo. O índice passou de 0,748 para 0,747. 

Contudo, esse impacto é contrabalanceado pelas outras duas dimensões da pesquisa: o crescimento da esperança de vida, que foi de 75,72 anos para 75, 99 anos - que elevou o IDHM Longevidade de 0,845 para 0,850 - e a dimensão da educação, que aumentou de 0,739 para 0,742. O subíndice de Frequência Escolar também teve alta, ao passar de 0,792 para 0,797.

De acordo com o Coordenador do INCT em políticas públicas e desenvolvimento, Marco Aurélio Costa, é importante fazer ressalvas aos resultados em educação. Segundo ele, o dado mais sensível é o que mostra que menos de 60% dos jovens entre 18 e 20 anos concluíram o ensino médio. “É um dado preocupante. O jovem que saiu do ensino médio, fez mais de 18 anos, impactou o dado e fez reduzir essa dimensão como um todo”, explicou. 

Costa também explicou que o país ainda é muito desigual e que a concentração de renda pouco reduziu ao longo dos últimos anos. “É um país muito desigual, com renda muito concentrada”, disse. Ele também chamou atenção para a diferença do IDHM separado por sexo. Segundo Costa, por mais que os IDHMs que avaliam longevidade e educação para as mulheres sejam mais alto que o dos homens, o IDHM Renda para as mulheres é tão melhor que puxa a média geral do público feminino para baixo. 

Para a coordenadora da unidade de desenvolvimento da Pnud, Samantha Dotto Salve, a renda das mulheres ainda não compatível com o nível de estudo delas. “Isso é negativo até para a produtividade brasileira. Mulheres instruídas ficam longe da produção por conta dos afazeres fora do trabalho. Negros e brancos tiveram redução importante, mas ainda é um caminho longo para percorrer”, comentou.

De acordo com o diretor do FGV Social, Marcelo Neri, os indicadores mostram alguns problemas: uma pequena reversão na dimensão da renda e uma desaceleração na expectativa de vida. Apesar de observar o crescimento da esperança de vida, de 75,72 anos em 2016 para 75,99 anos em 2017, Marcelo chama atenção para a redução que acontece na comparação com números dos anos passados. De 2012 para 2013, a expectativa cresceu 0,32 (anos), de 2013 para 2014 o índice teve variação de 0,3. De 2015 para 2016, o crescimento caiu mais, apenas 0,28. Este ano, 0,27. 

“Nas três dimensões analisadas houveram tropeços. A expectativa de vida aumentou metade do que se crescia e teve uma grande desaceleração. Além disso, na dimensão econômica andamos para trás”, analisa Marcelo ao justificar o pequeno crescimento do índice. Os fatos destacados pelo pesquisador o fazem concluir que o estudo mostra “um estado de saturação do Brasil”. “Quando se tem aumento da expectativa de vida, é preciso fazer reformas na economia para desenvolver. Houve um avanço social sem um avanço econômico”, afirma.

Para ele, apesar de alguns avanços notados, o retrato nacional é preocupante devido a esta saturação observada. “O nosso modelo econômico teve vários avanços, mas chegou em um esgotamento, onde os avanços sociais estão sendo colocados em cheque”, conclui.

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