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Correio Braziliense

Índice de Desenvolvimento Humano se mantém estável no Brasil

Puxado pelo aumento da longevidade e pelos indicadores de educação, índice aferido nos municípios teve aumento discreto entre 2016 e 2017, mas revela queda na renda média. Houve uma pequena redução entre salários de negros e brancos


postado em 17/04/2019 06:00 / atualizado em 16/04/2019 23:55

Com o marido desempregado, Yara de Oliveira, à esquerda com a filha, tem trabalho até abril. Ana Carolina, com filho no colo, procura emprego (foto: Bruno Santa Rita/Esp. CB/D.A Press)
Com o marido desempregado, Yara de Oliveira, à esquerda com a filha, tem trabalho até abril. Ana Carolina, com filho no colo, procura emprego (foto: Bruno Santa Rita/Esp. CB/D.A Press)

O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) ficou estável entre 2016 e 2017. De acordo com estudo divulgado ontem pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com a Fundação João Pinheiro e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), houve um pequeno aumento no indicador,  que variou de 0,776 para 0,778, em uma escala de 0 a 1, puxado pelo aumento da longevidade e pela educação, que contrabalancearam o retrocesso na renda.

A longevidade média da população  passou de 74,52 anos, em 2012, para 75,99 anos, em 2017, elevando o índicec em 1,6% no período. A redução de 4% ao ano na mortalidade infantil contribuiu para o resultado na dimensão de longevidade. Em 2012, foram registrados 15,69 óbitos a cada mil nascidos vivos. Em 2017, o número caiu para 12,81.

Apesar do subíndice frequência escolar e escolaridade terem avançado, o acesso à educação ainda não é para todos. Em 2017, enquanto 96,7% das crianças de 5 a 6 anos estavam frequentando a escola e 93,2% das crianças de 11 a 13 anos chegavam ao  segundo ciclo do ensino fundamental, apenas 69,6% dos adolescentes de 15 a 17 anos tinham concluído o fundamental e 59,3% dos jovens de 18 a 20 anos tinham o ensino médio finalizado.

A queda na renda per capita da população foi de 0,92%. No período, houve redução de R$ 842,04 para R$ 834,31 na renda per capita. Ainda sobre a renda dos brasileiros, o estudo apontou uma discreta redução na diferença entre os salários da população negra e da branca. Mesmo assim, a análise do projeto mostrou que os brancos ainda ganham cerca de duas vezes mais que os negros. A média é de R$ 1.144,76 mensais para brancos contra R$ 580,79 para os negros. O IDHM da população branca caiu de 0,819 para 0,817, e o da população negra subiu de 0,728 para 0,732. De acordo com a pesquisa, o resultado foi possível pela melhoria em todos os quesitos analisados para os negros e pela  queda nas dimensões de Renda e Educação para os brancos.

Na avaliação do diretor de Estudos e Políticas Regionais  Urbanas e Ambientais do Ipea, Aristides Monteiro Neto, os dados mostram resiliência em relação à crise econômica. “Os indicadores da educação e de saúde são os que mais resistem, inclusive à queda monetária”, disse, o que atribui ao sucesso de políticas públicas.

Para o diretor do FGV Social, Marcelo Neri, os indicadores mostram alguns problemas: uma pequena reversão na dimensão da renda e uma desaceleração na expectativa de vida. Apesar de observar o crescimento da esperança de vida, de 75,72 anos em 2016 para 75,99 anos em 2017, Marcelo chama atenção para a redução que acontece na comparação com números dos anos passados. De 2012 para 2013, a expectativa cresceu 0,32 (anos), de 2013 para 2014 o índice teve variação de 0,3. De 2015 para 2016, o crescimento caiu mais, apenas 0,28. Este ano, 0,27.

O economista da FGV Social (Fundação Getúlio Vargas), e ex-presidente do Ipea, Marcelo Neri, vê saturação e afirma estar preocupado.  “A expectativa de vida aumentou metade do que se crescia e teve uma grande desaceleração. Além disso, na dimensão econômica andamos para trás”, analisa. “Quando há aumento da expectativa de vida, é preciso fazer reformas na economia. Houve avanço social sem avanço econômico”, disse. Para ele, “o  modelo econômico teve vários avanços, mas chegou a um esgotamento”.

DF tem uma das maiores desigualdades raciais


O Distrito Federal é um dos líderes em desigualdade racial, com resultado um pouco melhor do que Roraima e Rio Grande do Sul, no  Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). A diferença no indicador entre a população de brancos e a de negros no DF foi uma das maiores entre os estados brasileiros. Para a população negra, o IDHM distrital foi de 0,807 e para a  branca, 0,890. O estudo apontou que o DF, e outros 10 estados, tiveram resultados que caracterizaram a população branca na faixa de “muito alto desenvolvimento humano”, enquanto no restante do país, os brancos se mantiveram na faixa de “alto desenvolvimento humano”. Contudo, o DF foi o único onde a população negra atingiu o status de “muito alto desenvolvimento humano”.  Amapá e Rondônia registraram as menores diferenças entre negros e brancos.

O DF registrou a quinta maior queda no IDHM (-0,004). Mesmo assim, a capital ainda é a primeira Unidade da Federação (UF) no ranking de IDHM do Brasil, com 0,850 no índice equivalente ao ano de 2017.

A desigualdade revelada pelos dados atinge, entre outros, os moradores das periferias da capital. No Setor Santa Lúcia, na Cidade Estrutural, mora Ana Carolina dos Santos Chaves, de 17 anos. Ela veio do Piauí há dois anos com o marido, que recentemente ficou desempregado, e com uma filha de um ano e oito meses e lamenta estar parada em casa. “Eu queria arrumar alguma coisa para fazer. É muito ruim depender só do marido”, disse. Em busca de emprego, ela reclama da falta de oportunidade para menores de idade. “Eu até tenho quem fique com a neném, mas não contratam menores sem nenhum curso”, reclamou.

A auxiliar de cozinha Yara de Oliveira dos Santos, 25, também enfrenta uma situação difícil.  Com o marido desempregado, é ela quem sustenta a família de cinco pessoas com salário de R$ 1.016 reais. “O que eu ganho é só pra manter a despesa dentro de casa mesmo, como comida. Não sobra para mais nada”, contou a auxiliar, que faz a dupla jornada cuidando dos três filhos, Yarley de 8 anos, Yuly de 7 e Yany de 3.

O contrato de trabalho de Yara acaba este mês. Com a iminente situação de desemprego, ela já distribui currículos pela cidade. “Do jeito que as coisas estão, fica muito difícil. Eu tenho vários cursos, mas a gente procura, vai na agência do trabalhador e também não tem nada”. Sem perder o ânimo, ela acrescenta: “Qualquer coisa que pintar eu estou dentro, não posso ficar parada”. E reclama que todos os lugares onde procurou emprego a colocaram na fila de espera. “Sempre tem uma fila enorme de gente para ser contratada. Está realmente muito difícil de conseguir algo”, compartilhou. (B.SR, M.E.C e R.G*)

*Estagiária sob supervisão de Cláudia Dianni

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