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Correio Braziliense

Reajuste no preço do diesel acalma mercado, mas volatilidade deve continuar

Decisão da Petrobras de elevar o preço do combustível fez ações da estatal se valorizarem e Bolsa de Valores fechar em alta de 1,39%. Dólar seguiu na contramão e caiu 0,11%, mas continua próximo dos R$ 4


postado em 19/04/2019 07:00

(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

O nervosismo parece ter diminuído no mercado financeiro, mas as turbulências em relação ao diesel ainda devem esquentar as reuniões na Esplanada dos Ministérios. Segundo analistas, há dois riscos iminentes: a greve dos caminhoneiros e a possível alta no preço do petróleo no mercado internacional. Ontem, o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), voltou a subir, com alta de 1,39%, aos 95.578 pontos. O dólar, por sua vez, caiu 0,11%, cotado a R$ 3,928.

A calmaria no mercado ocorreu após a Petrobras anunciar a alta de R$ 0,10 no valor do diesel nas refinarias, impedindo que a estatal tivesse prejuízos com a manutenção do preço mais baixo. Tanto é que as ações ordinárias e preferenciais da empresa subiram 1,92% e 3,18%, respectivamente.

Mesmo que seja um movimento positivo para a Petrobras, os analistas ainda não descartam uma possível intervenção do governo federal nos preços. Isso porque há muita volatilidade no barril de petróleo no mercado internacional. Em setembro de 2018, por exemplo, o tipo brent ultrapassou US$ 80. Atualmente, circula próximo de US$ 72. Uma alta do produto obrigaria a estatal a elevar novamente o custo, o que poderia fortalecer o movimento dos caminhoneiros.

Além disso, o dólar também pode sofrer volatilidades fortes, principalmente por conta da reforma da Previdência (leia a matéria abaixo). Uma mudança forte no texto provocaria reações negativas para o real, elevando a moeda norte-americana. Essa possível alta impactaria no preço dos combustíveis. Adriano Pires, sócio-fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), explicou que o reajuste da Petrobras, anunciado na última quarta, ajuda a normalizar os ânimos no curto prazo, mas ainda não há calmaria entre os caminhoneiros.

Estratégia

Para ele, o governo federal não anunciou as medidas corretas para evitar, de vez, uma possível paralisação. “Teremos que torcer, porque esses últimos anúncios foram mais um ‘até a próxima crise’ do que algo para cessar o problema. Se o preço do diesel continuar subindo no mercado internacional, o governo não vai intervir? Acho difícil”, afirmou Pires. “É preciso ter uma solução diferenciada, como um imposto flex, que fica caro quando o petróleo está barato e barato, quando o petróleo está caro. Ou então um fundo que estabiliza o preço. As duas medidas teriam a mesma função. E o governo precisa começar a estudar isso, porque senão fica refém do mercado internacional”, completou o especialista. Guedes convocou a equipe para estudar ações para evitar altas do diesel.

O economista e diretor da Mirae Asset, Pablo Spyer, ressaltou que o mercado ficará em compasso de espera. “Houve um ajuste em relação ao que ocorreu com a Petrobras. O reajuste do diesel foi uma boa decisão estratégica, porque mostra que a empresa é independente”, destacou.

Segundo analistas, separar a estatal do governo federal é essencial para atrair investimentos. Mas tal autonomia não é defendida por parte dos caminhoneiros. A ala radical do grupo se prepara para realizar uma nova paralisação. A última ocorreu em maio e em junho de 2018, provocando um grande impacto na economia. O Produto Interno Bruto (PIB) ficou menor do que o previsto e a inflação acelerou.

Apreensão

O ministro da Economia, Paulo Guedes, insinuou que o presidente Jair Bolsonaro tem se questionado sobre uma possível privatização da Petrobras. “Se o preço do petróleo sobe no mundo inteiro e não tem nenhum caminhoneiro parando no Trump (presidente dos Estados Unidos), não tem nenhum caminhoneiro parando na Merkel (chanceler da Alemanha), não tem nenhum caminhoneiro na porta do Macron (presidente da França), será que tem um problema aqui?”, questionou, em entrevista à Globonews.

Para a próxima semana, os investidores deverão reagir com cautela em relação à reforma da Previdência, diante das negociações para modificar o texto. O economista Pablo Spyer disse que é um momento de apreensão. “Na minha avaliação, o mercado não viu com muito bons olhos o fato de Guedes dizer que aceitará mudanças no texto. O cenário está deixando claro que o atraso é forte diante de uma atividade que segue fraca. No momento, tudo o que interessa é quando será aprovada”, afirmou.

O desaquecimento da economia global também está no radar. Os indicadores divulgados da zona do euro vieram piores do que o estimado.

 

(foto: Editoria de Arte/CB/D.A Press)
(foto: Editoria de Arte/CB/D.A Press)
 

Mudança já na CCJ mostra fragilidade 

A sinalização de que o governo federal vai realizar mudanças na reforma da Previdência ainda na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) divide analistas. De um lado, o movimento visa dar celeridade à aprovação da proposta, o que é positivo, na avaliação do mercado. Por outro, economistas acreditam que a articulação do governo está tão fraca que é provável que o texto seja desidratado mais do que o esperado.

Isso porque modificar a matéria antes da comissão especial demonstra fragilidade nas negociações entre o Palácio do Planalto e o Congresso. Em tese, estava acertado que qualquer alteração não seria feita na CCJ, que faria apenas a análise de constitucionalidade. A economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, afirmou que a sinalização é negativa. “O governo está tendo que ceder na CCJ, pois o calendário corre contra ele e, por não possuir uma articulação experiente, fica sujeito às demandas e ameaças da suposta base de apoio”, disse. O abono salarial, por exemplo, representa 10% da economia total da reforma. É muito dinheiro para ser colocado como possível mudança nessa etapa do processo”, completou. O governo nega querer mudar o tema, porém.

Entre outras mudanças, está a proposta para o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). O projeto do governo libera as empresas de fazerem depósitos e acaba com o pagamento de multa de 40% no caso de demissão de trabalhadores já aposentados. O governo também estaria disposto a suprimir a exclusividade do Executivo de propor alterações nas regras previdenciárias e a possibilidade de que mudanças na aposentadoria compulsória sejam feitas por lei complementar, não mais por PEC.

Articulação

O cientista político Cristiano Noronha, analista da Arko Advice, afirmou que as mudanças na CCJ mostram que há problema de articulação e na relação do Executivo com o Legislativo. “Pela quantidade de pessoas que se dispõe a defender a reforma, na CCJ, o número de deputados que se manifestam de forma contrária é visivelmente maior”, defendeu. “Quanto mais aspectos forem retirados na CCJ, pior para o governo. O mercado já considera que mudanças no Benefício de Prestação Continuada (BPC) e aposentadoria rural não irão acontecer. Ao meu ver, o governo entra na comissão especial sabendo que vai ter que fazer mais concessões e negociar”, completou.

 

A líder do governo no Congresso, Joice Hasselman (PSL-SP), declarou que o presidente Jair Bolsonaro está disposto a negociar mudanças na Previdência, desde que seja mantida a economia de R$ 1 trilhão em 10 anos. “Desde a apresentação da proposta, a gente está pronto a fazer concessões, sim. O que nós temos pedido é que os parlamentares tenham a sensibilidade de não mexer na espinha dorsal, que é o R$ 1 trilhão”, alegou. “Quer mexer no BPC, mexe. Quer mexer na aposentadoria rural, mexe. A questão é preservar a economia de R$ 1 trilhão”, enfatizou.  

 

Caminhoneiros ameaçam parar

 

O representante dos caminhoneiros Wanderlei Alves, conhecido como Dedéco, disse ontem que a categoria iniciará uma paralisação a partir da meia-noite do dia 29 de abril. “A maioria dos grupos de caminhoneiros já decidiu pelo dia 29 de abril, tem uns ou outros que acham que é pouco tempo, que devemos esperar ainda, mas chegamos  a um ponto em que não temos mais condições de trabalhar”, disse. Segundo ele, os caminhoneiros decidiram antecipar a paralisação, anteriormente prevista para 21 de maio, em razão da nova alta do diesel. O líder do Comando Nacional do Transporte (CNT), Ivar Schmidt, no entanto, acredita que é cedo para uma paralisação. “Existe a percepção de que o governo atual é muito recente e ainda não teve tempo de trazer uma solução, mas, se tiver mais dois reajustes. haverá motivo para uma nova greve”, afirmou.

 

*Estagiária sob supervisão de Rozane Oliveira 

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