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Correio Braziliense

Mão de obra subutilizada bate recorde e atinge 28,3 milhões de brasileiros

O desemprego cresceu em 14 dos 27 estados do país, no primeiro trimestre de 2019


postado em 17/05/2019 06:00

(foto: Caio Gomez/CB/D.A Press)
(foto: Caio Gomez/CB/D.A Press)


O desemprego cresceu em 14 dos 27 estados do país, no primeiro trimestre de 2019. No Brasil, a taxa de desocupação no período foi de 12,7%, 1,1 ponto percentual acima do trimestre anterior (11,6%) e 0,4 ponto percentual abaixo do primeiro trimestre de 2018 (13,1%). Na prática, significa que, ao todo, são 13,4 milhões de pessoas estão sem ocupação. Se forem incluídas aquelas que gostariam de trabalhar, mas não procuraram emprego (força de trabalho potencial), o número sobe para 21,6 milhões de trabalhadores fora do mercado, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad-Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A taxa de desemprego não foi uniforme. A desocupação foi maior no Amapá (20,2%) e menor em Santa Catarina (7,2%). Ainda de acordo com o IBGE, no primeiro trimestre de 2019, a taxa de subutilização da força de trabalho (desocupados, subocupados por insuficiência de horas trabalhadas e na força de trabalho potencial) foi recorde, chegando a 25%, e atingiu 28,3 milhões de pessoas, a maioria delas no Piauí (41,6%), Maranhão (41,1%) e Bahia (40,4%).

O percentual de desalentados, de 4,4% da força de trabalho, também foi recorde. Nos primeiros três meses de 2019, 4,8 milhões de pessoas de 14 anos ou mais estavam nessa condição. Os maiores contingentes estão na Bahia (768 mil pessoas) e no Maranhão (561 mil) e os menores em Roraima (8 mil) e no Amapá (15 mil). Apenas 74,7% dos empregados do setor privado tinham carteira de trabalho assinada. O restante, ou seja, os 11,1 milhões, não estavam formalizados. Em relação ao tempo de procura, no Brasil, 45,4% dos desocupados estavam de um mês a menos de um ano em busca de trabalho; 24,8%, há dois anos ou mais; 15,7%, há menos de um mês; e 14,1% de um ano a menos de dois anos.

Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, chamou atenção para o futuro incerto dos que demoram para encontrar uma vaga. “Dos 13 milhões de desempregados, um quarto procura emprego há mais de dois anos. Eles vão perdendo a qualificação e o contato com as pessoas do mercado de trabalho, porque seu conhecimento se torna obsoleto. A saída, às vezes, é a informalidade. Isso acaba criando um círculo vicioso no mercado”, destacou.

Nos três primeiros meses do ano, o rendimento médio real mensal dos trabalhadores não se alterou. Foi estimado em R$ 2.291, estável no confronto com o último trimestre de 2018 (R$ 2.276) e na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior (R$ 2.259). Entre os jovens, 27,3% com idade de trabalhar estavam desempregados. E 63,9% dos desempregados eram pretos e pardos. As mulheres se mantiveram como a maior parte da população fora da força de trabalho no país (64,6%).

O avanço da desocupação, do desalento e do subemprego no país é uma realidade que se arrasta há alguns anos e sem perspectiva de mudança no curto prazo. De acordo com o economista Geraldo Biasoto Junior, professor do Instituto de Economia da Unicamp, enquanto o governo se concentra em uma reforma da Previdência que poderá não sair do tamanho que a equipe econômica deseja, o movimento mais importante para o país sair do caos não avança. “É claro de a reforma da Previdência é importante para cortar gastos, mas é com a reforma tributária que o Brasil vai se fortalecer e crescer”, disse.

Biasoto lembra que todos os setores dinâmicos e intensivos em emprego estão com sérios problemas. “A Petrobras ainda está mal das perdas, as grandes obras públicas estão paralisadas, as construtoras estão falidas e o setor automobilístico está demitindo. É uma situação seriíssima”, lamentou. Aliado a tudo isso, o mundo passa por uma nova revolução com a indústria 4.0 (tecnologias para automação). “É preciso estruturar o trabalho, explorar novas atividades e criar modernas políticas de desenvolvimento. Sem isso, o nível de emprego vai continuar patinando”, enfatizou.

Experiência


Mesmo fluente nos idiomas inglês, francês e alemão, a estudante de línguas estrangeiras aplicadas Maria Emília Gonçalves Cunha, 19 anos, não conseguiu emprego. Apesar de qualificada, ela ainda acha que, para impressionar um eventual empregador, precisa de mais atributos. “Tenho uma amiga, com a minha idade, mas com experiência. O fato de já ter trabalhado a ajudou muito”, contou. Enquanto aguarda oportunidade, Emília, que mora no Sol Nascente, faz trabalho voluntário em uma ONG, na Asa Norte. “Lidamos com intercâmbio e ajudamos outros jovens a estudar e trabalhar no exterior”, afirmou.

Anderson Henrique Vieira de Brito, 30, trabalhou na área de publicidade e está há três meses desempregado. Para sobreviver e sustentar família, saiu do Rio de Janeiro e veio tentar a vida em Brasília, onde também não encontrou a vaga que desejava. “Fiz concurso para agente penitenciário e fui aprovado. Tinha esperança de ser convocado logo, mas ainda não chamaram ninguém. A situação ficou complicada. Estou fazendo bico para ter um mínimo de dinheiro”, afirmou.

Marcelo da Silveira, 48, se afastou da empresa de fotografia onde trabalhava. De acordo com ele,  ficou desempregado duas vezes na vida: quanto saiu do serviço militar e após um acidente, aos 21 anos. A situação foi tão traumática que ele se agarrou no emprego que conseguiu e lá ficou por 20 anos. “Trabalho desde os 14 anos. Somente nessa empresa, passei 20 anos, sem férias e sem descanso. Nunca fiquei sequer 15 dias sem trabalhar. Agora, com a idade chegando, resolvi me cuidar. O patrão entendeu. Deixei as portas abertas. E quando me refizer, retorno para o meu cargo”, destacou. 

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