Publicidade

Correio Braziliense

'Investimentos esperam reforma da Previdência', diz José Isaac Peres

Dono da Multiplan, que controla uma das principais redes de shopping centers do Brasil, empresário diz que investidores nacionais e estrangeiros contam com o ajuste fiscal para que o país volte a crescer


postado em 20/05/2019 06:00 / atualizado em 20/05/2019 08:57

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

 

José Isaac Peres olha para o Brasil por uma janela privilegiada. Seus negócios lidam diretamente com dois fortes termômetros da economia: a construção civil e o varejo. Aos 78 anos, o empresário, que fundou sua primeira incorporadora e promotora de vendas de imóveis aos 22, a Veplan, e, em 1971, seu primeiro centro comercial, o Shopping Center Ibirapuera, está otimista com o futuro do Brasil e acha que os empresários não devem ficar esperado pelo governo para realizar investimentos, mas reconhece que o país está em compasso de espera. “Há bilhões para serem investidos esperando pelas reformas, principalmente a da Previdência, sem a qual, o país quebra”, afirma o dono da Multiplan.

Na avaliação de Peres, os planos do governo de reduzir a burocracia e o tamanho do Estado caminham na direção certa, pois aumentam a confiança e a segurança jurídica. Para ele, porém, os desafios no Brasil são muitos. E para chegar ao final de todas as tarefas, sem grandes solavancos, o Palácio do Planalto, mais precisamente o presidente da República, Jair Bolsonaro, precisa melhorar a comunicação com a sociedade. Os ruídos atuais só contribuem para o aumento das incertezas.

Apesar da crise que se arrasta desde 2014, quando o Brasil mergulhou na recessão, em 2017, o Multiplan inaugurou seu 19º shopping no Brasil, o ParkShopping Canoas, no Rio Grande do Sul, que rendeu ao grupo o prêmio de melhor projeto da América Latina da Associação Internacional de Shopping Center (ICAC). Peres, que está na lista dos homens mais ricos do Brasil, com patrimônio de US$ 1,5 bilhão, tem planos de inaugurar um shopping em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, com investimento de R$ 600 milhões, um projeto imobiliário de luxo, orçado em R$ 3 bilhões, no Sul do país, e uma plataforma digital de compras. Seus investimentos incluem ainda a ampliação do ParkShopping, em Brasília, que ganhará mais entretenimento, além de negócios em Portugal e Miami. Veja os principais trechos da entrevista.

O senhor inaugurou o ParkShopping, em Brasília, em 1983, em um momento difícil. Um pouco antes da redemocratização do país, no início da década que ficou conhecida como perdida. Agora, estamos em outro momento difícil de estagnação econômica. Está mais difícil fazer negócios no Brasil?
Desde que comecei minha vinha profissional, e ao longo da minha vida, não tive nenhum momento em que não tivesse um problema. Não tive momento fácil. E crescemos, apesar disso. Tenho uma maneira de ver o Brasil. Se der muita bola para a crise, não se faz nada. Sempre vamos ter uma crise. Mesmo nos melhores momentos, sempre há um sobressalto. Eu sempre tive alguma dificuldade. A primeira vez que eu votei, foi no Jânio Quadros. Aí veio a renúncia dele. Depois, em 1963, faço meu primeiro empreendimento. Em 64 veio o governo militar. Em 1971, já tinha ações na bolsa de valores. Minha primeira empresa a ter ações em bolsa foi a Veplan — todas as minhas têm plan no nome porque economista tem complexo de planejador. Depois, abrimos nossos empreendimentos nos Estados Unidos e em Portugal. No Brasil, estamos em várias cidades, mas concentrado no Sudeste, Centro-Oeste e um pouco no Sul. No Nordeste, temos um único empreendimento, o ParkShopping Maceió.

Estamos vendo a economia desacelerando. Havia uma expectativa, no começo do ano, de que, com uma política mais liberal, a economia deslancharia, mas, com o predomínio da agenda de costumes, a confiança dos agentes econômicos caiu. Como o senhor avalia?
Tenho uma visão bem clara. O Brasil é um país em que as pessoas se adaptaram a esperar que o Estado faça por elas. Em todos esses anos, sou testemunha viva da história empreendedora deste país. Na minha observação, o brasileiro se acostumou a depender do Estado e a esperar que o ele faça tudo, quando são as pessoas que devem fazer por si. O Estado provedor cresceu muito e, hoje, temos um Estado grande e uma nação pequena. Todo grande país tem um Estado pequeno. Então, somos um híbrido. Somos uma nação grande, mas um Estado também muito pesado.  O Estado precisa diminuir de tamanho. No meu ponto de vista, o Estado tem que se concentrar em educação, saúde e segurança, não pode ser empresário, pois não cria riquezas, cria, sim, despesas. Portanto, o que precisamos são menos impostos e mais liberdade para empreender. Um dos maiores problemas do Brasil é a burocracia. Uma pessoa que quer abrir uma loja leva quatro, cinco meses, para tirar um alvará, depois, leva mais tempo para retirar as guias de importações. Com isso, ela desiste. Se é uma empresa de moda, quando a mercadoria sai do cais do porto, a moda já passou. Essa burocracia é consequência de um Estado muito grande. Vivemos uma inversão de valores.

Como reduzir o peso do Estado na economia?
O Estado está vivendo a serviço das pessoas e não prestando serviços à sociedade. Somos servos do Estado. Pagamos muitos impostos. Os Estados Unidos tiveram um exemplo recente. Reduziram os impostos para as empresas para 21%. Aqui, pagamos 35%, em média, mas nossa conta já está em 40%. Em 1964, o custo do Estado representava 20% (do Produto Interno Bruto, PIB). Hoje, são 40%, 45%. Se não modernizarmos o Estado, o Brasil não vai avançar. O Brasil é uma nação rica, mas as pessoas são pobres. É como uma criança que nasceu em uma família rica, mas em berço é pobre. O Brasil é riquíssimo e terá de ser uma grande potência. Eu sou 100% patriota. Acredito no Brasil, invisto no Brasil, apesar de termos feito alguns investimentos no exterior.

Sempre disseram que o Brasil é o país do futuro. Mas esse futuro está demorando a chegar. Por quê?
Porque precisamos destravar o Brasil para que o futuro possa recomeçar. Tivemos vários recomeços, e vários planos. O plano que o Brasil precisa é um plano simples. Não é possível que uma pessoa que queira tirar um passaporte ou uma carteira de identidade tenha que enfrentar fila. Não é possível que, para receber uma correspondência dos Correios, as pessoas, às vezes, têm que esperar 30 ou 40 dias. Sou um homem da iniciativa privada. Nunca tive negócio com o governo. Não nasci rico. Nasci filho de migrantes, em uma família de classe média, estudei em uma universidade pública, na Universidade do Brasil, me formei em economia. E tenho muito orgulho do que o Brasil é e do que a gente fez. Mas é preciso fazer mais.

O que senhor acha do atual governo? Está confiante? 
Acho que o governo atual está no caminho certo no que propõe. Chegar ao final desse caminho é o trabalho que tem que ser construído por várias mãos. É preciso que o Congresso apoie. É preciso que se faça as reformas que são fundamentais, a começar pela reforma da Previdência, porque, sem ela, o Brasil quebra. Temos bilhões a serem investidos no Brasil, mas as pessoas não investem. Não precisa ser de fora. Aqui no Brasil mesmo. Nós devemos ser, talvez, a única empresa de shopping center que, neste momento, está construindo um shopping center. Começamos no governo passado, independentemente do resultado das eleições, portanto, uma demonstração de confiança no futuro do país. Começamos a construir um grande shopping em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, um investimento de R$ 600 milhões que vai gerar 3,4 mil empregos diretos. Achamos que o país será um sucesso e as coisas vão andar, certamente. O Brasil está travado porque se criou um problema nacional e internacional. Ou sai a reforma da Previdência, ou o Brasil para.

Na sua avaliação, a reforma da Previdência é suficiente?
É uma condição inicial e fundamental para alavancar o país. Os empresários brasileiros estão esperando isso, e os de fora, também. O Estado brasileiro perdeu a capacidade de investir. Sem o investimento privado, o país não vai crescer. Milhões de pessoas querem investir, querem fazer, querem realizar, e têm iniciativa, mas estão travadas por uma expectativa de que a reforma passe o quanto antes. Se passar uma meia reforma, isso não vai resolver o problema do Brasil, que vai se agravar. Então, acho que a gente tem que ter coragem de dizer que, independentemente de partido, de cor e de religião, o Brasil está em primeiro lugar. Os brasileiros têm que entender que, hoje, a Previdência é uma grande injustiça, porque o trabalhador que contribui para o sistema recebe, em média, um décimo do que ganha o servidor público. É injusto. Vou dizer o meu caso. Quando comecei a contribuir para a Previdência, pensei, vou contribuir pelo máximo. Na época, pelo antigo INPS, a aposentadoria máxima era de 20 salários mínimos, mas, hoje, recebo quatro salários mínimos. Então, é uma transferência do setor privado para o setor público. Felizmente, não precisei da minha aposentadoria, mas imagine milhões de brasileiros que contribuíram e hoje se veem privados da aposentadoria.

São distorções como essa que fazem do Brasil um dos países mais desiguais do mundo.
O que acontece no Brasil é que o Estado provedor já deixou de existir há muito tempo. Saúde, por exemplo, nem os Estados Unidos é provedor de saúde para todas as pessoas. É muito difícil. Prover educação para todos também é muito difícil. Então, se o Estado brasileiro conseguir prover saúde, educação e segurança para todos, já estará muito bom.

O senhor realmente vê disposição para se ter um Estado menor e mais eficiente?
O Brasil é como um caminhão entulhado de coisas, e precisa tirar a carga para andar. A carga tem muitos ministérios, tem muita ineficiência. O país precisa ser mais eficiente. No Chile, a pessoa cria uma empresa pela internet. Para fazer uma empresa no Brasil não é fácil, mas para desfazer é muito difícil. A pessoa desiste. É uma pena, porque o Brasil é um país riquíssimo. Colhe duas ou três safras agrícolas por ano, tem um litoral, uma costa maravilhosa. Veja o Rio de Janeiro, maravilhoso, mas sofrendo com a violência. Nos anos de 1940, o Rio era uma meca do turismo, todos os grandes artistas internacionais passavam pela cidade. Mas, hoje, está sofrendo, pois as pessoas não querem visitá-lo.

Mas a questão do Rio não é só a violência, é também a corrupção. Houve uma sequência de cinco governadores com problemas com a Justiça. 
Isso é em todo o Brasil. Mas creio que vamos viver um novo momento. Há um combate implacável contra a corrupção. Estamos no caminho certo. Precisamos compreender que é preciso reformar o Estado, pois, como está, o Brasil não vai andar. Não é possível ver tanto desperdício. Vou continuar investindo no Brasil, mas gostaria, imensamente, que esse país deixasse de ser o país do futuro, porque sempre que ouço falar que o Brasil é o país do futuro, o futuro já passou por aqui. Quem sabe, esteja voltando. Deus queira que esse governo caminhe com os objetivos que colocou, porque acho que está no caminho certo. A questão é como caminhar e chegar ao fim.

O governo tem menos de cinco meses e já enfrenta uma grande crise no Congresso. As pessoas voltaram às ruas. Não tem problemas demais para um período tão curto?
Essa coisa das ruas é relativa. Antes das eleições, muito mais pessoas estavam nas ruas. O que se está vendo hoje são algumas categorias profissionais e alguns partidos que foram despejados do poder e se mobilizam, o que é normal em uma sociedade aberta e livre. Deus nos livre de sermos uma Venezuela . É triste ver uma sociedade como aquela. É quase um genocídio, e os países não são solidários. Ninguém vai lá acudir a Venezuela. Nós temos que pensar que ninguém vai resolver os nossos problemas. Temos que resolvê-los nós mesmos, e há caminho para isso. Estamos com uma inflação baixa, uma taxa de juros baixa. O Banco Central pode reduzir ainda mais a taxa de juros, mas o problema fiscal é grave, se não for resolvido logo, o Brasil quebra.

O senhor disse que estudou em universidade pública e hoje as pessoas estão nas ruas contra os cortes de verba nas universidades. Como o senhor avalia isso?
Todos os governos fazem contingenciamento (de verbas). O que acho é que esse governo ainda não está se comunicando 100% como deveria com a população e com a imprensa. A gente tem WhatsApp, mas tem que se comunicar com a imprensa. Eu não sou político. Sou um empresário que investe no Brasil. Geramos mais de 80 mil empregos diretos e estou aqui me comunicando com a imprensa. E quero gerar mais 100 mil, mais 200 mil empregos, se for possível. Não porque eu preciso, mas porque eu gosto.

A que o senhor atribui a queda na confiança dos agentes econômicos, que tem derrubado todas as projeções para o PIB?
O problema que está travando tudo é a Previdência. Há muitas coisas que têm que ser resolvidas, mas a reforma tem que ter uma prioridade.

Mas muitos reclamam da falta de medidas mais diretas para estimular a microeconomia.
Mas se está fazendo muita coisa. A desburocratização por exemplo. O governo caminha nessa direção. Muitas vezes, são medidas feitas por decreto, mas há pontos que precisam ser transformados em lei, e a lei depende do Congresso. Nós vivemos em uma democracia. Sem o apoio do Congresso, não vamos a lugar nenhum. Por exemplo, a segurança jurídica. As pessoas querem ter certeza de que aquela lei vale. Muitas vezes, a lei diz uma coisa e a Justiça diz outra. É preciso saber o que está valendo, se a lei ou se a interpretação que alguns juízes fazem dela. Segurança do ponto de vista econômico significa que, na questão fiscal, o Brasil está sanado ou caminha para o saneamento. Isso bate na porta da Previdência. Reduzir despesas do Estado. Os senhores sabem que não é fácil. Contingenciamento precisa ser feito, porque, se o governo não tem dinheiro, não tem como pagar.

Por que os empresários estão tão reticentes?
Se não olharmos o Brasil com franqueza e com objetividade, fica difícil. Os empresários estão parados esperando que essa reforma da Previdência passe (no Congresso). Nós não estamos parados. A Multiplan investiu muito no ano passado e continua investindo. Há pouco tempo, investimos R$ 300 milhões na compra de uma antiga participação societária. Estamos investindo R$ 600 milhões em outro shopping e, no Rio Grande do Sul, temos um empreendimento orçado em R$ 3 bilhões, mas não temos como lançar isso antes da reforma da Previdência. Então, existe uma expectativa.

O senhor fala da importância do Congresso em fazer a parte dele. Contundo, não está faltando uma negociação mais efetiva do Planalto com o Congresso? 
Não está havendo essa negociação? Eu estou falando de negociação sobre projeto de lei, sobre determinadas questões do projeto de reforma da Previdência, sobre a questão da idade mínima. Se vai ter ou não capitalização na reforma. Não estou falando sobre criação de mais ministérios, pois resultaria em mais despesas. O problema é que ainda estamos falando que dependemos do Estado, quando deveríamos estar falando que dependemos das nossas empresas, da nossa iniciativa, da nossa coragem de empreender e de realizar.

Realmente, a sociedade depende de uma decisão que envolve governo e Congresso. Só que não vemos empenho do presidente da República. Ele mesmo diz que não é a favor da reforma da Previdência. Diz que quer aprovar porque ela é necessária, mas não veste a camisa.
Sabemos a origem do presidente, que ele é uma pessoa bem-intencionada. Sabemos, também, que ele não é um grande orador. Não podemos esperar um grande tribuno, porque ele não é isso. Estamos falando de um homem que está falando com povo. Muito mais do que com os empresários e a elite intelectual deste país. Nós entendemos que o recado dele é muito simplório. Talvez a gente quisesse um pouco mais de sofisticação nas colocações, mas o caminho que está ele está traçando é de desburocratizar, de reduzir impostos, de reformar a Previdência, de reduzir o tamanho do Estado, de fazer justiça ao povo brasileiro, pois não é possível que um funcionário do governo com garantia de emprego pelo resto da vida seja sustentado por quem trabalhe no setor privado e ganhe, em média, um décimo. Eu não acho justo isso.

O país tem mais de 13 milhões de desempregados. Sem crescimento, vai ser muito difícil reverter esse quadro?
Concordo. Com inflação e taxa de juros em baixa, o crescimento seria maravilhoso. Mas estamos vivendo uma particularidade. O mundo está gerando menos emprego porque a tecnologia é disruptiva e destrói vagas. Achava-se que a revolução industrial acabaria com os empregos, mas não acabou. Agora, estamos vivendo a quarta revolução industrial. O Brasil tem que investir em tecnologia.

Mas o governo está promovendo cortes em pesquisa e educação...
O governo está dizendo: não tem dinheiro para pagar tudo. Não dá para gastar mais do que se arrecada, pois isso não terá um final feliz. Não podemos viver de dinheiro emprestado. Temos de viver de renda, investimento, dinheiro nosso, de recursos nossos, de poupança. Se gastar mais do que ganha, um dia o banco corta o crédito e você quebra. O mundo vê o Brasil assim.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade