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Correio Braziliense

EUA voltam atrás depois de tentar isolar Huawei

O governo americano decidiu dar um prazo adicional à segunda maior fabricante de smartphones do mundo e suas 68 afiliadas fora dos Estados Unidos


postado em 21/05/2019 06:00 / atualizado em 20/05/2019 23:49

A Huawei é a segunda maior fornecedora de smartphones do mundo e quase 50% de todas as suas vendas vêm de fora da China(foto: Fred Dufour/AFP)
A Huawei é a segunda maior fornecedora de smartphones do mundo e quase 50% de todas as suas vendas vêm de fora da China (foto: Fred Dufour/AFP)


São Paulo —
 Depois de influenciar o resultado de algumas das principais bolsas de valores do mundo e de levar grandes companhias a romperem relações comerciais com a Huawei — entre elas, o Google —, o governo americano decidiu dar um prazo adicional à segunda maior fabricante de smartphones do mundo e suas 68 afiliadas fora dos Estados Unidos até que entre em vigor as restrições comerciais aos seus produtos.

O anúncio foi feito no fim do dia pelo Bureau de Indústria e Segurança (BIS), ligado ao Departamento de Comércio dos EUA, que informou a decisão de emitir uma Licença Geral Temporária (TGL) que altera o Regulamento de Administração de Exportação (EAR) para a Huawei Technologies Co. Ltd.

“A Licença Geral Temporária concede às operadoras tempo para fazerem outros arranjos e o departamento para determinar as medidas apropriadas de longo prazo para os americanos e provedores estrangeiros de telecomunicações que atualmente confiam nos equipamentos da Huawei para serviços críticos”, informou por meio de nota o secretário de Comércio Wilbur Ross. “Em suma, essa licença permitirá que as operações continuem para os usuários de telefones celulares e redes de banda larga rurais existentes da Huawei”.

Com a licença temporária, ficam autorizadas algumas atividades necessárias para as operações contínuas das redes em operação e para suportar os serviços móveis existentes, por exemplo, a pesquisa de segurança cibernética crítica para manter a integridade e a confiabilidade de equipamentos em operação. O Departamento de Comércio dos EUA informou que vai avaliar a possibilidade de prorrogar a Licença Geral Temporária para além dos 90 dias.

A Huawei foi adicionada à “lista negra” depois de o governo americano concluir que a “a empresa está envolvida em atividades contrárias à segurança nacional dos EUA ou a interesses de política externa, incluindo supostas violações da Lei de Poder Econômico Internacional de Emergência (IEEPA), conspiração para violar a IEEPA proibiu serviços financeiros ao Irã e obstrução da justiça em conexão com a investigação das supostas violações das sanções dos EUA, entre outras atividades ilícitas”, informa a nota.

Mas até que o governo americano recuasse na decisão, grandes empresas já haviam anunciado o afastamento da Huawei e colocado em xeque qual seria o futuro da gigante asiática de telecomunicações. Ontem pela manhã, o Google decidiu que não iria mais garantir o acesso a seu sistema operacional, o Android, aos usuários dos celulares da Huawei. A companhia só garantiria o acesso ao seu conteúdo por meio de licenças de código aberto.

Para tentar acalmar seus clientes, a Huawei informou que continuaria a fornecer atualizações de segurança e suporte pós-venda para sua linha atual de smartphones. O problema está no que não foi dito. A companhia chinesa não conseguiu garantir se aqueles que já são clientes continuariam recebendo atualizações de software do Android. Também não havia informações sobre qual seria a alternativa ao sistema operacional do Google.

Lista de banidos 


O anúncio do governo do republicano Donald Trump, feito na última quinta-feira, limitou bastante as condições de a companhia fazer negócio com empresas dos Estados Unidos. Segundo declaração do presidente americano, os EUA e a China tinham um acordo bastante forte e eles o mudaram. “E eu disse ‘está bem, vamos tarifar os produtos deles’”.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lu Kang, disse que seu país ignora qual seja o acordo sobre o qual Trump se referia. “Talvez os EUA tinham um acordo para o qual havia expectativas extravagantes, mas com certeza não é o chamado acordo com o qual a China concordou”, declarou na ocasião. O presidente americano elevou a tarifa sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses, de 10% para 25%.

Como uma das protagonistas no mercado de smartphones, a Huawei tem quase 50% de todas as suas vendas de fora da China. Além disso, é a maior fornecedora mundial de equipamento para redes. Na esteira do Google anunciaram o rompimento dos laços comerciais com a chinesa as empresas Intel, Qualcomm, Xilinx e Broadcom, fornecedoras de chips, o que, se for mantido depois da decisão do Departamento de Comércio dos EUA, enfraquecerá ainda mais os planos de negócio da chinesa.

Alfinetadas 


Em comunicado divulgado depois do anúncio do Google, a empresa aproveitou para alfinetar a ex-parceira: “A Huawei fez contribuições substanciais para o desenvolvimento e crescimento do Android em todo o mundo. Como um dos principais parceiros globais do Android, trabalhamos de perto com a plataforma de código aberto para desenvolver um ecossistema que beneficiou usuários e o setor”.

A Huawei informou que continuará a fornecer atualizações de segurança e serviços pós-venda para todos os produtos existentes para smartphone e tablet Huawei e Honor, dando essa garantia aos que foram vendidos ou ainda estão em estoque globalmente. “Continuaremos a construir um ecossistema de software seguro e sustentável, a fim de fornecer a melhor experiência para todos os usuários globalmente”, disse em comunicado.

Respostas mornas 


Mais cedo, o Google divulgou uma declaração que indicou que os proprietários de telefones Huawei continuariam a acessar a Google Play Store e o Google Play Protect, mas, como a empresa chinesa, também não mencionou o futuro, que é realmente a questão chave.

A possibilidade de oferecer apenas conteúdo aberto do Android não é exatamente um alento para a Huawei e seus clientes. Aos poucos, o Google tem reduzido todos os componentes atrativos do Android Open Source Project (AOSP). Para ter acesso a uma “experiência completa” no Android atual, com acesso a Google Maps, Gmail, Google Play Store, YouTube e, principalmente, ao ecossistema completo de aplicativos para Android de terceiros — só mesmo com o licenciamento do Google.

Sem o software do Google, a Huawei venderia seus smartphones com uma experiência acanhada, incompleta, o que tornaria a missão de convencer os potenciais clientes, mesmo com um hardware superpotente, algo quase impossível.

Os anúncios do Google e do Android foram ainda menos esclarecedores do que o da Huawei. Pelo Twitter, a conta do Android informou que “para dúvidas dos usuários da Huawei sobre nossas medidas para cumprir as recentes ações do governo dos EUA: garantimos que, enquanto cumprirmos todos os requisitos do governo dos EUA, serviços como o Google Play e a segurança do Google Play Protect continuarão funcionando em sua Huawei existente”.

O Google foi mais lacônico em seu comunicado: “Estamos cumprindo a solicitação e analisando as implicações. Para usuários de nossos serviços, o Google Play e as proteções de segurança do Google Play Protect continuarão funcionando nos dispositivos Huawei existentes”.

Espionagem 


Acusada por Trump de ajudar a espionagem do governo chinês, a Huawei foi ameaçada de não obter junto a empresas americanas softwares e semicondutores utilizados para fabricar seus produtos. Agora, vê seu futuro ameaçado e sob risco de haver respingos em outros parceiros comerciais que não fazem parte da briga direta entre EUA e China.

É o caso da Infineon Technologies, da Alemanha, que sentiu os reflexos do anúncio com a queda em suas ações na abertura do mercado, logo depois de o jornal japonês Nikkei publicar que a empresa havia suspendido seus embarques para a Huawei como reflexo da decisão do Google. Comportamento semelhante aconteceu com outros dois parceiros comerciais da chinesa, a STMicroelectronics e AMS, da Áustria.

Atraso na rede 5G 


Outro efeito colateral da luta entre Trump e a China poderá ser um atraso no lançamento das redes de telefonia móvel 5G. Se a decisão do governo Trump for totalmente implementada, o setor mundial de semicondutores, do qual a Huawei é muito dependente, estará fortemente ameaçado, chegando à indústria americana, que depende cada vez mais do gigante asiático nas relações comerciais. Nesse caso, cabe à China pisar no freio e atrasar o desenvolvimento de redes 5G.

Na semana passada, quando foi divulgada a “lista dos excluídos”, a Huawei já tinha mandado o recado sobre o impacto da decisão de Trump na evolução dos estudos das redes 5G. “A Huawei é a líder indiscutível em 5G. Estamos prontos e dispostos para debater com o governo dos EUA e propor medidas efetivas para garantir a segurança do produto. Restringir a Huawei de fazer negócios nos EUA não os tornará mais seguros ou mais fortes... Além disso, restrições sem razão infringirão os direitos da Huawei e levantarão outras sérias questões legais”.

Primeiro efeito


Otto Nogami, professor de economia do Insper, lembra que os problemas entre o governo americano e a Huawei são antigos por conta de acusações de que a empresa estaria fazendo espionagem. “Nesse caso, não se pode desconsiderar a intenção de favorecer empresas americanas com uma espécie de lobby. Essa decisão do Google mantém duas empresas americanas fortes no mercado, prejudicando interesses dos chineses de ampliar seus negócios mundo afora”.

Em termos de mercado consumidor, lembra Nogami, o caso Google-Huawei, ainda que o governo tenha recuado e adiado a sua validade, é o primeiro efeito colateral da guerra comercial entre China e Estados Unidos. “Para o consumidor, é o primeiro impacto real. Com a decisão do Google, o smartphone da Huawei perde uma funcionalidade importante para o consumidor, que usa muito o Android”, explica.

Nogami alerta para “tremores muito mais fortes” depois dos anúncios de ontem. “O que está acontecendo agora mostra que a guerra não é só no sentido comercial, mas também de natureza tecnológica. E o próximo passo, qual será? Essas decisões podem mudar toda a configuração do comércio internacional”, adverte o professor do Insper.

Até o fechamento desta edição, Huawei, Google e as outras companhias envolvidas no caso não informaram possíveis mudanças em seus posicionamentos.

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