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Correio Braziliense

Flexibilidade e arrecadação: academias mais baratas fortalecem o segmento

Embora o faturamento tenha ficado estável em US$ 2 bilhões, alta dos investimentos sinaliza que o mercado deve ganhar musculatura com o avanço das redes de baixo custo


postado em 22/05/2019 06:00 / atualizado em 22/05/2019 10:02

A Smart Fit foi a primeira rede de academias de baixo custo do Brasil, inaugurada em 2009(foto: Monique Renne/CB/D.A Press)
A Smart Fit foi a primeira rede de academias de baixo custo do Brasil, inaugurada em 2009 (foto: Monique Renne/CB/D.A Press)


São Paulo — Governo novo, reformas encaminhadas e perspectiva de retomada dos investimentos. A chegada de 2019 trouxe bons ares para grande parte dos setores produtivos da economia brasileira. Um deles é o setor fitness. O faturamento do mercado ficou estável em US$ 2 bilhões nos últimos dois anos, mas a taxa de penetração cresceu de 4,6%, em 2017, para 5% no ano passado, segundo cálculos da Associação Brasileira de Academias (Acad Brasil).

Em número de estabelecimentos, o país também se manteve na vice-liderança mundial, com 34,5 mil unidades, atrás apenas dos Estados Unidos, com 38,4 mil. Já em clientes, o Brasil está na quarta colocação, com 9,6 milhões de praticantes. “A boa notícia de que as academias que já estão em funcionamento deverão se recuperar positivamente com mais facilidade do que alguns outros setores, uma vez que os investimentos maiores já foram feitos em infraestrutura”, diz Gustavo Borges, ex-nadador, medalhista olímpico e presidente da Acad Brasil.

Em 2019, o chamado modelo low cost (baixo custo), importado dos Estados Unidos e que reúne academias que cobram preços acessíveis e oferecem serviços simples, completa 10 anos no mercado brasileiro. O primeiro estabelecimento low cost do Brasil foi inaugurado em 2009 com a criação da Smart Fit, do Grupo Bio Ritmo.

Flexibilidade 


Desde então, as academias low cost se tornaran febre no Brasil, transformaram completamente o setor e atraíram uma legião de clientes que, antes, não tinham acesso à prática esportiva ou disposição para malhar. Atualmente, são raras as cidades brasileiras que não têm pelo menos uma unidade desse tipo.

Entre outros benefícios, os clientes desfrutam de serviços padronizados (as grandes redes oferecem os mesmos planos e pacotes em diferentes regiões) e é possível frequentar qualquer um dos diferentes endereços espalhados pelo Brasil e até no exterior.

Nenhuma rede avançou tanto nos últimos anos quanto a Smart Fit. A rede conta com mais de 2,2 milhões de alunos matriculados e está presente em 11 países: além do Brasil, México, Guatemala, República Dominicana, Chile, Peru, Argentina, Colômbia, Equador, Paraguai e Panamá.

Os números superlativos fizeram da Smart Fit a maior rede de academias da América Latina e a ideia é não parar por aí. Em 2019, deverão ser abertos 200 estabelecimentos no continente, dos quais 100 serão inaugurados no Brasil. No total, o mercado brasileiro conta atualmente com 400 unidades Smart Fit espalhadas em todos os estados.

Na América Latina, uma das grandes apostas da rede brasileira é o México. Atualmente, operam no país 125 lojas e a intenção é inaugurar outras 40 nos próximos meses. A Colômbia é outra prioridade da Smart Fit, com a previsão de abertura de 100 unidades naquele que tem se revelado um dos mercados mais promissores da América do Sul.

O negócio é tão bem-sucedido que a rede decidiu investir em outros nichos, como o de micro-academias. O grupo já conta com duas marcas desse tipo: a Race Bootcamp, focada em circuitos com esteira, e a Vidya, exclusiva para praticantes de Yoga. Ambas são academias com no máximo 500 metros quadrados e também com preços acessíveis.

O segmento low cost, sempre com mensalidades em torno de R$ 100, cresce tanto no Brasil que tem atraído aportes de fundos de private equity. “Esse modelo veio para ficar e está atraindo a atenção do mercado financeiro”, diz Gustavo Borges. “Muitos dos investimentos aportados na nossa indústria têm gerado escala, o que facilita a operação e o gerenciamento do negócio.”

Promoções 


A lógica é simples: com mais recursos disponíveis, as empresas investem na abertura agressiva de unidades, o que atrai cada vez mais clientes. Quanto maior for o número de matriculados, maior a chance de a rede reduzir os valores cobrados nas mensalidades.

A Smart Fit também cresce com uma estratégia ousada de promoções. Um cliente que indicar outro ganha desconto —  às vezes, até isenção — na mensalidade e regularmente a empresa ofereça matrículas gratuitas.

Desde o início, o mercado se referia a este modelo como LCLP (low cost, low price), ou simplesmente “baixo custo, baixo preço”. Há três anos, essa percepção mudou, e os analistas de mercado passaram a usar a sigla HVLP (high volume, low price), ou “alto volume, baixo preço.”

Embora pareça casual, a mudança é significativa. O baixo custo operacional, que ainda é importante nas academias deste modelo, não é o principal fator que gera um preço baixo para o consumidor, mas sim o alto volume de clientes que frequentam a academia. “Aqueles que não tiveram a capacidade de acompanhar as mudanças, dificilmente continuarão no mercado, mas esse movimento certamente dará um novo fôlego aos negócios”, completa Borges.

Mesmo se a economia brasileira não decolar em 2019, o futuro do setor está garantido. Borges lembra que a preocupação com a saúde e o bem-estar é uma característica marcante das novas gerações, o que tem provocado profundas transformações na indústria de alimentos. Nesse contexto, cada vez mais pessoas malham — e provavelmente por toda a vida.

 

Entrevista

Gustavo Borges fala sobre as perspectivas do setor fitness e conta como anda a disposição dos brasileiros para malhar e cuidar da saúde.

 

(foto: D Brasil/Divulgação)
(foto: D Brasil/Divulgação)


Como tem sido a performance do setor de academias em 2019?

Ainda não há resultados a serem comemorados, justamente porque a economia não se recuperou. Apenas 5% da população brasileira experimenta a vivência em uma academia, o que é uma taxa de penetração muito baixa quando comparamos esse indicador com mercados internacionais, inclusive com os de países da própria América Latina.

Os brasileiros malham pouco?

De 65 países pesquisados em estudo recente, o Brasil ocupa a 27ª posição em termos de percentual de praticantes em relação à população total. Ficamos atrás até de países como Egito, Bahrein e Kuwait, com pouquíssima tradição no segmento de fitness.

Quais são as perspectivas para o mercado brasileiro, considerando que a retomada econômica é lenta?

A boa notícia de que as academias que já estão em funcionamento deverão se recuperar com mais facilidade do que outros setores, uma vez que os investimentos maiores já foram feitos em infraestrutura. Mesmo assim, não deve acontecer um grande crescimento na indústria brasileira de fitness em 2019.

Como foram os últimos anos?

Cerca de 80% das academias são pequenas empresas e os últimos anos foram bem difíceis para o setor em geral. O corte nas linhas de financiamentos e a queda do poder aquisitivo do brasileiro acertaram em cheio a maioria das empresas do segmento de fitness. As academias que apresentaram bom desempenho são aquelas que receberam capital estrangeiro ou investimento de grupos financeiros, uma modalidade que está ajudando a dar fôlego ao setor.

O crescimento do setor está concentrado em academias independentes ou em novas unidades de grandes redes?

Podemos dizer que vivemos um cenário de estabilidade, porque há novas unidades de grandes redes sendo inauguradas e também o que chamamos de microgyms, como estúdios de pilates, crossfit e outras especializadas que estão movimentando o mercado. Mas, em contrapartida, há o fechamento de empresas que não suportaram a desaceleração da economia, com cortes de créditos e falta de consumidores, assim como em vários setores. O número de academias praticamente se manteve estável nos últimos anos, levando em conta as que fecharam e as novas entrantes.

Qual é o potencial do mercado brasileiro, visto que o país, embora seja um dos maiores do mundo em número de academias, ainda está longe da liderança em horas de atividade física per capita?

Há potencial, claro. Mas precisamos, como empresários e profissionais da indústria do fitness, compreender onde está esse potencial. Um fator a ser observado é que o público com maior chance de crescimento é aquele que está em casa, no sofá, sem praticar nenhuma atividade física. Talvez a melhor estratégia não seja baixar preços para disputar clientes entre os 5% da população que já praticam exercícios em academias atualmente, e sim criar condições, instalações, programas, aulas e campanhas capazes de trazer para o mercado essa multidão de sedentários. Queremos o público que está no sofá.


O que é preciso fazer para o mercado decolar?

Quando a sociedade como um todo se conscientizar que academia é uma grande promotora de saúde, esse mercado vai decolar. Como associação representante de mais de 34 mil academias, a Acad tem trabalhado nesse sentido. Acabamos de fechar uma parceria com a Organização Mundial da Saúde para fazer uma campanha contra o sedentarismo. Seremos o piloto e a força na América Latina para esse esforço global. A OMS entendeu o papel significativo de promotores de saúde que as academias representam. 

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