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Correio Braziliense

Natura & Avon: fusão gera um negócio de R$ 40 bilhões

Negócio entre a empresa brasileira e a marca americana de cosméticos foi anunciado nesta terça-feira (22/5). Juntas, as duas companhias têm cerca de 6,3 milhões de consultores em todo o mundo


postado em 23/05/2019 06:00

Papéis da Natura fecharam em alta de 9,43% nesta quarta-feira (22/5), depois de reportagem do jornal Financial Times anunciar a possibilidade do acordo(foto: Monique Renne/Esp. CB/D.A Press - 16/3/7)
Papéis da Natura fecharam em alta de 9,43% nesta quarta-feira (22/5), depois de reportagem do jornal Financial Times anunciar a possibilidade do acordo (foto: Monique Renne/Esp. CB/D.A Press - 16/3/7)


São Paulo — A Natura é desde desta quarta-feira (22/5) a controladora da americana Avon. O anúncio foi feito no início da noite e envolveu a troca de ações entre as duas empresas. Juntas, as duas companhias passam a ocupar a quarta posição entre os maiores grupos de cosméticos do mundo, com faturamento bruto anual no valor de US$ 10 bilhões (ou cerca de R$ 40 bilhões, ao câmbio da última quarta-feira).

Para comprar o controle da Avon, em uma negociação que começou em setembro do ano passado, ficou acertada a troca de papéis das duas companhias e o desembolso de US$ 530 milhões para parte dos acionistas da empresa americana. Segundo o comunicado, o objetivo é concluir o acordo até o fim de 2020 e gerar ganhos para a nova companhia entre US$ 150 milhões e US$ 250 milhões.

A nova empresa passa a contar com 6,3 milhões de consultores de beleza em nível global — equivalente à população da cidade do Rio de Janeiro. Juntas, Natura e Avon passam a ter aproximadamente 40 mil funcionários, distribuídos por 100 países.

Aquisição da Avon vai permitir à Natura atender perfis de consumo diferentes dos que antes atingiam suas marcas(foto: REUTERS/Brendan McDermid/Files)
Aquisição da Avon vai permitir à Natura atender perfis de consumo diferentes dos que antes atingiam suas marcas (foto: REUTERS/Brendan McDermid/Files)


Com o acordo, a holding da Natura, que já contava com duas aquisições de marcas estrangeiras, a britânica The Body Shop e a australiana Aesop, além da própria Natura, passa a ter um quarto braço de negócios em seu portfólio.

Após o negócio, será criada uma nova holding brasileira, chamada de Natura Holding S.A, para incorporar as duas empresas. Os atuais sócios da Natura terão 76% de participação. Os restantes 24% ficarão nas mãos dos atuais acionistas da Avon. Essas ações serão listadas no Novo Mercado da bolsa paulista, a B3, e com recibos de ações (ADRS, na sigla em inglês) negociados na Bolsa de Nova York.

Caberá aos acionistas da Avon 0,30 de cada ação da nova Natura Holding. Já os acionistas da série C da Avon vão receber, juntos, US$ 530 milhões. Esse valor foi garantido por meio de um acordo fechado pela companhia brasileira com um grupo de bancos.

A opção pela troca de ações evitou que a companhia brasileira ficasse muito exposta, com um alto endividamento. Mas é fato que a Natura terá pela frente o desafio de arrumar a casa e coordenadas não só a parte de produção desse megagrupo que surge a partir de agora, como resolver questões de logísticas.

Ainda terá pela frente a missão de convencer os órgãos reguladores, como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), de que a parceria não representa ameaças de concentração de mercado. Além, é claro, de precisar do sinal verde dos acionistas das duas companhias.

Papéis em alta 


O anúncio foi feito depois do fechamento da B3, a bolsa paulista. Nesta quarta-feira (22/5), as ações da Natura fecharam em alta de 9,43%. O desempenho positivo foi uma reação dos investidores, informados por reportagem do Financial Times, à possibilidade de o acordo ser assinado. Com a alta dos papéis, a Natura alcançou um valor de mercado de R$ 26,6 bilhões, o que representou um ganho de R$ 3,3 bilhões em um único dia de pregão. As ações da Avon, negociada na Bolsa de Nova York, também dispararam, com alta de 9,06%, o que levou a companhia a uma avaliação de US$ 1,54 bilhão.

O contrato com a Natura só se refere à operação da Avon que é listada na Bolsa de Nova York, o que exclui o negócio nos Estados Unidos, que desde 2015 está separado da operação global em 2015.

As empresas enviaram as informações sobre o negócio para a Comissão de Valores Mobiliários, a CVM. Parte do trecho diz: “A Natura informa a seus acionistas e ao mercado em geral que chegou a um acordo com a Avon Products, companhia existente de acordo com as leis de Nova Iorque (“Avon”), para adquirir a Avon em uma operação que envolve troca de ações (all-share merger), que resultará na combinação de seus negócios, operações e das bases acionárias da Natura e da Avon (a 'Transação')”.

Ainda segundo o comunicado, “a Natura obteve compromisso de financiamento perante o Bradesco, Citigroup e o Itaú Unibanco S.A no valor principal agregado de até US$ 1,6 bilhão, a fim de financiar a contrapartida a ser paga aos detentores de ações preferenciais série C da Avon, assim como determinados pagamentos que possam se tornar devidos como resultado das transações descritas acima no âmbito de determinados financiamentos existentes da Avon”.

Perfis ampliados 

Para a Natura, o controle de um negócio com as características da Avon poder ser uma oportunidade relevante de ter mais força na oferta de produtos que estão mais distantes da sua proposta — com apelo ligado a matérias-primas de origem vegetal e produção sustentável de parte desses insumos. Além disso, passa a ganhar musculatura em segmentos que oferecem produtos a preços mais baixos do que os praticados por suas marcas — Natura, The Body Shop e a Aesop, voltada ao mercado de luxo e que foi adquirida em 2013.

Essa estratégia apareceu no comunicado, que informa que um dos objetivos é “atender seus diferentes perfis de clientes, em diversos canais de distribuição, expandindo sua atuação para novas regiões”.

Segundo o comunicado da Natura, após a conclusão da aquisição, o conselho de administração será composto por 13 integrantes, sendo que três serão indicados pela Avon. A Natura &Co foi assessorada pelos bancos UBS e Morgan Stanley. Já a Avon contou com o Goldman Sachs. Os integrantes do conselho de administração da Avon foram apoiados pela PJT Partners. A conclusão da operação é esperada para o início de 2020.

De pequena indústria a gigante global

Em 50 anos, a Natura se torna uma das maiores do mundo no setor de cosméticos

  • 1969: Luiz Seabra funda a Indústria e Comércio de Cosméticos Berjeaut. Meses depois, a empresa passa a se chamar Natura
  • 1970: abre a primeira loja, na Rua Oscar Freire, em São Paulo. Luiz Seabra atende pessoalmente as clientes
  • 1974: a venda direta é adotada como modelo de negócios. A loja da Oscar Freire é fechada
  • 1979: lança a linha SR N, inaugurando o segmento de produtos masculinos
  • 1982: a primeira incursão no mercado internacional, por meio de um distribuidor local no Chile
  • 1984: lança o sabonete Erva Doce, que se transforma em um clássico do portfólio da empresa
  • 1992: inicia operações na Argentina e no Peru
  • 1995: cria a única linha de produtos não cosméticos, a Crer para Ver, cujo lucro é em prol de uma educação pública de qualidade
  • 2000: lança a linha Ekos, que incorpora ativos da biodiversidade brasileira à formulação de seus produtos
  • 2001: inaugura o mais avançado centro integrado de pesquisa, produção e distribuição de cosméticos da América do Sul, em Cajamar (SP)
  • 2004: abre ocapital na Bolsa de Valores de São Paulo
  • 2005: abre uma loja em Paris. Lançamento do Natura Musical, programa de divulgação da música brasileira.
  • 2006: bane os testes de produtos e de ingredientes em animais
  • 2007: cria o Programa Carbono Neutro, com metas de redução das emissões de gases de efeito estufa em toda a cadeia produtiva
  • 2009: ao completar 40 anos, atinge a marca de 1 milhão de consultoras
  • 2010: cria o Instituto Natura para fortalecer iniciativas em prol da educação pública. Começa a produzir na Argentina, Colômbia e México
  • 2012: surge o Rede Natura, plataforma digital de compras da empresa.
  • 2015: o Rede Natura, o e-commerce da empresa, alcança todo o território brasileiro e chega ao Chile
  • 2016: começa a inaugurar lojas em todo o Brasil. Abre uma unidade em Nova York
  • 2017: nasce o grupo Natura & Co., junção das empresas Natura, Aesop e The Body Shop
  • 2019: compra a Avon

 

Semente de sucesso

Luiz Seabra seguramente não imaginava, há meio século, quando trocou a carreira de economista pela cosmetologia, que aquele embrião de negócio se tornaria uma gigante global do setor. Em 1969, ele foi convidado a trabalhar no Laboratório Bionat, dos esteticistas Pierre e Catherine Berjeaut. Em agosto do mesmo ano, nascia de uma sociedade entre Seabra e Jean-Pierre Berjeaut, filho de Pierre, a Indústria e Comércio de Cosméticos Berjeaut, mais tarde chamada de Natura.

A primeira loja foi aberta no ano seguinte, na Rua Oscar Freire, em São Paulo. Seabra fazia pessoalmente o atendimento dos clientes. Já em 1974 a pequena empresa passou a comercializar sua produção apenas no sistema porta a porta, hoje chamado de venda direta.

Hoje, a Natura conta com 1,7 milhão de consultoras no Brasil, na Argentina, no Chile, na Colômbia, no México e no Peru. Nos últimos anos, tem investido nas vendas multicanais, seja por meio do comércio eletrônico, seja pela abertura de lojas exclusivas. Desde 2017 passou a fazer parte do grupo Natura & Co., que reúne Natura, Aesop e The Body Shop. 

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