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Correio Braziliense

Intenção de consumo das famílias cai 1,7% em relação a abril, diz CNC

Retração acumulada nos últimos três meses já é de 4%


postado em 23/05/2019 18:08 / atualizado em 23/05/2019 23:31

(foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
 
A Intenção de Consumo das Famílias (ICF) caiu pela terceira vez seguida. A queda foi de 1,7% em relação ao mês anterior, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A retração acumulada nos últimos três meses já é de 4%. Segundo a CNC, o baixo dinamismo do mercado de trabalho está por trás disso. Quase 13 milhões de brasileiros estão desempregados, e isso influencia a perspectiva profissional das famílias. Além disso, a alta de preços nos combustíveis, alimentos e até eletrodomésticos pode estar influenciando as famílias a comprarem menos.

Cerca de 61,5% das famílias acreditam que o momento é ruim para a compra de eletrodomésticos, televisores, aparelhos de som, segundo a CNC. Alguns até deixaram de adquirir itens necessários para o dia a dia, como Leonice Ferreira, de 43 anos. Ela, que faz e vende salgados para se manter, deixou de comprar feijão e outras verduras, como tomate e cenoura, por causa dos preços elevados. 

“Neste mês, aumentou o preço de tudo! Deixei de  comprar feijão porque o quilo estava por R$ 12, um absurdo. Também olhei preços de eletrodomésticos nos últimos meses, porque preciso de uma nova máquina de lavar, mas não tive coragem de comprar nada. Vou continuar lavando minhas roupas na mão”, reclama Leonice, que culpa o governo pela alta nos preços: “Para mim, tudo isso é culpa do governo. O Bolsonaro prometeu tanto e não está cumprindo nada, e até está querendo cortar verba da faculdade do meu filho, que já está sem aulas práticas. Eu sou pobre, meu filho é pobre, como que o governo pode dizer que só está prejudicando os mais ricos com essas decisões? É mentira”. 

Raissa Mendes, psicóloga de 26 anos, também notou um aumento nos preços de alimentos e eletrodomésticos. “Não precisei deixar de comprar nada, mas esse aumento pesou em meu salário. Eu e meu marido estamos selecionando bastante os nossos gastos”, diz a psicóloga, que está tendo dificuldades em encontrar eletrodomésticos mais baratos. “O maior aumento, para mim, foi nos eletrodomésticos, e como vamos nos mudar agora, estamos procurando fogão, microondas, essas coisas. Está difícil de encontrar algo dentro do orçamento. Fico angustiada com isso, porque o salário da população não está sendo levado em conta”. 

Remilton Divino, 42, desistiu de comprar um fogão para sua casa por causa dos preços encontrados. Mesmo fazendo economias nos gastos e pechinchando por descontos, o servidor público não conseguiu comprar o eletrodoméstico. “Meu fogão é muito antigo, eu precisava trocar, mas só vi preços muito salgados por aí e desisti. Acredito que o próprio governo é quem está inflacionando os preços de tudo, para ver se ganham mais ao nosso custo. Dizem que a inflação subiu, que é culpa dos aposentados, do mercado, mas acredito que são eles (governantes) que estão visando um lado mais empresarial no Brasil”, reclama Remilton. 

Explicação

Para o economista chefe da CNC, Fábio Arantes, os dados são um indicativo de que o segundo trimestre do ano não melhorou. “Certamente não deve ter acontecido uma melhora. Tudo leva a crer que se o consumo vai mal e as perspectivas não são boas, a tendência é em geral de um primeiro semestre muito fraco e o segundo estamos em compasso de espera. Boa parte da agenda de destravamento do crescimento está ligado a reforma da previdência que vem evoluindo lentamente.”, analisou.

Arantes considera outros fatores que influenciaram a pesquisa. “Duas das principais quedas foram justamente na perspectiva profissional e de consumo, uma coisa ligada a outra. A inflação também não ajudou, tem o comportamento pior que nos últimos dois anos, concentrada em tarifas de alimentação que são gastos difíceis de serem contornados. O que vemos é o resultado da combinação da inflação com o dólar alto e demora da economia pela previdência, que causa queda da confiança no setor produtivo.”, disse.

Em relação ao mesmo mês do ano passado, a Intenção de Consumo das Famílias teve alta de 8,6%, revela a nova pesquisa. Na visão de Roberto Ellery, economista da Universidade de Brasília (UnB), essa alta ocorreu por causa das eleições de 2018. “As pessoas criaram a expectativa de que as eleições mudariam tudo, acharam que tudo se resolveria com um novo governante. Agora, estão vendo que não é bem assim, os empregos ainda não começaram a aparecer, nem o crescimento econômico. A população acreditava que iria conseguir emprego rapidamente, mas não conseguiram e estão tendo que sobreviver com um salário mais baixo”, afirma Ellery. 

Para ele, a taxa de consumo está caindo por causa do “crescimento artificial” e da desigualdade de renda do país. “A economia brasileira está ‘emagrecendo’, todos estão caindo na realidade, inclusive as famílias, que estão reestruturando seu consumo e diminuindo dívidas. Apesar de esses dados serem um reflexo claro da crise fiscal que vivemos, é positivo pois mostra uma preocupação da população com nossa situação financeira”, afirma o economista. “O setor do trabalho informal é quem mais está sentindo esse efeito, porque a inflação não está tão fora de controle, o problema está na baixa de renda do povo, ou até mesmo na falta de renda”. 

O especialista espera que o comércio tenha uma melhora com a implantação da Reforma da Previdência, mas acredita que tudo dependerá de como o governo vai aprovar o projeto. “Estamos em um momento em que o país jogou todas as fichas na questão da previdência, e o Brasil está congelado na parte de investimentos. Se o governo emplacar a reforma, com alguns ajustes que recuperem a confiança, podemos ter uma melhora no campo do comércio e investimentos”, explica.
 
* Estagiárias sob supervisão de Anderson Costolli

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