Jornal Correio Braziliense

Drones conquistam mercados: Em 2019 foram liberados 92.805 novos aparelhos

São Paulo — Os drones que riscam o céu em áreas urbanas — os aeromodelos usados em atividades de lazer —, não dão a dimensão do crescimento de um outro tipo de uso dessas pequenas aeronaves. No acumulado até abril de 2019, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) autorizou a operação de 24.427 drones para uso profissional.


O volume crescente mostra que o uso desse tipo de equipamento vai muito além do uso recreativo. Hoje, há aeronaves remotamente tripuladas (as RPAs) em uso em diferentes setores — de distintas atividades no segmento agropecuário à geração e transmissão de energia, passando pela construção civil e produção de insumos, como o cimento.

A multinacional ABB, por exemplo, trouxe no início do ano para o Brasil uma tecnologia que, acoplada aos drones, permite a identificação de vazamentos de gás. Ajustada à aeronave, essa espécie de “nariz biônico” pode chegar a lugares onde os funcionários teriam dificuldades e enfrentariam riscos.

Rubens Escobar, diretor de Measurements & Analytics da ABB, explica que essa tecnologia, com um sistema de detecção móvel de vazamento de gás, complementa um equipamento que já era oferecido pela companhia, mas que não permitia a mesma mobilidade. “Ela se beneficia da utilização de drones com menos mão de obra, cobrindo áreas de difícil acesso. O equipamento verifica a presença de metano e de etano, mas com uma precisão maior (em vez de parte por milhão, a PPM, em parte por bilhão, ou PPB)”.

O equipamento que vai preso ao drone não só constata o vazamento de gás como registra as coordenadas, para que os técnicos possam saber o ponto exato onde está o problema. Esse tipo de tecnologia pode ser aplicado em diferentes segmentos, como em concessionárias de gás e na localização de vazamento em gasodutos. “Quando acontece esse tipo de problema, as empresas têm de chamar as equipes de manutenção várias vezes para fazer a checagem in loco.
O equipamento, quando acoplado ao drone, vai reduzir esse trabalho”, afirma Escobar.

Waze do campo 


A CNH Industrial é outra multinacional que recentemente passou a incluir o uso de drones nos seus negócios, por meio da área Parts&Service, responsável por soluções de pós-venda. O conglomerado, que fabrica de caminhões a máquinas agrícolas, já tinha essa modalidade de prestação de serviço desde 2018, mas lançou oficialmente durante a Agrishow, no fim de abril, o serviço de mapeamento de áreas rurais com o uso dos RPAs para coletar imagens transformadas em dados para a agricultura de precisão.

O serviço é oferecido pelas concessionárias da CNH Industrial e a principal vantagem para os clientes, segundo Felipe Sousa, gerente de negócios e soluções da divisão, é a redução do tempo e das despesas, além do aumento do índice de acerto. Uma área de 60 hectares precisaria de 16 horas para a conclusão do levantamento topográfico feito por funcionários. Com um modelo de drone com boa autonomia de voo, esse trabalho é realizado em quatro horas e a redução de custo chega a 90%.

Os dados coletados pela aeronave são processados por um parceiro comercial da multinacional, a startup Bem Agro, e servem não apenas para saber se houve falhas no plantio e no desenvolvimento das culturas, mas também para fazer o levantamento de dados topográficos da propriedade que serão usados para criar as chamadas “ruas virtuais”, uma espécie de Waze do campo.

Processadas, essas informações serão acrescentadas ao software do piloto automático encontrado nas máquinas agrícolas. É o que definirá com precisão por onde o maquinário — pulverizadores, colheitadeiras e tratores — vai trafegar, onde fará a semeadura e a colheita, reduzindo o desperdício.

Nesse caso, o drone é uma ferramenta de suporte. “O cliente quando contrata drone já tem as máquinas e busca outras aplicações, que vão do período de preparação do terreno antes do plantio até a identificação do índice de clorofila da lavoura, que mostra onde estão as áreas mais e menos verdes, que podem ser resultado de uma infestação de pragas ou deficiência de nutrientes”, diz o executivo da CNH Industrial.

Quando a CNH entrou nesse segmento, em 2017, ainda nos Estados Unidos, seus executivos perceberam que não fazia sentido trabalhar com a venda de drones porque “o produtor quer plantar e colher”. A exceção, diz Sousa, está nos grandes produtores rurais, em especial os grupos que plantam cana-de-açúcar, que têm uma demanda tão grande que a aquisição acaba valendo a pena.

“O uso de drone na agricultura não tem mais volta.
Hoje, há drones para a pulverização, para aplicação de controle biológico. Para a CNH Industrial, o foco é a venda de máquinas, e a receita vinda desse serviço não será tão representativa, mas é a forma de prover soluções completas para o agricultor”, afirma Sousa. A previsão de crescimento em área mapeada é de 300% em relação a 2018, quando as contratações ainda eram incipientes.

Sobrevoo de florestas 


Na Suzano, os drones já estão bem integrados à rotina da companhia, como conta Luís Eduardo Alves Sabbado, gerente executivo de Desenvolvimento e Excelência Operacional. A companhia já utiliza imagens de satélite para melhorar e aumentar a automação dos seus processos. Com os drones, o trabalho foi ampliado.

Atualmente, as aeronaves não tripuladas são usadas pela Suzano desde o momento em que começa a ser feita a pesquisa para a compra de uma propriedade rural. Os dados captados pelas câmeras dos drones serão processadas por softwares para que se tenha certeza da viabilidade daquela área, onde será necessário construir estradas e onde será feita a preservação de reserva legal.

Mas os pequenos equipamentos voadores hoje fazem parte de todo o processo, que inclui plantio e pós-plantio, após 90 dias. Aliados à captação de dados por satélite, seus recursos permitem até que os técnicos monitorem por meio de imagens os pontos de biomassa e como será feito o controle de ervas daninhas. Um drone com uma autonomia de voo maior consegue sobrevoar de 400 a 700 hectares por dia, segundo Sabbado, o que trouxe ao negócio uma redução nos custos de até 30%.

Agora, a Suzano começa a testar uma linha de drones com capacidade para a aplicação de insumos, como herbicidas.
A vantagem ambiental, segundo o gerente, é a possibilidade de trabalhar com um baixo volume tanto de produto quanto de água, além de não ser necessário utilizar o óleo diesel para o abastecimento de máquinas agrícolas, já que os drones usam baterias elétricas.

Falta de equipamento 


“Hoje, já conseguimos ter o mesmo custo da aplicação tradicional, mas não há drone suficiente. Esse é um nicho de mercado que vai se desenvolver, mas por enquanto há poucas empresas especializadas em fazer a operação. É uma logística complexa. Para garantir autonomia e produtividade, é preciso contar com estrutura, como o caminhão de apoio que carrega nove baterias e acompanha o drone para que ele siga fazendo a aplicação”, explica o executivo da Suzano.

A companhia colocou, recentemente, no mercado uma licitação para receber propostas de empresas que trabalhem com drones para a aplicação de herbicidas, mas até agora tem encontrado dificuldade com fornecedores.

Olhos nas obras


A MRV, maior construtora da América Latina, vem usando os drones há cerca de um ano para supervisionar suas obras — 15 delas já estão no programa e até o fim do ano, segundo Reinaldo Sima, diretor de TI, a novidade chegará ao total de 230 canteiros. “Vimos depois dos primeiros testes que havia ganho de produtividade e de qualidade, além de uma disponibilidade de informações muito ricas para serem utilizadas em análises que apontam se o projeto está sendo executado corretamente. Está comprovado que está é uma tecnologia que gera muito valor, com a redução de custos e de processos”.

Flávio Vidal, gestor de Inovação da MRV, relata que há cerca de dois anos, durante uma feira internacional, os executivos viram como os drones eram usados na inspeção de fachadas e telhados, com a ajuda de inteligência artificial. Além do ganho de tempo, ressalta, esse tipo de ferramenta evita que seja necessário colocar funcionários sobre telhados, reduzindo riscos.

Para fazer levantamentos topográficos, por enquanto, a empresa ainda não consegue substituir o trabalho dos profissionais da área, mas já tem sido possível fazer uma combinação de forças. As aeronaves não tripuladas, segundo Vidal, também têm sido usadas na hora de checar a alocação de estacas, muros de arrimo, localização do terreno e posição de blocos. “Usamos em tudo em que é possível trazer soluções por meio de imagem, inclusive no planejamento de logística de canteiro”.

Reinaldo Sima, diretor de TI da MRV, cita outros usos para os drones. Por exemplo, na identificação de fissuras ou de uma parede molhada — “com essa ajuda, não é preciso sair quebrando”.
As aeronaves são usadas também para a medição das obras para o pagamento de empreiteiros e até na manutenção predial — uma área que vai ganhar cada vez mais relevância depois que a companhia decidiu investir no mercado de locação.

Economia de tempo 


Em parte, os topógrafos já começaram a ser substituídos na Votorantim Cimentos, que encontrou nos drones uma ferramenta de gerenciamento dos estoques de matérias-primas para fabricação de cimento e outros itens para a construção civil, como pilhas de calcário, argila e britas.

Todos os meses, a aeronave fotografa esses materiais, que ficam a céu aberto nas diferentes unidades da empresa. As fotos vão resultar em uma imagem tridimensional que permite a medição do volume automatizado, com maior precisão e agilidade. Equipes de topografia convencional levavam de duas a três horas para fazer esse trabalho, que agora leva alguns minutos. Além da economia de tempo, isso evita que os funcionários caminhem sobre as pilhas, que são irregulares.

Os drones também são empregados pela Votorantim na atividade de mineração. Os equipamentos permitem a geração imagens e de arquivos em 3D, que são usados no planejamento de mina. Hoje, a tecnologia de drones é usada em 25 unidades da Votorantim Cimentos, desde fábricas até minas, portos e centros de distribuição.

Drone no lugar do rapel 


Para inspecionar aerogeradores, só mesmo com o trabalho de funcionários treinados para fazer rapel. Isso era o que acontecia nos parques eólicos até que os drones começaram a ser usados por companhias como a italiana Enel.

Roberta Bonomi, responsável pela Enel Green Power no Brasil, exemplifica como os aeromodelos não tripulados, que começaram a ser usados mais intensamente neste ano, têm contribuído para aumentar a segurança e a produtividade. No caso dos parques eólicos, a supervisão feita por funcionários no rapel leva cerca de oito horas, enquanto com drones esse tempo cai para uma hora — portanto, a geração de energia é retomada mais depressa.

No caso dos painéis solares, as câmeras termográficas instaladas nos drones conseguem identificar remotamente pontos frios em um tempo muito menor do que seria necessário para o trabalho humano. “Esses equipamentos veem defeitos menores, muitas vezes em lugares pequenos e sujos onde os olhos humanos não chegariam. Há também a questão do tamanho.
Imagine quanto tempo levaria para os funcionários fazerem esse trabalho em todo um parque solar?”.

Em áreas como a de facilities, a digitalização tem sido cada vez mais relevante. Por isso, no caso da Enel Green Power, os dados captados por drones são processados por um sistema de algoritmo, que permite analisar as imagens. “Os drones são parte dessa estratégia da operação, de criar valor para o acionista, segurança para equipe e sustentabilidade da operação”..