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Correio Braziliense ESPECIAL DA REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Exaustão do Estado matou a esperança

Excesso de gastos com pensões e aposentadorias provocaram o 'suicídio em slow motion do país'


postado em 30/05/2019 05:59 / atualizado em 30/05/2019 13:23

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


O Brasil tem cometido o “suicídio em slow motion (câmera lenta)”, segundo Fábio Giambiagi, mestre em economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e economista do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O especialista afirma que a sociedade, tanto consumidores quanto empresários, sofre com a ausência de perspectivas positivas, dada a “exaustão do Estado”, provocada, sobretudo, pelos gastos excessivos com a Previdência.

Na prática, significa dizer que o setor público não tem condições de suprir serviços básicos, o que gerou problemas alarmantes no país nos últimos anos. Giambiagi cita como exemplo a greve de policiais nos Espírito Santo, em 2017, por questões salariais. A paralisação resultou na morte de mais de 100 pessoas. Ele lembra ainda as rebeliões prisionais no Norte e Nordeste, que resultaram em assassinatos e escancaram a fragilidade da gestão estatal nos presídios.

A vista grossa na fiscalização das barragens de mineração também culminou no desabamento em uma estrutura em Brumadinho, matando centenas de pessoas. “Isso tudo tem um denominador comum, que é a exaustão do Estado”, reforça Giambiagi. Para ele, enquanto pessoas conseguem se aposentar com 46 anos de idade, dentro do atual sistema de Previdência, faltam recursos para outras áreas prioritárias.

Não por acaso, o descontentamento da população é enorme. “Isso gera um quadro de degradação, de deterioração contínua, de ausência de perspectivas, de perdas dos laços de solidariedade, de esgarçamento da sensação de pertencimento, de emigração incipiente”, afirma o economista. “O dia a dia se torna mais difícil, sombrio, duro e triste para todos”, ressalta.

Desemprego

Na avaliação de Giambiagi, as situações de colapso do Estado estão correlacionadas com o aumento exponencial dos gastos previdenciários, que têm comprimido a aplicação de recursos em outras áreas. “Grosso modo, um aumento de 5% nas despesas com a Previdência, que corresponde a R$ 30 bilhões, significa reduzir os demais gastos que são sujeitos ao ajuste em um terço. E as despesas da Previdência aumentam a um ritmo 5% de um ano e meio”, explica. Ou seja, cada vez mais há menos espaço para outras áreas”, diz.

Giambiagi alerta também para os números da atividade econômica. A recuperação pós-crise, iniciada em 2014, é a mais fraca da história. Na prática, o Brasil nunca teve tanta dificuldade para retomar o crescimento. Isso está atrelado ao número grande de desempregados e de desalentados, aqueles que desistiram de procurar emprego. No entender dele, o grande desafio do país é conseguir resolver as disfuncionalidades fiscais e implementar uma agenda que retome a confiança e a confiança das pessoas.

“Sem o resgate do otimismo e ânimo nacional, será difícil restabelecer um quadro de crescimento em torno de 3% ao ano. O primeiro passo é aprovar a reforma da Previdência. As despesas com aposentadorias e pensões estão subindo ano após ano, comprimindo os gastos em outras áreas. Qualquer um sabe que não é possível manter isso indefinidamente. O futuro continua envolto em brumas e nós continuamos a conviver em um ambiente de conflitos, em que é difícil responder para onde vai o Brasil”, afirma o economista.

Isso gera um quadro de degradação, de deterioração contínua, de ausência de perspectivas, de perdas dos laços de solidariedade, de esgarçamento da sensação de pertencimento, de emigração incipiente”

Fábio Giambiagi,
mestre em economia pela UFRJ e economista do BNDES

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