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Correio Braziliense

Senai e Inovacred investem na indústria 4.0 para desenvolvimento do setor

Empresas apresentaram projetos tecnológicos voltados para o crescimento do setor no 8º Congresso de Inovação da Indústria


postado em 14/06/2019 22:00 / atualizado em 14/06/2019 22:05

Vinícius Pereira, diretor de operações da Pipolândia, pequeno empreendimento no ramo alimentício de lanches como pipocas e salgadinhos de milho(foto: Thaís Moura/Esp. CB/D.A Press)
Vinícius Pereira, diretor de operações da Pipolândia, pequeno empreendimento no ramo alimentício de lanches como pipocas e salgadinhos de milho (foto: Thaís Moura/Esp. CB/D.A Press)
São Paulo (SP) - A adoção exponencial de tecnologias da indústria 4.0 vem ocorrendo no mundo inteiro. Como forma de encaixar empresas brasileiras nessa transformação, que ocorre por meio da digitalização e inovação, programas de financiamento e orientação para pequenas e médias empresas ganham força no país. Os projetos Senai 4.0 — do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) — e o Inovacred 4.0, promovido pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), divulgados no 8º Congresso de Inovação da Indústria, na última terça-feira (11/06), são exemplos da ampla tentativa de desenvolver a indústria. À convite do Sebrae, o Correio esteve em São Paulo, onde ocorreu o congresso, e descobriu o que pequenos empresários têm feito para não ficarem de fora da indústria 4.0.

Ao perceber o rápido movimento de modernização do resto do mundo, o Senai, em parceria com o Sebrae e com a Embrabii, desenvolveu um programa que visa orientar empresas que desejam crescer no mercado e na produtividade, a partir de 4 passos. Iniciado em 2017 e aplicado em cerca de 3 mil empresas, a iniciativa gerou um rendimento de 52,1% após o cumprimento do primeiro passo, segundo Marcelo Prim, gerente-executivo de Inovação e Tecnologia do SENAI. "Observando a indústria brasileira e a mundial, criamos quatro passos para as empresas avançarem na produção: a otimização do chão de fábrica, a requalificação dos trabalhadores, a digitalização e instalação de sensores, e por fim, a inovação", assinala Marcelo. 

Quatro passos

No primeiro passo, a empresa é instruída a organizar seu chão de fábrica, ou seja, identificar máquinas quebradas, resíduos e bagunças que atrapalham no processo produtivo. "Não adianta se automatizar se sua empresa é bagunçada, você apenas teria uma bagunça sistematizada. Então propomos que, antes de tudo, as empresas organizem e limpem o local de produção, e ajudamos a consertar máquinas quebradas", esclarece Marcelo.

Já na segunda fase, os trabalhadores da empresa são orientados a adquirir conhecimento sobre tecnologias digitais, como programação e análise de dados. Assim, ocorre uma requalificação de funcionários. De acordo com o gerente-executivo de Inovação e Tecnologia do Senai, o segundo passo, realizado entre 2017 e junho de 2019, gerou um rendimento de 25% para as empresas, após os 51,2% da etapa anterior. 

A terceira etapa do programa propõe a digitalização do empreendimento, a partir da instalação de sensores na indústria. "Fazemos uma digitalização com sensores de baixo custo, utilizando sistemas na nuvem de empresas já estabelecidas. Após instalar os sensores nas máquinas em estado mais crítico, obtemos os dados do chão de fábrica e o monitoramos em tempo real pelo smartphone", explica o representante do SENAI. "A partir disso, estabilizamos e digitalizamos as empresas aos poucos". Para Marcelo, esta fase é indispensável para o ingresso na indústria 4.0.

Feita a otimização, requalificação e digitalização, as empresas estarão prontas para começar o processo de inovação. "Neste passo, as empresas devem avançar no sentido de instalação de tecnologias mais avançadas, investindo em pesquisa e desenvolvimento. Só assim poderão criar produtos inovadores para o mercado e se tornar mais competitivas", diz Marcelo. 

Rumo a Indústria 4.0

Vinícius Pereira, diretor de operações da Pipolândia, pequeno empreendimento no ramo alimentício de lanches — como pipocas e salgadinhos de milho —, aderiu à parceria com o Senai e viu sua empresa progredir em questões de conhecimento tecnológico. Seguindo os 4 passos estabelecidos, o jovem participou do programa Brasil Produtivo, que conta com recursos governamentais, e do Indústria Mais Avançada, ambos do Senai. "Alcançamos a etapa da digitalização, e em seguida, os consultores que nos forneceram identificaram um setor de gargalo na empresa. Assim, foi colocado um sensor na máquina em estado mais crítico da Pipolândia. Tudo isso aumentou a nossa produtividade em níveis extraordinários, e foram mudanças que antes nem pensávamos sobre", conta Vinícius. "O melhor foi a consultoria que nos deram sobre tecnologias e digitalização, porque não tínhamos conhecimento desses assuntos". 

"Toda empresa, pequena ou não, precisa buscar melhorar sempre. O empreendedor nunca pode estar satisfeito na situação que se encontra, porque sempre tem como inovar. Sempre tem como inovar, basta encontrar as pessoas e colaboradores certos para te ajudar e se jogar nisso”, aconselha Vinícius. “Hoje em dia temos duas pessoas ótimas que entendem de TI em nossa empresa, o que faz muita diferença na produção. No início, você passa por um choque, porque nem todos querem mudar, mas com uma conversa, com uma conscientização, tudo é possível”. 

Já Juan Pinheiro, Diretor e Fundador da Stratus Indústria Aeronáutica do interior da Paraíba, não aderiu a nenhuma linha de financiamento e apoio a empresa, e sentiu falta de recursos na hora de se digitalizar e desenvolver produtos voltados para o setor aéreo. "É bom ver esse tipo de iniciativa do Senai, porque quando estávamos pesquisando e desenvolvendo a empresa, sentimos uma carência enorme de recursos voltados para isso. Pesquisa custa caro, e o investimento de manter nossa equipe em uma região que não tinha cultura ainda de desenvolvimento de pesquisa aeronáutica foi bem apertado, já que esses profissionais são concorridos no mercado", conta Juan, que precisou usar seus próprios recursos financeiros para desenvolver a empresa.

Após passar apenas cinco anos desenvolvendo a primeira aeronave da empresa, o empresário pretende aderir a financiamentos de bancos regionais para colocar a produção em andamento. Ele aconselha que, antes de tudo, as empresas devem focar na digitalização. “Você precisa digitalizar a sua própria empresa de forma que você a tenha na palma da mão. Se você cria técnicas para monitorar os novos procedimentos da empresa e obter os dados de produtividade de forma mais rápida, irá perceber que esse método tem uma capacidade maior de resposta às mudanças necessárias para atingir o que o mercado competitivo de hoje solicita do empresário”, explica Juan. "Hoje, estar inserido no mundo digital que temos é fundamental para a sobrevivência da empresa no futuro”. 

Avaliação de maturidade 

A avaliação de maturidade das empresas em questões de Indústria 4.0, questionário realizado pelo Senai no início de junho com participação de 416 companhias, mostra que a maioria se encontra entre os passos 1 e 2. De acordo com a pesquisa, 134 empresas estão no nível 1 de uso de tecnologias, enquanto 170 se encontram na segunda etapa. Apenas 112 alcançaram os níveis 3, 4 e 5, sendo o quinto a inserção total na indústria 4.0. 

“Percebemos, a partir dos testes realizados na plataforma do Senai, que o porte da empresa é fator pouco relevante na inserção à Indústria 4.0. Acreditamos que há outras razões que explicam a atualização tecnológica: a existência de um líder engajado; a abertura da empresa a parceiros, fornecedores, universidades; e a agilidade em aprender com decisões e experimentos. Esses são os três fatores decisivos”, afirma Marcelo Prim. 

Inovacred 4.0

Além do Senai, outros institutos e órgãos vêm desenvolvendo projetos de auxílio voltados para empresas pequenas e médias. O programa Inovacred 4.0, lançado pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) na última terça-feira (11), fornece financiamento a planos de digitalização de até R$ 5 milhões. Os únicos critérios da iniciativa, que começará a valer no fim de junho, são: apenas empresas com faturamento anual de até R$ 300 milhões podem participar, e os planos devem ser desenvolvidos por empresas integradoras credenciadas pela Finep. 

Em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), com bancos regionais de todo o país e com os ministérios da Economia (ME) e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), a ação tem como objetivo estimular o aumento da produtividade da indústria no Brasil. “Diante da dificuldade que a indústria tem em obter capital para contratar empresas integradoras que prestassem serviços para trazer softwares e máquinas para Indústria 4.0, decidimos lançar o projeto”, explica o presidente da Finep, General Waldemar Barroso. 

Waldemar esclarece que o processo se inicia a partir do cadastramento de integradoras em um ambiente virtual da Finep. A partir da credencialização dessas empresas, clientes interessados poderão buscar os serviços a serem prestados na plataforma. Em seguida, o agente financeiro credenciado analisa e aprova o pedido. Tendo a solicitação aprovada, os recursos são liberados à empresa e o plano de digitalização começa a ser implementado. 

O presidente da Finep ainda destaca que as parcerias com os bancos regionais é o que possibilita uma "capilaridade no território nacional", e ressalta que as taxas de juros cobradas por essas instituições serão bem inferiores que as do mercado. "Quando usamos os bancos regionais com capacidade de proporcionar o empréstimo, fazemos com que tenhamos abrangência nacional. A grande vantagem disso tudo é abaixar o custo, aumentar a agilidade e competência para podermos fazer esse tipo de empreendimento", assinala. 

"As grandes empresas já estão na frente, mas as pequenas nem sabem como obter recursos e desenvolver tecnologias", afirma Waldemar. O Superintendente de Inovação da FINEP, Newton Hamatsu, aponta que apenas 1,6% da indústria nacional brasileira tem o sistema de digitalização 4.0, segundo dados da CNI. "Temos que aumentar esse percentual, por isso a Finep decidiu investir nisso. A indústria 4.0 não é o futuro, é o presente. Se não investirmos em inovação e tecnologias que possam te levar a esse nível, ficaremos para trás", constata. 
 
*Estagiária sob supervisão de Roberto Fonseca 

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