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Correio Braziliense

Correio retorna a São Gabriel da Cachoeira (AM), 25 anos após o Plano Real

Na continuação da série sobre a moeda, a história de São Gabriel da Cachoeira, no interior do Amazonas. O Correio esteve lá em 1994. No retorno da reportagem, a região habitada por diversas etnias indígenas é um espelho de problemas nacionais


postado em 29/06/2019 07:00

População, formada principalmente por indígenas, se diverte à beira do rio, enquanto espera o desenvolvimento prometido com o Plano Real, há 25 anos(foto: Luiz Calcagno/CB/D.A Press)
População, formada principalmente por indígenas, se diverte à beira do rio, enquanto espera o desenvolvimento prometido com o Plano Real, há 25 anos (foto: Luiz Calcagno/CB/D.A Press)
São Gabriel da Cachoeira (AM) — Distante 2,7 mil quilômetros da capital federal em linha reta e acessível somente por barco ou avião, São Gabriel da Cachoeira (AM) é um caldeirão de forças políticas em disputa fervendo a fogo brando. De um lado, grupos formados por lideranças de diversas etnias defendem o direito às terras indígenas e o uso tradicional desses espaços. De outro, cooperativas desses mesmos povos rejeitam o modus operandi de relação com o governo, e afirmam que a demarcação de terras lhes dá direito à exploração mineral, embora não haja legislação para a atividade. A mistura borbulha há 25 anos. Mais especificamente, desde a implementação do Plano Real, decisivo para a transformação da região já nos primeiros passos.


O Correio esteve no município perdido no caminho das águas em 1994, na chegada da moeda que freou o preço do ouro do garimpo e congelou o fiado do comércio. As notas valiam mais e todo mundo guardava o dinheiro em casa. De volta à Cabeça do Cachorro — região na fronteira com Colômbia e Venezuela e parte do município de São Gabriel —, a bordo do Amazônia, um turbo-hélice da Força Aérea Brasileira, duas décadas e meia depois, a reportagem encontrou uma cidade diferente, com duas agências bancárias — uma do Banco do Brasil e outra do Bradesco — e uma lotérica da Caixa. Agora, o real vale menos, a lista de devedores deu lugar à compra parcelada e o garimpo é atividade escusa, com pouca influência.


Ismael e Maria Pedrina viajam constantemente de Iauaretê para São Gabriel da Cachoeira para receber benefícios e fazer compras(foto: Luiz Calcagno/CB/D.A Press)
Ismael e Maria Pedrina viajam constantemente de Iauaretê para São Gabriel da Cachoeira para receber benefícios e fazer compras (foto: Luiz Calcagno/CB/D.A Press)

 

A maioria das transações é feita em dinheiro. Principalmente no fim do mês, quando falta papel moeda nos bancos e muitos comerciantes escondem as maquininhas sob a desculpa de “problemas técnicos” para obrigar a população a gastar o que guardou debaixo do colchão. Os valores que circulam na região vêm dos salários do Exército, que incorporou vários indígenas; do funcionalismo público, composto pela prefeitura, órgãos estaduais e federais; e do Programa Bolsa Família, que atende parte considerável das comunidades do Rio Negro. No núcleo urbano, muitos moradores apostam no comércio para gerar renda.

Os produtos do comércio são mais caros, porque só chegam de barco, e o frete pesa. Quando o rio está baixo, é preciso trocar de embarcação no trajeto e o custo aumenta. O real perdeu poder de compra, mas o frete se manteve estável. Os proprietários de barcos sabem que os serviços dependem de uma população de baixo poder aquisitivo e um aumento nos valores poderia paralisar a economia. Há, ainda, uma sensação generalizada de estagnação no desenvolvimento, que começa a incomodar os moradores.


Luziane com a mãe e o irmão: lembranças do poder de compra do real no início e do sofrimento para manter a família com mais dinheiro hoje(foto: Luiz Calcagno/CB/D.A Press)
Luziane com a mãe e o irmão: lembranças do poder de compra do real no início e do sofrimento para manter a família com mais dinheiro hoje (foto: Luiz Calcagno/CB/D.A Press)

 

Ismael Oliveira, 65, Baré, e Maria Pedrina Costa, 60, são de Iauaretê, na fronteira com a Colômbia. Ismael, que carrega cargas em embarcações, está prestes a se aposentar, e mal fala português. Arranha um espanhol misturado com o dialeto da comunidade. O casal conversa em tukano e a mulher traduz as falas do marido. “Conseguimos um terreno em São Gabriel da Cachoeira, mas não temos dinheiro para terminar de construir a casa”, conta. Eles viajam para sacar o salário de Ismael e o Benefício de Prestação Continuada de Maria, além de comprar alimento. 

O caldeirão amazônico

As várias etnias do Rio Negro representam cerca de 76% da população local. Por isso mesmo, diversos problemas políticos do município estão ligados às causas indígenas. Difícil dizer quando o caldo entornará, mas a goma dá sinais de fervura. O discurso base das lideranças tradicionais e das cooperativistas é parecido — e não só porque é proferido em nheengatú, a língua comum a todos. Todos querem o desenvolvimento dos povos e da localidade como um todo. Muda, no entanto, a maneira de promoção desse desenvolvimento: o modelo vigente, focado na manutenção da cultura dessas comunidades, sabidamente mais lento; e o extrativista, que prioriza a lógica capitalista predatória, supostamente mais rápido.

O cenário é resultado das transformações e sucessivas crises enfrentadas pelo país. O Bolsa Família, por exemplo, fundamental para a população mais pobre, não tem o mesmo efeito e ainda pode precarizar a situação das diversas etnias às margens do rio, se não vier acompanhado de políticas públicas para garantir os diversos modos de vida desses povos. Políticas essas que se tornaram impraticáveis desde os cortes do último governo Dilma. A crise do modelo político brasileiro que, em âmbito nacional, ajudou a eleger Jair Bolsonaro, se repete no microcosmo, com a disputa por protagonismo, sendo os cooperativistas aderentes ao governo federal.

Nem todas as mudanças foram negativas. A maioria dos jovens indígenas faz algum curso superior e não pensa em parar antes da especialização. Caso da bem articulada universitária Luziane Aires Miranda, 27 anos, da etnia Tariana. Ela lembra do poder de compra da moeda na primeira infância. “Quando eu era criança, tudo era mais barato. Meu pai ganhava R$ 300 e fazíamos compras consideráveis. Agora, ele ganha em torno de R$ 2 mil e mal conseguimos nos manter”, relata.

A família tem conta em banco desde 2002, e a estudante está concluindo biologia pelo Instituto Federal do Amazonas. Além do pai, que pilota embarcação, o irmão de Luziane, Renival, 22, praça do Exército, ajuda com o soldo. A mãe, Luzia, é dona de casa. De qualquer forma, a região continua a atrair pessoas de diversas partes do país, que imigram em busca de oportunidades. Só o tempo dirá se desse caldeirão sairá mais uma refeição indigesta, a somar-se a tantas outras em 350 anos de história do município, ou resultará em um saboroso tacacá, com tudo que o prato tem direito.

 

Resta só o trabalho duro  

Enquanto, silenciosamente, o caldeirão de forças políticas de São Gabriel da Cachoeira ferve, a população, alheia aos possíveis resultados do processo, faz a única coisa ao seu alcance para garantir o sustento. Trabalha diuturnamente, muitas vezes em mais de uma atividade, para comprar o peixe, que pode chegar a R$ 50 o quilo, e frango, a R$ 8, e quitar as contas no fim do mês. O terceiro maior município do país tem, em sua área urbana às margens do Rio Negro, são-gabrielenses tenazes, forjados sob o malho das grandes distâncias do Brasil.

O comércio é a principal atividade para quem não serve ao Exército ou não integra o funcionalismo público. Há outras profissões, como piloto de barco, por exemplo. O transporte fluvial é a única alternativa acessível para a maioria da população chegar ou deixar a localidade. A outra é o transporte aéreo, da Força Aérea Brasileira (FAB) ou de pequenas empresas, às vezes, usado em situações de emergência.

 

Eugênio e Celeste têm comércio e roça, mas não é o suficiente para pagar as contas e, com três filhos, contam ainda com o Bolsa Família(foto: Luiz Calcagno/CB/D.A Press)
Eugênio e Celeste têm comércio e roça, mas não é o suficiente para pagar as contas e, com três filhos, contam ainda com o Bolsa Família (foto: Luiz Calcagno/CB/D.A Press)
 


É assim que o real, enfraquecido em comparação à época em que chegou ao município, serpenteando pelas águas do Rio Negro, circula entre caixas, contas e carteiras. Para se ter uma ideia, há 25 anos, em junho de 1994, o guaraná amazonense, que leva o mesmo nome da nossa moeda, passou de Cr$ 2,5 mil a garrafa para R$ 1. Hoje, custa R$ 6. O diesel, um dos produtos mais requisitados na região, saiu de cerca de R$ 0,64, em 1999, para R$ 3,58, preço mais recente, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo.

Uma das dificuldades da região é o valor do frete, que aumenta o preço dos produtos tanto para quem revende quanto para quem compra. Nessa lida, plantar e produzir no município virou solução para fugir das taxas das embarcações e aumentar o lucro. Essa foi a saída encontrada por Joel Lino Ricardo, 58, da etnia Baré, e a mulher, Celeste Agda Garrido, 56, da etnia Baniwa. O casal produz artesanato típico, planta banana e faz farinha de mandioca. Eles vendem tudo na feira municipal. “Trabalhar com uma horta é uma forma de conseguir um dinheiro a mais. Assim, tiramos o preço cheio. Alimentar bem a família (três filhas e duas netas) custa R$ 100 por dia”, conta Celeste.

Em outro ponto da cidade, Eugênio Bruno Bivardo, 32 anos, da etnia Baniwa, tem uma pequena venda com prateleiras praticamente vazias e geladeiras desligadas. O que ganha por mês não o permite fazer estoques. Para conseguir um extra, monta móveis e também faz uma pequena roça com a mulher, Celeste Macedo Paiva, 32 anos, da etnia Baré. O casal tem três filhos e é beneficiário do Bolsa Família. “Esses últimos anos foram devagar. Para pagar as contas, temos que trabalhar fora da loja, fazer farinha de mandioca e beiju. O Bolsa Família ajuda, pois também temos os gastos com o estudo dos filhos”, lembra.

Sempre os fretes

Diferentemente de Joel e Celeste, quem trabalha com produtos industrializados não tem como escapar do valor do frete das embarcações. A estratégia para atrair os clientes, nesse caso, é diversificar. Quem afirma é Andreia Almeida, 37 anos. Natural de Presidente Prudente (SP), ela trabalha em uma loja de artigos para decoração, festas e também material escolar, e está na região acompanhando o marido, que é militar. “Aqui, as pessoas querem fazer todas as compras em um só lugar. Quanto mais diversificado for, melhor. Já perdi uma venda de material escolar, pois faltava um único item. Eles até pagam mais se tiverem essa comodidade”, comenta.

Natural de Belém do Brejo da Cruz (PB), Osnildo Ferreira de Souza, 56, mais conhecido como Capibaribe, é comerciante conhecido na região. Dono de três estabelecimentos de roupas, sapatos e perfumes, ele conta que, nos últimos anos, as vendas caíram e ele reduziu o número de funcionários. “Apostei na diversificação do produto. Mesmo assim, as lojas mais novas, de roupas de criança e de calçado, estão desacelerando. Não estou devendo para o banco, mas devo a alguns fornecedores”, admite.

Depois que o real chegou à região e o preço do ouro congelou, ficou mais fácil combater o garimpo. Antes praticado abertamente, o trabalho encarecia o mercado com ouro. A FAB ainda sobrevoa a região em missões de reconhecimento, em busca de focos da atividade ilegal. Conversando com comerciantes, é fácil ouvir relatos de exploradores em busca do minério. Mas, ressaltam, os faiscadores “não ficam mais na região”. “Se embrenham pelos matos”, ou então, “estão no Pico da Neblina”.

Açougueiro, Rildo Diomedes, 42 anos, veio de Monte Alegre do Pará (PA) para tentar a sorte. Na terra-natal, ele diz, o custo de vida é baixo, mas a renda também é menor que a de São Gabriel da Cachoeira. Para vender a carne fresca, Rildo compra o boi que vem vivo de Manaus e é abatido no município. Parte de seus clientes são, justamente, os caçadores de ouro. “O comércio está devagar, mas vendo muito para garimpeiros. Sempre de passagem, eles compram a carne para salgar. Dessa forma, passam dias na mata”, relata.

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