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Correio Braziliense

10% dos trabalhadores detêm 50% da renda salarial mundial, mostra OIT

Desigualdade salarial no mundo registra leve queda de 2014 para 2017. OIT atribui a melhora à prosperidade de alguns países emergentes, como China e Índia. No Brasil, os que têm maior rendimento embolsam 41,3% do total


postado em 05/07/2019 06:00

50% dos trabalhadores com menor salário recebem 6,4% da renda de trabalho global, 43% é a participação na renda de trabalho global da classe média(foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)
50% dos trabalhadores com menor salário recebem 6,4% da renda de trabalho global, 43% é a participação na renda de trabalho global da classe média (foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)
A desigualdade pouco mudou em 13 anos. O relatório The Labour Income Share and Distribution, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), divulgado nesta quinta-feira (4/7), mostra que enquanto 10% dos trabalhadores do mundo recebem quase a metade (48,9%) do total da remuneração global, 50% dos com menores rendas embolsam apenas 6,4% da massa salarial. Já os 20% mais mal pagos (cerca de 650 milhões) são remunerados com menos de 1% do rendimento mundial.

De acordo com o documento, que avalia 189 países, apesar dos números apresentarem um fosso gigantesco de diferença, houve leve queda desde 2004. Na época, os 10% mais ricos recebiam 55,5% de toda a renda global. No Brasil, esse percentual caiu de 47,7% naquele ano para 41,3%, em 2017. A OIT, entretanto, não atribui essa diferença à “redução da desigualdade dentro dos países”, mas ao “aumento da prosperidade em grandes economias emergentes, mais especificamente na China e na Índia”.

Dividindo os assalariados em três grupos — os com salários baixos, médios e altos —, a OIT destaca que apenas os mais bem remunerados tiveram uma evolução de rendimentos de 2004 a 2017. Já as classes média e baixa sofreram queda nas remunerações. Em relação ao total do rendimento global, a renda do trabalhador de classe média teria caído de 44,8% para 43% no período, enquanto os rendimentos dos 20% mais ricos teriam aumentado 2,2%, saindo de 51,3% para 53,5%.

O economista Carlos Alberto Ramos, especialista em mercado de trabalho da Universidade de Brasília (UnB), reforça que, apesar dos dados evidenciarem um problema no mercado de trabalho, que reage ao “dinamismo das inovações tecnológicas e ao crescimento econômico de cada país”, existe uma diferença clara entre a pobreza e a distribuição da renda, mesmo que os dois possam estar associados. “A desigualdade de renda costuma aumentar quando há um crescimento nos salários, mas não quer dizer que a pobreza cresceu. Supondo que um engenheiro tenha seu salário aumentado em 20%, e uma pessoa menos qualificada tenha o mesmo aumento. Isso vai gerar um aumento na desigualdade, porque os salários maiores cresceram mais do que os menores, mas a qualidade de vida de quem era mais pobre também melhorou”, afirma.

Educação

Ele destaca que o nível de educação e de desenvolvimento tecnológico dos diferentes países são fatores determinantes para a desigualdade na distribuição da renda e, por isso, é normal que esse índice não tenha se alterado tanto nos últimos 13 anos. “Os fatores ligados a desigualdade mudam muito lentamente. Você pode até ter mudanças no nível de pobreza, mas a distribuição de renda depende de fatores de educação, de dinamismo do mercado de trabalho, de inovações tecnológicas que substituem a mão de obra em diversos setores, então é difícil que ocorram mudanças a curto prazo. Mas nesse tempo, o combate à pobreza avançou bastante no mundo inteiro”, afirmou.

Wilson Amorim, professor de administração da USP, acrescenta que a intensificação da globalização é outro fator que influencia na desigualdade laboral. “Com a globalização, podemos ter mais trabalhadores, mas não necessariamente com melhores rendimentos”, afirmou. Na opinião dele, os dados da OIT mostram que precisamos de um crescimento em escala global, não só nos países mais centrais. “O levantamento mostra que temos prosperidade em dois grandes países, enquanto outros passam por grandes custos de mão de obra. Quando o mercado de trabalho se retrai e a mão de obra fica mais cara, os empregadores mantêm os trabalhadores de forma estratégica, só aqueles que ganham mais permanecem”, explicou.

* Estagiária sob supervisão de Rozane Oliveira

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