Economia

25 anos do Real: avanços na economia têm sido decepcionantes

Para o economista Claudio Adilson Gonçalez pontua os aspectos positivos do Plano Real, mas pondera que a economia do país vai de mal a pior

Correio Braziliense
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postado em 08/07/2019 11:24
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Para o economista Claudio Adilson Gonçalez pontua os aspectos positivos do Plano Real, mas pondera que a economia do país vai de mal a pior
Há que se comemorar a estabilidade do real, mas sem tirar os pés da realidade e da situação econômica do Brasil, que corre o risco de não sair do atoleiro tão cedo. O alerta é de Claudio Adilson Gonçalez, economista da MCM Consultores Associados e doutor em Economia pela Universidade de São Paulo (USP). Ele reconhece as virtudes da moeda mais longeva do país, mas também destaca a atual estagnação da economia brasileira, que sofre com enorme grau de ociosidade tanto no mercado de trabalho quanto na indústria e com o mergulho da produtividade total dos fatores do país, em -0,35% na média dos últimos três anos, incluindo 2019.

Adilson sustenta que o risco do regresso de inflação alta está sempre presente. ;Não se pode brincar com isso. As reformas e o ajuste fiscal são urgentes para garantir a estabilidade do país, a maior conquista do Plano Real;, destaca. Contudo, preconiza, o Brasil não sairá tão cedo do atoleiro se o governo ;continuar com a teimosia de atrapalhar o Congresso na aprovação das reformas e com a fixação em assuntos poucos relevantes;.

O economista considera que o Plano Real deu certo, porque adotou uma forma inteligente de coordenar preços e lidar com a inércia inflacionária. ;O grande mérito da URV (unidade real de valor, moeda transitória antes do real) foi moderar os preços. A passagem para o real foi suave;, opina. Crítico do ministro da Economia, Paulo Guedes, Adilson rechaça a ideia de que o plano foi responsável pela concentração de renda. ;É uma contabilidade desleal do Guedes, porque o plano teve um aspecto redistributivo de renda, pela redução da inflação. As pessoas de baixa renda não têm como se defender da inflação, que derrete o salário ao longo do mês;, diz.

[SAIBAMAIS]O fato de a equipe econômica que concebeu o real ter segurado o câmbio no início do plano colaborou para o êxito da estabilidade, na opinião de Adilson. ;O câmbio era indexado e o dólar sumiu de contratos privados e jogou os preços para média e não para o pico. Houve redução da dívida;, estima. Outro destaque, segundo o economista, foi a adoção, em 1999, do tripé macroeconômico: ajuste fiscal, câmbio flutuante e metas de inflação.

Mas os elogios param por aí. Apesar de pontuar os aspectos positivos do Plano Real, Adilson pondera que a economia do país vai de mal a pior. ;A taxa de crescimento potencial brasileiro tem sido decepcionante. Minha estimativa é de que está em 0,6%. Há um grau de ociosidade enorme;, justifica. ;Com isso, vamos ter mais queda de renda per capita, que já foi expressiva de 2014 a 2017;, alerta.

A atual crise é creditada a investimentos equivocados nos governos petistas, ao sistema tributário ineficiente, à infraestrutura precária, à presença excessiva do Estado na economia, ao baixo nível de qualificação da força de trabalho e, sobretudo, ao fato de o Brasil ser um país muito fechado. ;Uma boa notícia é o acordo com a União Europeia, mas não se pode esperar velocidade. O acordo precisa ser aprovado por vários parlamentos;, frisa.

Um obstáculo à retomada do crescimento, no entender do economista da MCM, é que a agenda de reformas estruturais é extensa e sofre grande resistência política. ;Além disso, o PIB (Produto Interno Bruto) efetivo comparado com o que se poderia ter em situações normais tem um hiato de 6%, ou seja, está 6% abaixo do que poderia ser;, afirma.

Melhorar o ambiente do país poderia passar por medidas de curto prazo. ;A começar pela queda na Selic;, sugere. Para completar o efeito da mudança nos juros são necessários entre quatro e cinco trimestres, calcula. ;Não precisa esperar a aprovação da reforma de Previdência para cortar a Selic. Reduz o risco, mas aquece a economia;, afirma. Segundo o especialista, não há ;qualquer inconsistência; entre medidas de estímulo de curto prazo, que têm a ver com as flutuações cíclicas da economia, e a agenda de reformas.

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