Economia

Com IPCA estável, analistas preveem redução de 0,25% nos juros

IPCA fecha junho com alta de apenas 0,01%, refletindo a demanda fraca e a retração no preço de alimentos e combustíveis. Sem pressão da carestia, analistas apostam em queda da Selic de, pelo menos, 0,25 ponto percentual na reunião do Copom

Thaís Moura*, Hamilton Ferrari
postado em 11/07/2019 06:00
Zenilde Oliveira gastou tanto no supermercado em junho, que está sem coragem de fazer compras neste mêsA carestia, praticamente, ficou estável no mês passado. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), registrou alta de 0,01%, a menor taxa desde novembro de 2018, quando houve deflação de 0,21%. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o valor próximo de zero foi garantido, principalmente, pelo recuo nos preços de alimentos e combustíveis, que representam, juntos, cerca de 43% das despesas das famílias brasileiras. O resultado reforça o argumento de analistas de que nada justifica o Banco Central (BC) manter a taxa básica Selic no patamar atual.

O Comitê de Política Monetária (Copom) se reunirá em 30 e 31 deste mês para definir o futuro dos juros, que estão em 6,5% ao ano. Usado como ferramenta para controlar a inflação, a taxa poderá ser reduzida para 6,25% ou até 6% anuais.

A falta de demanda mantém a economia fraca, o que limita o repasse de preços. O mercado de trabalho desaquecido e o alto nível de desemprego também prejudicam a retomada. Com isso, a expectativa é de que a inflação termine 2019 entre 3,5% e 3,8%, de acordo com analistas. O índice bem abaixo do centro da meta de 4,25%, estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Em junho, os grupos alimentação e bebidas e transportes tiveram deflação de 0,25% e 0,31%, respectivamente. O preço da gasolina recuou 2,04% no mês passado, enquanto o diesel e etanol também ficaram mais baratos, com deflação de -0,83% e -5,08%, respectivamente. Entre os alimentos, as principais quedas foram nos valores de frutas (-6,14%) e feijão-carioca (-14,80%). O recuo do preço da energia elétrica (-1,11%) foi outro fator que contribuiu para a desaceleração do índice.

A redução nos preços, no entanto, não é sentida por consumidores que seguem se lamentando que o dinheiro não dá para nada. ;Minhas compras do mês deram cerca de R$ 500, o que não é um valor muito normal para mim. Por isso, ainda não abasteci a casa de julho, sei que não vou conseguir comprar o que normalmente consumo. Os maiores preços que vi foram da cebola, da batata-doce, da cenoura, da manga e do abacaxi;, reclamou a autônoma Zenilde Oliveira, 58 anos.

A dona de casa Jaine dos Santos, 59, também se queixou do orçamento mais apertado. ;Antes, eu gastava uns R$ 400 com compras de mês e, em junho, gastei cerca de R$ 600. Os legumes, tomate e frutas são as coisas mais caras que encontro, e, como também dirijo, tive que optar entre gastar menos com o mercado ou com o combustível. E escolhi economizar no combustível;, disse. Agora, ela faz compras perto de casa, para não ter que investir em deslocamento. ;Com os valores atuais, sempre subindo, sai mais barato comprar alimentos só quando precisa do que comprar ao mês;, destacou.

Com a inflação de junho, o IPCA acumulou alta de 2,23% no 1; semestre e de 3,37% nos últimos 12 meses. O economista-chefe da Quantitas Asset, Ivo Chermont, afirmou que o resultado veio em linha com o esperado pelo mercado. ;Difícil falarmos de algo ruim em torno da inflação, porque o estrutural do índice mostra que estamos num patamar muito tranquilo;, declarou. ;Trabalhamos com inflação de 3,6% até o fim do ano. Os riscos que temos são para baixo;, completou.

Inevitável

Com o IPCA retraído, o Banco Central não tem mais justificativas para manter a Selic em 6,5% ao ano. ;Não há mais nenhum argumento para manter os juros nesse nível. Passando a reforma, o que é provável que aconteça, teremos amplo espaço para reduções. A inflação está tão fraca que o risco é de que o BC esteja sempre atrasado, tendo que cortar mais;, disse Chermont.

O economista acredita que a diminuição da Selic será de 0,5 ponto percentual, mas há analistas mais cautelosos. Para o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, os indicadores estão bem confortáveis. Os núcleos de inflação estão correndo abaixo da meta, o que mostra que não existem pressões fortes pela frente. ;O indicador reflete o quadro econômico fraco, com ociosidade na economia. Além disso, a tendência é de redução de juros no mundo. Acho que temos todas as condições para cortar a Selic. E, num primeiro momento, seria um corte de 0,25 ponto percentual;, afirmou.

* Estagiária sob supervisão de Rozane Oliveira

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